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A VIDA LIVRE NA MATA VIRGEM
Os índios sempre despertaram o maior interesse na Europa, de modo que parece oportuno aqui narrar sucintamente o que a este
respeito aprendi como testemunha ocular, ou contado por pessoas fidedignas. Os índios das
províncias meridionais do Brasil são genericamente chamados bugres (sic), se bem
que de ascendência vária. Toda a compleição desses puros filhos da
natureza atesta seu grande vigor físico. Não são homens grandes, mas são massudos e
seus musculosos braços têm extraordinária dureza. Não menos notável é a sua perícia
de atiradores. Um índio prisioneiro a quem em minha presença pediram que desse uma
mostra de sua tão gabada perícia nessa matéria, tomou logo uma laranja e colocou a
cinco passos de distância do chão. Em seguida retesou o arco com tão gigantesca energia
que seus dois extremos quase se tocavam e disparou a flecha tão alta ao ar que pareceu
escapar à vista. Esta flecha depois de subir algum tempo, lentamente voltou-se com a
velocidade acelerada à proporção que descia penetrou no chão atravessada a laranja
pelo meio. E repetiu essa façanha diversas vezes consecutivas, sem que uma única vez
errase o alvo. É hábito deles nunca atirarem diretamente, mas em curva, porque as
flechas muito leves, atiradas na horizontal muito depressa se inclinam para o chão. O
mesmo índio prisioneiro acertou a vinte passos num pedacinho de papel, do tamanho duma
noz, que se havia colocado num pau muito duro, e, se bem que fosse apenas de osso a ponta
da flecha, esta penetrou mais de polegada e meia.
O arco é geralmente muito simples e consiste duma vara muito forte, arqueada por uma
corda de um dedo de grossura. As flechas em geral têm mais de cinco pés de comprimento
e, em falta do ferro, são providas de pontas de osso ou de pau. Só algumas vezes esses
filhos da selva logram apoderar-se, de qualquer forma, de alguma fechadura velha ou de
outro pedaço de ferro, que então consideram como grande tesouro e guardam. Aguçam-no
cuidadosamente dos dois lados e lhe fazem ponta e o fixam à flecha. Mas esses projéteis
armados de ferro são guardados como sagrados e só os empregam contra homens ou contra o
tigre; toda outra caça é abatida com a flecha comum que, embora provida apenas de ponta
de osso ou de pau, tem tamanha força que mesmo um porco crescido é por ela atravessado a
ponto de aparecer a metade da flecha do outro lado.
E as flechas para abater pássaros têm em vez da ponta aguda um botão; pois ainda assim
a flecha tem força bastante para abater as aves, mesmo as maiores, se não matando-as
instantaneamente ao menos atordoando-as por certo tempo.
As flechas são sempre extremamentes leves, de uma cana que chamam taquara (sic),
são artisticamente enfeitadas e nos extremos enroladas de fibras vermelhas. A ordem das
penas que lhes aplicam é meticulosamente observada e os índios sabem alterná-las de tal
maneira que o conjunto apresenta uma coloração bonita. Fixam primeiro as penas mais
escuras, e assim gradualmente vão aplicando as outras cores até acabar no branco. Os
meninos ainda não bastante fortes para manejarem o arco paterno brincam com arcos
menores, de duas cordas, com os quais atiram bolas de barro contra os pássaros. Apesar da
imperfeição desse projétil, eles adquirem tal perícia que raramente erram contra as
andorinhas em vôo.
Tão extraordinária quanto a força corporal e a destreza no tiro é a rapidez desses
homens. Nascidos e criados na mata, correm nessas espessuras entrançadas de espinhos, com
uma rapidez que raia pelo incrível. Quem não estiver habituado a andar na mata, mal pode
dar um passo que não deixe pedaços de roupa ou da pele, e esses homens nus correm sem jamais se ferirem, com maior destreza e rapidez do que um europeu em campo
livre.
Vivem sempre a vaguear e em geral ficam a céu aberto; só quando algum sítio muito lhes
agrada, resolvem construir pequenos ranchos de macega ou caniço, mas também os
abandonam logo que notam rarear a caça por causa da constante perseguição ali, ou
quando resolvem um assalto e pilhagem a alguma colônia a beira-mata. Os homens só cuidam
de caça e guerra; todos os mais trabalhos, entre outros carregar os filhos, são tarefa
das mulheres. Mesmo quando estas pobres criaturas têm dois, três ou mais filhos, que por
pequenos ainda são incapazes de acompanhar as longas caminhadas, a elas
competem providenciar para que as crianças acompanhem.
A mulher toma então o mais novo ao colo e amarra os mais com uma embirra às costas e com essa carga
acompanha alegre e lépida a comitiva, que em regra
faz etapas diárias muito fortes. Além das crianças, às vezes as mulheres ainda têm que carregar um saco tecido de fibra, que leva os víveres mais necessários,
bem como um vaso com água, preparado de taquarassu (sic).
O homem vai escoteiro na frente e nada mais
carrega que não seu arco, suas flechas e talvez o seu tacape, a que já me referi. Se
nessas marchas chega o momento de alguma mulher dar à luz, todo o bando para por algum
tempo e acampa em silêncio nas proximidades; só algumas amigas ficam com a parturiente e
lhe prestam o possível auxílio; logo, porém, que estas anunciam ao chefe que o ato
principal daquele drama da reprodução está consumado, a mãe é obrigada a acompanhar
com o recém-nascido a continuação da marcha. Entretanto quase nunca acontece que uma
índia tenha qualquer doença séria em conseqüência dum parto nessas condições.
Os cuidados da cozinha, que aliás não dão muito trabalho, são exclusivamente dever e
obrigação das mulheres. O único utensílio da cozinha é uma vara com ponta, que faz as
vezes de espeto, na qual sem mais preparo é enfiada a caça para assar por alguns minutos
ao fogo e em seguida ser despedaçada a dente e deglutida de maneira verdadeiramente
bestial.
(SEIDLER, Carl. Dez anos no
Brasil)
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Entre os livros estrangeiros sobre o nosso país
existem alguns que foram escritos mais com o intuito de atacar e desmoralizar que criticar
imparcialmente o Brasil. Muitos já foram traduzidos e publicados e não deixaram de
provocar, como é compreensível, uma certa reação da parte do grande público nem
sempre possuidor de serenidade e espírito crítico suficiente para ouvir uma opinião
maldosa, analisá-la e destruí-la com argumentos sérios e desapaixonados. O próprio do
homem superior, isento de complexo de inferioridade, é ouvir a crítica, mesmo infundada,
sem se alterar.
Muitos desses livros não deixam de ter o seu interesse. Nem tudo neles é diatribe. Há sempre muito ensinamento útil e, quando escritos no
século passado, retratam usos abolidos, hábitos e situações posteriormente corrigidas.
São documentos históricos que, comentados com critério, têm um valor muito grande para
o estudo da nossa evolução.
O livro de Carl Seidler cabe, certamente, nessa categoria. O seu autor, aventureiro alemão, vindo ao Brasil com intuito de fazer fortuna rápida, aqui chegando
viu seus sonhos desfeitos. De volta à terra natal escreveu um livro cheio de animosidade sobre o país que não o tornara
milionário
Mas nem tudo no livro de Seidler é mentira e animosidade. Muita cousa há que, vista hoje
em dia, com a perspectiva de um século, retrata a época tumultuosa da formação de
nossa nacionalidade. É preciso, entretanto, que seja criticado com conhecimento dos fatos
relatados e traduzidos com exatidão (
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(Nota de Rubens Borba de Moraes) |