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O CANTO DOS
CARREGADORES
Os africanos, depois de libertos, não possuindo ofício e não querendo entregar-se
aos trabalhos da lavoura, que haviam deixado, faziam-se ganhadores.
Em diversos pontos da cidade (da Bahia) reuniam-se à espera de que fossem
chamados para a condução de volumes pesados ou leves, como fossem cadeirinhas de
arruar, pipas de vinho ou aguardente,
pianos, etc.
Esse pontos tinham o nome de canto e por isso era comum ouvir a
cada momento: "chama ali um ganhador no canto". Ficavam eles sentados
em tripeças a conversar até serem
chamados para o desempenho de qualquer daqueles misteres. Aí também incumbiam-se
eles de outros trabalhos: preparavam rosários de coquilhos com borla de retrós de cores; pulseiras de
couro, enfeitada de búzios e outras de marroquim oleado; fabricavam
correntes de arame para prender papagaios, esteiras e chapéu de palha ouricuri, e bem assim vassouras de
piaçaba; lavavam chapéus de Chile e de outra palha qualquer e consertavam chapéus de
sol.
Uma vez por outra aparecia nos cantos o cabelereiro ambulante, que não só rapava
a cabeça, como também escanhoava o rosto dos parceiros.
Nas horas de descanso entretinham-se a jogar o aiú, que consistia num pedaço de tábua,
com doze partes côncavas, onde se colocavam e retiravam os aiús, pequenos frutos cor de
chumbo, originários da África e de forte consistência. Entretinham-se largo tempo nessa
distração.
Os panos da Costa vinham crespos, e eles os estendiam sobre um toro de madeira, em forma
de cilindro, e com um outro menor, batiam-nos para abrandar a aspereza e dar-lhe lustro.
Também renovavam os mesmos panos tingindo-os.
Mostravam ainda tendências para as artes liberais, esculturando os símbolos feiticistas
de sua seita, tão aperfeiçoados quanto possível.
Cada canto de africanos era dirigido por um chefe a que apelidavam de capitão,
restringindo-se as funções deste a contratar e dirigir os serviços e a receber os
salários. Quando falecia o capitão, tratavam de eleger ou aclamar o sucessor, que
assumia logo a investidura do cargo.
Nos cantos do bairro comercial, esse ato revestia-se de certa solenidade à moda
africana:
Nos cantos tomavam de empréstimo uma pipa vazia em um dos trapiches da rua do
Julião ou do Pilar, enchiam-na de cordas e por estas enfiavam grosso e comprido caibro.
Oito ou doze etíopes, comumente os de musculatura mais possante, suspendiam a pipa e
sobre ela montava o novo capitão do canto, tendo em uma das mãos um ramo de arbusto e na outra uma garrafa de aguardente.
Todo o canto desfilava em direção ao bairro das Pedreiras, entoando os
carregadores monótona cantinela, em dialeto ou patuá africano.
Na mesma ordem, tornavam ao ponto de partida. O capitão recém-eleito recebia as
saudações dos membros de outros cantos e, nessa ocasião fazia uma espécie de
exorcismo com a garrafa de aguardente, deixando cair algumas gotas do líquido.
Estava assim confirmada a eleição.
(Manuel Querino. A raça africana e os seus costumes na Bahia. In: CARNEIRO,
Edison. Antologia do Negro
Brasileiro)
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