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O FERREIRO
Entremos agora na tenda do ferrador. Um pequeno galpão com portão grande para a rua e
tudo aberto para o lado do quintal. Neste e ao ar livre ferram-se os
animais junto ao mourão. A tenda se compõe de um fole de couro de cerca de um metro de
comprimento, a forja, as tenazes de vários formatos, uma
bigorna maior, quase como do ferreiro, a bigorninha pequena, a tina de água para esfriar
o ferro, os martelos.
Compra-se ferro maleável. Sem outro instrumento além do malho e da bigorna o ferrador
fabrica as ferraduras de vários tamanhos, e quente.
Chamam-se craveiras os furos para os cravos.
Batendo a quente com um ferro especial, e rapidamente, o ferrador faz com exatidão, três
a direita e duas ou três a esquerda. A batida não é tão forte, que atravesse o ferro
doutro lado. Já a frio é que com um ferro mais fino se completa o orifício, vinda
assim, a cabeça do cravo a ajustar-se na craveira sem atravessar a ferradura.
Ferradores antigos faziam ferraduras de oitos cravos. Mais raramente, de sete. As duas
pontas arqueadas e salientes, por onde a pata se afirma nas paredes são os rompões. Outrora o rompão era um só, ligando toda a volta.
Atualmente os cravos já vêm feitos em grande quantidade das fábricas. Três
centímetros da ponta agução até a cabeça. Parece incrível, mas só no momento de
ferrar, é que o mestre ferrador fazia as cabeças numa bigorna de menos de um palmo de
comprimento, e a frio. A esta operação, em que ainda não aparece o cavalo, chamava-se
atarracar o cravo.
Em seguida no quintal, o tropeiro segura o muar ou cavalo, um ajudante levanta
a mão do animal e o ferrador com um torquês se é o caso arranca os cravos
e a ferradura velha. É mister cautela com os coices, manotaços e mordidas. A posição
do ferrador é com os joelhos um pouco arcado para frente.
Entra em cena o puxavante. O nome parece indicar objeto que puxasse outro. Nada! É como
um formão de cabo grosso e forte, e ligando-se a folha com um outro pedaço de metal em
ângulo. O aço afiado da ponta, que tem três a quatro centímetros de largura, corta o
casco, preparando-o para nele assentar a ferradura e o casco.
Na posição difícil que fica, o ferrador ficaria ferido ou não faria bem o serviço,
simplesmente cortando o casco com uma lâmina qualquer. Por isso assenta o pé do cabo sobre o peito, enquanto o ajudante segura a perna do animal, tomando o
puxavante e, instintivamente quase, avança e puxa para trás do peito e o corpo cortando
o casco sem ferir as outras partes. Antes ou depois de ferrar, ou antes e depois, usa a grosa, de tal jeito que se ajustem
bem a ferradura e o casco.
Então vai pregar os cravos com jeito para não saírem fora nem dentro, sempre na
muralha. Muralha é a parte exterior, que não dói o casco propriamente dito. Tem menos
de 2 centimetros de largura em volta. A segunda parte para dentro, já é meio óssea, a taipa, e sensível à dor. Seguem-se cartilagens, e os ossos da ranilha, e
enfim, a navicular. Ambas chegam até ao alto do casco.
Em viagem, o arrieiro levava a bigorninha antes
de haver cravos já atarrancados, e sempre a torquês e o
puxavante. Consertava uma ferradura que ia cair, substituía um cravo perdido, tirava espinho, etc. Sempre o trabalho completo era o do ferrador.
Animais de montaria, de estimação, e mulas cargueiras de longas viagens eram sempre
ferradas. Poréns matungos lerdos e burros para
pequenos serviços entre os sítios e vilas nem sempre se ferravam. Por descuido e
pobreza.
(ALMEIDA, Aluísio de. Vida e
morte do tropeiro)
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