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CARNAVAL
Carnaval!
Há por aí alguém que ainda não te tenha pago o tributo?
Tu és perverso e maligno, como aquele anjo decaído, de que rezam as tradições.
Teu nome tudo eletriza. Para o velho és o suplício terrível de Tântalo; para o moço a
ventura e o prazer nessa quadra feliz em que os dias contam-se por primaveras.
Eu confesso que ainda te amo, como a donzela de trinta anos venera o talismã de flores
secas, relíquia preciosa de um primeiro amor.
Já paguei também, leitora, um tributo aos três dias de loucura. Já enverguei uma farda
e já empunhei uma espada, como o senhor Paranaguá, e desses belos tempos conservo as
mais saudosas recordações.
Não se trata, porém, da minha pessoa.
Está em questão o Carnaval.
É a ele e somente a ele a quem vamos consagrar estas linhas.
O carnaval apresenta diversas faces. Estas são distintas e salientes e podem ser
classificadas do seguinte modo:
Os Zés Pereiras.
Os máscaras ambulantes.
Os príncipes, vulgo princeses.
As sociedades.
Os máscaras de casaca.
No grande cortejo do carnaval que desfila, os Zés Pereiras ocupam um lugar de honra.
Place, portanto, aos Zés Pereiras.
Eles são como os Ashaverus da legenda, durante os três dias do prazer, - caminha,
caminham até que extenuados caem em destroços pelas ruas.
Se é permitido ao filósofo poetizar sobre matérias, como aquelas que
buscam a razão e o princípio das coisas; apropriando-me de uma imagem culinária eu
direi que o Zé Pereira é o grande prato de carne cozida do banquete carnavalesco. Só
quem já tem apreciado um Zé Pereira em regra com todos os adubos de tambores, bumbos,
cornetas, flautas rachadas, esteiras velhas, campainhas e trapos, pode aquilatar o
merecimento do tropo.
Não pensem, entretanto, os leitores que pretendo neste folhetim escrever um tratado
científico. Os princípios e as bases dos Zés Pereiras foram postos ainda ontem; limitar
já o campo das investigações de tudo que lhes diz respeito, fôra um impossível!
Um escritor notável definiu a maçonaria uma instituição para comer e beber em boa
companhia.
O Zé Pereira tem seu ponto de contato com a instituição dos
pedreiros-livres é uma invenção feliz, por meio da qual o cidadão pode tocar
bumbo e divertir-se assaz no meio de boa troça.
O bumbo é a alma do Zé Pereira.
Zé Pereira sem bumbo é ministro sem programa, é eleição sem cacete, é câmara
municipal sem questão de carnes verdes.
O Zé Pereira nasceu com o progressismo, e com o progressismo tem também
seus pontos de contato.
Ele é a fusão das idéias democráticas com os princípios
aristocráticos: é o princês aliado à casaca com pães de rala; é o turbante do mouro
de sangue azul em comércio de amizade com o chapéu de palha do carroceiro.
Como o progressismo, de qualquer trapo ele faz bandeira e caminha às cabeçadas pelas
ruas.
Com a câmara municipal tem também o Zé Pereira laços de afinidade: tanto este como
aquele fazem sempre a festa com foguetes.
Tem também ainda a tal associação carnavalesca sua relação com os últimos ministros
ambos ligam-se para a desarmonia.
Os Zés Pereiras tramam-se nos cortiços; em cortiços são discutidos e saem dos
cortiços.
Eis porque eles reúnem em si a nata do quarteirão.
A polícia não os incomoda: são pacatos e respeitadores das liberdades públicas e
individuais em suas explosões de alegria. Se um ou outro se desgarra do programa
traçado, vai ouvir no xadrez da casa da rua do Conde os ecos do bumbo, e a troça caminha
sempre.
Na frente do Zé Pereira vem a bandeira, que consiste quase sempre em três ou quatro
esteiras velhas pregadas a um bambu. Os reformadores já começam a introduzir bandeiras
de colhas e cobertores encarnados.
Nada de cismas; não se desvirtue a instituição a bandeira de esteiras nasceu com
o primeiro Zé Pereira, com ele deve morrer.
Empunha o estandarte valente carroceiro, que se serve neste dia com a prata de casa, isto
é veste-se de capim.
Atrás da bandeira desfilam os bumbos.
Atrás dos bumbos vêm os tambores de latas de biscoito rufando a toda força.
Os costumes dos tambores são de sujeitos sem costumes.
As barrigas indecentes, os enchimentos posteriores ainda mais indecentes e os letreiros
que trazem nos chapéus são dignos de ver-se.
O vestuário de toda a troça, mutatis mutandi, é o seguinte:
Casaca esfarrapada, virada pelo avesso com botões de pão de rala,
dragonas de alhos, uma calça preta com remendos de papel branco e de cartas de jogar e um
chapéu escapelados, de cuja copa sai um abano, onde vê-se quase sempre um letreiro que
indica o espírito do indivíduo.
O mundo que um Zé Pereira percorre nos três dias é infinito.
Permitam-me os leitores que eu volte de novo a falar de mim, para dizer-lhes que já
acompanhei um Zé Pereira.
Quando acordei dessa loucura, estava na Gamboa, tendo percorrido a rua do Ouvidor três
vezes, o largo do Rossio, rua dos Ciganos, campo de Santana, rua do Conde, rua de São
Jorge
tendo feito enfim um itinerário ao redor da cidade do Rio de Janeiro! Eram sete horas da noite. Foi então que comecei a sentir que ainda não tinha
jantado e que merecia uma sopa de vaquetas para não me meter segunda vez naquela troça.
Quando chegamos à Gamboa, grandes eram os destroços. A bandeira voava em mais fragmentos
que os do Digesto. O carroceiro do bumba caiu exausto no chão a gemer com dores
horríveis no braço direito. O seu vestuário vegetal já estava seco e mirrado em
consequência do grande sol e calor que apanhava; mas apesar disso a tropa ainda executava
o clássico bum, bum, bum com um entusiasmo digno de verdadeiros dilettanti.
A tropa que fechava o Zé Pereira arrastava já a língua e não dizia coisa com coisa; em
sua peregrinação fizera escalas por diversas tabernas. Foi então que vi que a
situação ia-se complicando, e que aquilo podia terminar com um desfecho a Molière.
Fiz o mesmo que o homem dos colarinhos no memorável Zé Pereira de 6 de junho; tomei o
partido da prudência e retirei-me para a casa.
Estudemos agora o carnaval em outra face os máscaras ambulantes.
Os máscaras ambulante são um justo meio entre os Zés Pereiras e as
sociedades; por sistema deixam de incorporar-se àqueles, por valiosos motivos de economia
não se reúnem a estas.
Representam os armarinhos e as lojas de retalho.
Andam quase sempre aos três, havendo, em geral, um vestido de mulher,
muito desengonçado, fazendo consistir todo o espírito em requebros e ademanes exagerados.
A edição dos vestuários é mais correta e aumentada que a dos Zés Pereiras.
Trazem calções de belbutina cor de rosa por baixo de
uma blusa de Pierrot, máscara de arame, fitas, botinas inglesas enlameadas, e por
cima de todo este conjunto extravagante um chapéu alto de pelo, que bem mostra que o
indivíduo saiu de casa às pressas.
Outros são velhos de cabeça grande, primando por grandes narizes, grandes lunetas de
papelão e indecentes barrigas. Junta-se a isso o Você me conhece? que eles
dirigem com voz de apito a todos que passam e vão encontrando pelas janelas, um passinho
especial arrastado, assim à guisa de quem quer correr e não quer ao mesmo tempo, e
ter-se-á uma idéia dessas espirituosas máscaras. Eles são sempre seguidos de dois ou
três moleques que gritam: - Olha o mascarado! A este grito sobem crianças à
janela e por sua vez gritam também para dentro Olha o mascarado! o que faz
correr a família toda para ver a engraçada criatura. Então o herói, rempli de soi
même, dá cabeçada pelas paredes com a enorme máscara de papelão, obrigando toda
aquela gente a fugir às gargalhadas.
Estes dizem sempre quando chegam à casa: - divertimo-nos assaz!!!
O divertimento constituiu em ter a cabeça trancada dentro de uma retorta e em suar como
aquilo que eles são.
Estudemos agora os príncipes, vulgo os princeses.
Eles não representam os caixeiros; são todos homens estabelecidos.
Seu vestuário é complicado nos acessórios; mas lógico na essência.
Esta essência é um rodaque, corpinho ou coisa que
melhor nome tenha, apertado por um cinto que prende uma espada de pau coberta de papel
dourado, uma capa de belbutina encarnada, roxa ou azul, semeada de estrelas de metal
branco e debruada de lantejoulas, disposta artisticamente ao redor do ombro
esquerdo, calções de fazenda idem a namorar meias cruas até o joelho, sapatos
ingleses e um penante ornado de penas, que é pena que a minha pena não dê para
descrevê-lo.
O princês constitui um vulto importante no Carnaval.
Haveis de vê-lo à tarde só e isolado, marchando com ar grave e severo pelas nossas
ruas.
O princês é sério quand même. A sua máscara de arame é incapaz de trair um
sentimento, que não seja o da consciência da própria dignidade. A capinha de belbutina,
a espada de pau, as bombachas, a botina inglesa, tudo respira a pureza do sangue azul.
Eis porque, cônscio de si, ele caminha sempre sem dar uma palavra.
Alguns espíritos pequenos, que de tudo criticam, que de tudo censuram, querem enxergar
nesta maneira de proceder falta de espírito e até estupidez.
A crítica é fácil; a arte é difícil.
Os princeses amam em geral as pastoras; esses amores românticos vêm da história.
Com elas vão ao teatro, e percorrem impávidos o salão, desde a porta
até o fundo.
Os princeses são desconfiados: dão bofetadas por dá cá aquela palha, e muitas vezes
todo aquele ouropel vai esbarrar no xadrez da
polícia.
Vanitas, vanitatum, omnia vanitas! [1]
E as sociedades?
Estas reúnem em si o espírito, a nata da mocidade fluminense.
Boêmia, Club X, Estudantes de Heidelberg
tentar enumerá-las
todas, fôra um nunca acabar.
Os Boêmios constituem a personificação mais eloqüente do demônio durante os três
dias de febre.
Eles são tão antigos como o mundo.
Do seio da Boêmia saíram os Gilbert, os Henri Murger, e os primeiros artistas deste
planeta.
Os Boêmios, como o senhor Silveira Lobo [2], são nobres e plebeus ao mesmo tempo.
A divisa nos quoque gens sumus [3] , que figura em suas armas, bem indica que eles não
são miseráveis aventureiros do deus Momo.
Os Boêmios entretanto não têm idéias. O seu deus é o acaso. É ele quem lhes resolve
os problemas mais intrincados da vida.
Detestam os programas, e caminham sem norte e sem direção.
É a escola do senhor Zacarias.
O Club X e os Estudantes de Heidelberg rezam pela mesma cartilha.
Restam os máscaras de casaca.
Esta ordem é grande como o mundo.
Há muita gente neste vale de lágrimas que anda de máscara sem estar mascarado.
O político que fala de suas crenças e de sua abnegação, visando unicamente o
interesse, é um mascarado cem vezes mais perigoso que um dominó intrigante.
Apelamos para o senhor presidente do conselho que é homem que entende de máscaras.
Aquele que, em anos de prosa, fala de amor e de poesia e leva ao altar uma mulher rica,
esconde sob a máscara do desinteresse a fames auri que se lhe ateava no peito.
Neste século de realismo é o mascarado de mais espírito.
Sócrates, sacrificando um galo a Esculápio, estava mascarado quando pregou a unidade de
Deus.
O senhor Zacarias, pregando o direito de revolução, tinha no rosto uma espessa máscara
de arame quando se dizia filho do partido da ordem e das idéias conservadoras.
O homem da guerra andou sempre mascarado em todas as políticas. Ontem em uma sociedade,
hoje em um Zé Pereira, quem sabe em que troça se incorporará amanhã!
Aquele que faz praça de patriotismo, e oferece ao governo um moleque para a guerra,
visando o hábito da Rosa, traz também máscara, e que negra máscara!!
Todos mais ou menos se fantasiam neste mundo.
Há entretanto um homem que nunca se mascarou.
Ele é aquilo que é.
Só ele pode dizer Ego sum qui sum [4]
Ainda não adivinharam.
É o senhor Fernandes Torres, que nunca teve talento para se mascarar.
Parabéns, Excelentíssimo.
OSIRIS
[1]. Vaidades das
vaidades, tudo é vaidade. Versículo bíblico do Eclesiastes.
[2]. Alusão ao político
liberal Francisco de Paula da Silveira Lobo, deputado pelo primeiro distrito de Minas
Gerais e que, no mesmo ano, foi nomeado senador vitalício. Tornou-se republicano em 1878.
[3]. Nós também somos
gente.
[4]. Eu sou quem sou.
(FRANÇA JÚNIOR, Joaquim José da. Política e costumes; folhetins
esquecidos (1867-1868))
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NA REDE:
- Carnaval, a grande festa
(Edição especial de O Estado de São Paulo).
Veja letras de músicas carnavalescas em:
- Museu do Carnaval.
- Bloco Carnavalesco Império da Caipira.
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