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UM PETISCO, A FORMIGA?
Documento dos mais curiosos é o Diário da jornada
que fez o Exmo. Senhor dom Pedro desde o Rio de Janeiro até a cidade de São Paulo e
desta até as Minas, no ano de 1717, existente na Academia das Ciências de Lisboa e
publicado em cópia, por iniciativa de Luís Camilo de Oliveira Neto, na Revista do
Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, nº 3, 1939. Logo após sua
nomeação como Governador da Capitania unida de São Paulo e Minas Gerais, dom Pedro de
Almeida e Portugal, conde de Assumar, dirigiu-se, apenas chegado ao Brasil, do Rio de
Janeiro ao território das Minas de Ouro, passando por São Paulo. O relato dos incidentes
da viagem, que durou pouco mais de quatro meses, é feito por um companheiro anônimo do
Governador. Além das indicações de caráter geográfico, refere-se o Diário aos meios
de viagem utilizados, à situação de povoados e vilas e aos usos e costumes dos
habitantes, tudo observado e descrito com exemplar objetividade. O assunto da
alimentação muito preocupou o diarista e os dados que a esse respeito registra são os
que nos interessam aqui.
Dom Pedro e sua comitiva, mais duma vez, nos ermos em que pousavam, quase
passaram fome em razão do pouco ou quase nada que lhes ofereciam para comer. Em Santos e
São Paulo, pequenas vilas de algumas centenas de casas, o passadio não foi de todo mau.
Comia-se comumente o que as roças produziam, isto é, milho, mandioca, feijão e algumas
frutas da terra, que era o habitual sustento dos paulistas, não se comendo carne senão
em alguns dias do ano. Penetrando no interior, com alguns dias de jornada, só encontraram
para cear, no rancho dum paulista, meio macaco e umas poucas formigas, que era tudo quanto
se achava. O conde agradeceu a opferta e indagou que sabor tinham aquelas iguarias.
Respondeu o paulista que não via naqueles matos circunvizinhos caça mais delicada e que
as formigas eram tão saborosas, depois de cozidas, que nem a melhor manteiga de Flandres a igualava. [1]
Falando da excelência da carne de macaco, muito estimada pelo incola do Brasil, informava numa de
suas cartas o padre Anchieta: "é comida muito saudável para os doentes".
Comer formiga é, provavelmente, invenção indígena, ao menos em nossa terra, porque em
outras também se comem. No primeiro século do Brasil-Colônia, o cronista Gabriel Soares
de Sousa comparava o sabor da tanajura às passas de Alicante, dizendo mais que tucupi com
saúva triturada era prato muito apreciado pelos índiso tapajós. [2]
E os jesuístas, preocupados com a extinção da pior praga do país "ou o Brasil acaba com a formiga, ou a formiga acaba com o Brasil"-,
aconselhavam o consumo diário das tanajuras na alimentação. Outro cronista, o
capuchinho Yves dEvreux, depôs que, no último quartel do século XVI, as aldeias
se despovoavam ao enxamear das saúvas, correndo
homens, mulheres e crianças a dar caça às içás, a que tiravam as asas para depois
torrar e comer.
O naturalista alemão G. W. Freireyss, que percorreu algumas partes do interior do Brasil
pelos anos de 1814 e 1815, assim se referiu ao hábito de comer tanajuras entre a
população de Minas:
"Esta é a época [outubro] em que milhões são consumidas pelo homem e
pelos pássaros. Torram-se com gordura aos grossos abdomes das fêmeas, cheios de ovos,
que segundo a opinião de todos é um verdadeiro petisco. O tórax, com a cabeça e as
asas, joga-se fora." [3]
Os paulistas, notadamente os filhos de Taubaté, conservam até nossos dias a fama de papa-formigas.
Entre as sátiras de Francisco José Pinheiro Guimarães, poeta carioca da primeira metade
do século passado, havia uma, feita na mocidade, que feria os paulistas, e assim
começava:
Comendo içá, comendo cambuquira
Vive a afamada gente paulistana
A mesma a quem chamei gente caipira
Que parece não ser da raça humana
Um petisco, a formiga? Não qualquer formiga, entenda-se, mas a saúva, a içá. Não
torçam o nariz com repugnância ou desdém. Neste caso, tudo não passará de preconceito
alimentar que a razão não justifica. Em louvor da saúva alada da tanajura
torrada, que também se come em Minas e em outras partes do país falará um
ilustre filho de Taubaté, o escritor Monteiro Lobato. Em carta a seu amigo Godofredo
Rangel, escrevia Lobato em data de 20/11/1903:
"Não és capaz, nunca, de adivinhar o que estou comendo. Estou comendo
Tenho vergonha de dizer. Estou comendo um companheiro daquilo que alimentava São João no
deserto: içá torrado! Sabe, Rangel, que o içá torrado é o que no Olimpo grego tinha o
nome de ambrosia? Está diante de mim uma latinha de içá torrado que me
mandam de Taubaté. Nós, taubateanos, somos comedores de içás. Como é bom Rangel!
Prova mais a existência do Bom Deus do que todos os argumentos do Porfírio de Aguiar.
Só um ser Onipotente e Onisciente poderia criar semelhante
petisco". [4]
Um deputado pernambucano chamou recentemente a atenção dos poderes públicos para certo
fato que o escandalizara. Disse que trabalhadores do seu estado se alimentavam de
formigas: "à falta de comida". Pronunciando-se sobre o caso, o médico
Hélio Vecchio Maurício [5], do Instituto de Nutrição,
do Rio de Janeiro, interpretou-o como recurso "usado em época de restrição
alimentar, ou como uma particularidade ou deformação do apetite". Disse não
haver inconveniente maior em consumir na alimentação formigas. Nem havia novidade no
comer insetos, pois os chineses e outros povos consomem na alimentação insetos, ratos e
outros produtos animais que nos causam estranheza. Quanto ao conteúdo alimentar,
esclarecia o mencionado médico, a saúva, como outros insetos, contém no organismo taxas
moderadas de proteínas da ordem de 5% e pequenas quantidades de gorduras e sais minerais.
Não é agradável ao paladar comum? Experimente comê-la o leitor, se não lhe repugna, e
talvez concorde com o entusiasmo de Monteiro Lobato.
1. Diário da jornada
que fes o Exmo Sr. D. Pedro desde o Rio de Janeiro athe a Cidade de São
Paulo
, in Revista do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional,
nº 3, 1939, p. 308.
2.
Citado pelo professor Pirajá da Silva em nota a Gabriel Soares de Sousa, Notícia do
Brasil. Biblioteca Histórica Brasileira. São Paulo, sd, tomo 2, p. 173
Na mesma nota: "As formigas neutras, ápteras, são as saúvas; as
fêmeas aladas, são conhecidas por içá, em São Paulo e em geral pelos sulistas.
Na Bahia, em Minas e Espírito Santo, chamam-na tanajura". Ainda na mesma nota
cita-se A. von Ihering: "antigamente os roliços abdomes das içás eram expostos,
à venda, nos mercados e as tanajuras torradas ou em paçoca ainda são petisco apreciado".
3.
Viagem ao interior do Brasil
, in Revista do Instituto Histórico e
Geográfico de São Paulo, v. IX, 1906, p. 163.
4. A
Barra de Gleyre. São Paulo, 1944, p. 14
5. Correiro
da Manhã. 29/04/1965
(FRIEIRO, Eduardo. Feijão,
angu e couve) |
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