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SERTÃO D'INVERNO

Quando o inverno é constante
o sertão é terra santa;
quem vive da agricultura
tem muito tudo que planta
todo pobre pinta a manta...

Dá milho, feijão,
tem fruta, tem cana,
melão e banana,
arroz, algodão,
as melancias dão
tantas como areia,
o gerimum campeia,
nas roças faz lodo...
Vive o povo todo
de barriga cheia!

Quando finda o mês das festas,
e entra o mês de janeiro,
quem tem roçado, destoca
e encoivara, ligeiro,
cada um quer ter a glória
de ouvir o trovão primeiro.

Com o inverno se alegra
na mata o bravo veado;
nas locas o caitetu
fica todo arrepiado;
salta o mocó no serrote
quando vê o chão molhado...

Com vinte dias de chuva,
logo após a vaquejada,
chega a fartura do leite,
manteiga, queijo e coalhada!
No tempo da apartação
isto é que é festa falada!...

É sim um festão
de muito desejo
para o sertanejo
uma apartação.
Os vaqueiros vão
gado derribar
cada um tirar
pras suas ribeiras...
famílias inteiras
vão a festa olhar.

Se pega a chuva em janeiro,
faz o povo a plantação;
em fevereiro e em março
quatro ou cinco limpas dão;
de vinte de abril em diante
já comem milho e feijão...

Chega a abundância,
reina a alegria,
passa a carestia,
passa a circunstância,
com exuberância
a lavoura duplica
e uma vida rica
passa o sertanejo;
carne gorda e queijo
pamonha e canjica...

E então no mês de julho
o sol já fica mais quente,
caem folhas dos paus,
seca o verde de repente,
é mês de pouco trabalho:
folga quase toda gente...

A rapaziada
quase todo dia,
usa a pescaria
e muita caçada;
vida bem folgada
todo mundo passa,
de mel e de caça
fazem seu vintém,
trajam, passam bem
não choram desgraça...

Nisso entra o mês de agosto
e aí começa o verão:
Entra-se em quebra o milho,
bate-se e guarda o feijão,
desmancha-se, então a cana,
descaroça-se o algodão.

Quando a safra é boa
e o cobre se pega,
ninguém mais sossega
no sertão inteiro
samba é balseiro,
bebedeira é jogo,
por causa do fogo
que dá dinheiro...

(Cascudo, Luís da Câmara. Vaqueiros e Cantadores)

 

Antonio Batista Guedes , nasceu em Bezerros, Pernambuco, e faleceu em Guarabira, Paraíba, 1880 – 1918. Criou-se na fazenda Riacho Verde, na serra do Teixeira, Paraíba, onde trabalhava na agricultura, convivendo nas feiras com os cantadores. Em 1903, mudando-se para Recife, resolveu ser cantador profissional. Começou a versejar, mandando imprimir os versos e os vendia, viajando pelo interior dos sertões e capitais nordestinas. Fixando-se em Guarabira, deixou a cantoria, publicando suas lutas e obras, sendo político. Chegou a delegado de polícia. Conta-se um seu encontro com Germano da Lagoa a quem venceu.

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