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O FOLCLORE DE PAI
JOÃO
O folclore negro dos engenhos, das plantações, das
minas
foi-se definindo em torno dessa personagem de história e de lenda Pai
João. Ela é o Uncle Remus do folclore brasileiro. Pai João é um símbolo.
É o negro velho dos engenhos, muito velho, a avaliar pelo cabelo pixaim que começa a
branquejar:
Negro velho quando pinta
Três vezes trinta,
diz o provérbio popular. Pai João é, portanto quase centenário. Sua figura trôpega,
de fala enrolada e olhos mansos, contava, nos engenhos, velhas histórias da Costa,
contos, anedotas, adivinhas, parlendas. Ou a sua voz tremida modulava cantos arrastados, cantigas da escravidão. A opressão branca que originou a epopéia dos
quilombos, também criou o folclore negro. Pai João é a antítese do quilombola
revoltado. A sua resignação gerou o folclore. Muito embora o folclore contenha em seu bojo germes de revolta. A música e
a dança. E a sátira. O exemplo norte-americano de Harlem é flagrante. O desespero
polifônico do jazz está se cristalizando em potenciais de incontida reação. Mas, no
Brasil, a reação de Pai João é mansa e resignada. Uma raça foi oprimida, mas
enriqueceu o nosso patrimônio econômico. O folclore de Pai João é quase toda a
história do nosso inconsciente ancestral.
Pai João é um símbolo onde se condensam várias personagens: o griot
das selvas africanas, guardador e transmissor da tradição, o velho escravo conhecedor
das crônicas de família, o bardo, o músico cantador de melopéias nostálgicas, o mestre
de cerimônias dos jogos e autos populares negros, o rei ou princípe destronado de
monarquias históricas ou lendárias (Príncipe Obá, Chico-Rei
)
O folclore de Pai João cantou, no Brasil, não apenas as tradições africanas, mas toda
a longa e odiosa história da escravidão, de opressão e martírio: os castigos do
escravo, a perseguição do branco, a saudade das terras livres
tudo isso explodindo
na sátira, na ironia, na revolta resignada:
Quando iô tava na minha terra
Iô chamava capitão
Chega na terra de branco
Iô me chama Pai João
Quando iô tava na minha terra
Comia minha galinha
Chega na terra de branco
Carne seca com farinha
Quando iô tava na minha terra
Iô chamava generá
Chega na terra de branco
Pega o ceto vai ganhá
Dizofôro de branco
Nô si pode aturá
Tá comendo, tá
. Drumindo
Manda negro trabaiá
Branco dize quando morre
Jesus Cristo que levou
E o pretinho quando morre
Foi cachaça que matou
Quando branco vai na venda
Logo diz tá squentádo
Nosso preto vai na venda
Acha copo tá virado
Branco diz preto furta
Preto furta com razão
Sinhô branco também furta
Quando panha casião
Nosso preto furta galinha
Furta saco de feijão
Sinhô branco quando furta
Furta prata e patacão
Nosso preto quando furta
Vai pará na correção
Sinhô branco quando furta
Logo sai sinhô barão
(lundu de Pai João)
Ô lô, ô lá, xê, xê
Lá no nosso terra
Nóis é forro, liberto
Agora chega ni terra de branco
Tá no cativeiro
Ô lô, ô lá, xê, xê
Ô lê, vá gum
Nóis em terra de branco
Tá passando má
Lá em terra nosso
Tamo liberto
Ô lê, vá gum
(cantiga dos engenhos de Alagoas)
A vida doméstica é também cantada no folclore de Pai João, chamando das senzalas a
servir, com Mãe Maria, o sinhô branco:
Ô lô, ô lô, viva Deus
Maria, sô ê, sô ê
Cuma mão quebra bolacha
Com a outra toma café
Cama estreita, deitá no meio
Tentação da pimenta malagueta
Ô lô, ô lô, viva Deus
Maria, sô ê, sô ê
Cuma mão quebra bolacha
Com a outra toma café
(cantiga dos engenhos de Alagoas)
Os seguintes versos, originários dos maracatus, ouvi-os de velhos negros de engenho, de
mistura com cânticos de macumba:
Coqueiro, coqueiro
Coqueiro riá
A dona da casa
Mandou me chamá
Eu topei, não vi
Ô dô, ê quá
Vamo vê mamãe zumbi
Dondi ô lá
Santa Bárba(ra)
Má xangô
A ti nô ê
É ná xangô
Baluaê
As cantigas de "parentes" nos dizem do desprezo em que é tido o negro:
Bango-ê, bango-á
Negro da costa quando nasce
Aperreado
Nasce com os dente arreganhado
Os parente vão dizendo
Ô que cachorro danado!
O aribu quando nasce
Ê xente!
É alvo qui nem papé
Ô parente!
Quando vai ficando grande
Ô xente!
É preto que nem carvão
É verdade
Ô parente!
(negros de Alagoas)
Eu tava na minha rede
Deitado, bem deitado
Chegou perto de mim uma branquinha
Negro toque um bocadinho
Não pode, sinhá, estou doente
Sinhá vá-se embora
Vá-se embora deixe a gente
Chegou perto de mim uma mulata
Negro toque um bocadinho
Que te faço um agradinho
Atrás de agrado de mulata
É que anda, é que anda
Quando pego no adjá tirintim
Peia de branco tava em cima de mim
Ai aiô, ai aiô
Enquanto não gemi,
Peia de branco não parou
Depois disso pra cá
Eu fiz um juramento
Já tava veinho de cacete
E nunca mais peguei em instrumento
(negros de Alagoas)
Negro gêge quando morre
Vai na tumba de bangüê
Os parentes vão dizendo
Urubu tem qui comê
Ocu babá
Ocu gelê
Negro velho
Virou saruê
(negros da Bahia)
Mas Pai João vinga-se a seu modo, enganando o senhor, explodindo a sua revolta nas
cantigas:
Parente tu não te alembra
Daquele boi de meu Sinhô
Qui nóis carregô?
Eu me alembra
Eu me alembra
Levou debaixo do pé de ingazeira
Na beira do rio
Vendemo e partimo dinheiro
Tiririca é faca de cortá
Folga nêgo, branco não vem cá
Se vié, cacete há de levá
Tiririca é faca de cortá
(cantigas dos engenhos de Alagoas)
(RAMOS, Artur. O folclore negro do Brasil)
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