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CEGO ADERALDO
Meu benzinho, diga, diga
Por caridade confesse
Se você já encontrou
Quem tanto bem lhe quisesse
Meu bem, que mudança é esta
Neste teu rosto adorado?
Acabou-se aquele agrado
Com que me fazia festa?
Eu juro que nunca quis
Ofender teu peito nobre
Fala, meu anjo, descobre
Diga, meu bem, que te fiz?
Todo passarinho canta
Quando vem rompendo a aurora;
Só a pobre mãe-da-lua
Quando canta logo chora
Assim eu faço também
Quando meu bem vai se embora!
Fiz um A para te amar
Um B pra bem te querer
Um N pra não deixar-te
Um S só se eu morrer
Canta, canta, passarinho
Faça lá seu ninho agora
Mas depois não vá dizer
Que quem canta também chora
Amo, amo, porque quero
Adeus, minhas encomenda!
O homem, quando é vadio
Morre velho e não se emenda
O amor é como o sono
Que não dispensa ninguém
Eu só comparo é com a Morte:
Ninguém sabe quando vem!
Aquela ingrata cruel
Vejam que pago me deu!
Ninguém nem me fale nela
Que pra mim já morreu
Meu bem, cabocla bonita
Bola de ouro polida
Por ti eu perco o que eu tenho
Até mesmo a própria vida
Minha viola de pinho
Feita de pinheiro macho
Esta viola me pede
Que eu, ao menos, chore baixo
A unha nasce do dedo
O dedoo nasce da mão
Mas a mão nasce do braço
E o braço nasce do vão
A pedra nasce do fogo
O fogo nasce do chão
O amor nasce de dentro
Do intriôr do coração
Quando de ti me apartei
Os astros se demudaram
O vento não ventou mais
As águas todas secaram
Quem parte gosto não tem
Quem fica como terá?
Quem parte põe-se a chorar
Quem fica chora também
Adeus te digo, afinal
Adeus te digo, chorando
Adeus te torno a dizer
Adeus! Até não sei quando!
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Aderaldo Ferreira de Araújo nasceu em
Crato, Ceará, em 1882. Foi batizado no Quixadá, onde dizia ter nascido. Aos dezoito anos
de idade, quando era maquinista da Estrada de Ferro de Baturité, perdeu a visão, após o
que dedicou-se à vida de menestrel, através de todo o norte do país.
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Certa vez, em uma palestra, Leonardo Mota
leu para o cego Aderaldo umas estrofes em que Luís Dantas Quesado falava de coisas
difíceis de serem vistas. Imediatamente, o cego repentista improvisou estas sextilhas:
Só nos falta vê agora
Dá carrapato em farinha
Cobra com bicho-de-pé
Foice metida em bainha
Caçote criá bigode
Tarrafa feita sem linha
Muito breve há de se vê
Pisá-se vento em pilão
Botá freio em caranguejo
Fazê de gelo carvão
Carregá água em balaio
Burro subi em balão
(MOTA, Leonardo. Cantadores) |