Jangada Brasil, nº 6, fevereiro de 1999: Festança – Cena de Carnaval

CENA DE CARNAVAL

 

O Carnaval do Rio e em todas as províncias do Brasil não lembra em geral nem os bailes nem os cordões barulhentos de mascarados na Europa que, comparecem a pé ou de carro nas ruas mais frequentadas, nem às corridas de cavalos chucros tão comuns na Itália.

Os únicos preparativos do carnaval brasileiro consistem na fabricação dos limões de cheiro, atividade que ocupa toda a família do pequeno capitalista, da viúva pobre, da negra livre que se reúne a duas ou três amigas, e finalmente das negras das casas ricas que todas, com dois meses de antecedência e à força de economias, procuram constituir sua provisão de cera.

limão de cheiro, único objeto dos divertimentos do Carnaval, é um simulacro de laranja, frágil invólucro de cera em um quarto de linha de espessura e cuja transparência permite-se ver o volume de água que contém. A cor varia do branco ao vermelho e do amarelo ao verde. O tamanho é o de uma laranja comum; vende-se por um vintém e as menores a dez reis. A fabricação consiste simplesmente em pegar uma laranja verde de tamanho médio, cujo caule é substituído por um pedacinho de madeira de quatro a cinco polegadas que serve de cabo, e mergulhá-la na cera derretida. Operada essa imersão, retira-se o fruto ligeiramente coberto de cera e mergulha-se na água fria, a fim de que se revista de uma película de um quarto de linha de espessura, bastante resistente, entretanto. Parte-se em seguida esse molde, ainda elástico, a fim de retirar a laranja e, aproximando-se as partes cortadas, solda-se o molde de novo com cera quente, tendo-se o cuidado de deixar a abertura formada pelo pedaço de madeira para a introdução da água perfumada com que deve ser enchido o limão.

O perfume de canela, que se exala de todas as casas do Rio de Janeiro durante os dois dias anteriores ao Carnaval, revela a operação, fonte dos prazeres esperados.

Para o brasileiro, portanto, o Carnaval se reduz aos três dias gordos, que se iniciam no domingo às cinco horas da manhã, entre as alegres manifestações dos negros já espalhados nas ruas a fim de providenciarem para o abastecimento em água e comestíveis de seus senhores, reunidos nos mercados ou em torno dos chafarizes e das vendas. Vemo-los aí cheios de alegria e de saúde, mas donos de pouco dinheiro, satisfazerem sua loucura inocente com a água gratuita e o polvilho barato que lhe custa cinco réis.

Com água e polvilho, o negro, nesse dia, exerce impunemente nas negras que encontra toda a tirania de suas grosserias facécias; algumas laranjas de cera roubadas aos senhores constituem um acréscimo de munições de Carnaval para o resto do dia. Ao contrário, um tanto envergonhada, a infeliz negra despenseira vestida voluntariamente com sua pior roupa, quase sempre azul-escura ou preta, volta para casa com o colo inundado e o resto do vestido marcado com o sinal das mãos do negro que lhe enlambuzou de branco o rosto e os cabelos. Quanto ao ros, ela se apressou em limpá-lo para evitar o motejo das companheiras, mas ainda permanecem desenhadas em branco as rugas dos trejeitos que fez para se lavar; e essa expressão fixa, dominando a mobilidade habitual de seus traços, dá a seu rosto uma feiúra monstruosa difícil de descrever [1]; por outro lado, a face achatada do negro, igualmente pintada de branco, perde suas saliências e sua expressão.

Nesses dias de alegria, os mais turbulentos, embora sempre respeitosos para com os brancos, reunem-se depois do jantar nas praias e nas praças, em torno dos chafarizes, a fim de se inundarem de água, mutuamente, ou de nela mergulharem uns aos outros por brincadeira; a vítima, ao sair do banho, pula e faz contorções grotescas, com as quais dissimulam às vezes o seu amor próprio ferido. Quantos às negras, somente se encontram velhas e pobres nas ruas, com o seu tabuleiro à cabeça, cheio de limões de cheiro vendidos em benefício dos fabricantes.

Muitos negros de todas as idades são empregados nesse comércio até a hora da Ave Maria, quando se suspendem os divertimentos.

Vi, durante a minha permanência, certo Carnaval em que alguns grupos de negros mascarados e fantasiados de velhos europeus imitaram-lhes muito jeitosamente os gestos, ao cumprimentar à direita e à esquerda as pessoas instaladas nos balcões; eram escoltadas por alguns músicos, também de cor e igualmente fantasiados.

Mas os prazeres do Carnaval não são menos vivos entre um terço pelo menos da população branca brasileira; quero referir-me à geração de meia-idade, ansiosa por abusar alegremente, nessas circunstâncias, de suas forças e habilidade, consumindo a enorme quantidade de limões de cheiro disponíveis.

Domingo ainda, mas depois do almoço, o vendeiro procura provocar o vizinho da frente, com incidentes insignificantes, a fim de atraí-lo à rua e jogar-lhe o primeiro limão ao rosto. Alguns jovens franceses empregados no comércio, passeiam como se fossem sentinelas avançadas, armados de limões, e aproveitam a oportunidade para inundar uma senhora, também francesa, ocupada no fundo da loja semi-fechada. Vêem-se também jovens negociantes ingleses, consagrando de bom grado 12 a 15 francos a um quarto de hora de brincadeira lícita, passear com orgulho e arrogância, acompanhados por um negro vendedor de limões, cujo tabuleiro esvaziam pouco a pouco, jogando os limões às ventas de pessoas que nem sequer conhecem. Alguns gritos, entrecortados de gargalhadas, revelam ao locatário do primeiro andar, cujo cômodo de frente já foi esvaziado de seus móveis, por precaução, que chegou a hora de abrir as janelas, ou para evitar que se quebrem os vidros ou para se preparar ele próprio para a batalha de limões. Alguns curiosos assimam aos balcões e logo desaparecem e a manhã toda decorre entre escaramuças.

Depois da refeição, entretanto, sentindo-se todos dispostos ao combate, correm às janelas e alegremente solicitam, de longe, e com gestos, licença para começar; ao mais ligeiro assentimento limões trocados com habilidade e pontaria dão o sinal do ataque geral; e, durante mais de três horas, vê-se grande quantidade desses projéteis hidróferos cruzando-se de todos os lados nas ruas da cidade e estourando contra um rosto, um olho ou um colo. A ducha decorrente, de mais ou menos um copo de água aromática, suporta-se agradavelmente em vista do calor extremo da estação.

É natural que, após semelhante combate, toda a sociedade de um balcão, molhada como ao sair de um banho, se retire para mudar de roupa; mas logo volta com o mesmo entusiasmo. E uma moça sempre se orgulha do grande número de vestidos que lhe molharam nesses dias gloriosos para seus dotes de habilidade.

Se a batalha de limões, graças a essa familiaridade espontânea tolerada durante três dias seguidos, se torna muitas vezes a causa de novas relações entre beligerantes, é ela por outro lado motivo de isolamento para as pessoas tranquilas, que se fecham em casa e não ousam sair à janela. Eis em resumo, a história do carnaval brasileiro; quanto ao episódio aqui desenhado, eis a explicação: a cena se passa à porta de uma venda, instalada como de costume numa esquina. A negra sacrifica tudo ao equilíbrio de seu cesto, já repleto de provisões que traz para seus senhores, enquanto o moleque, de seringa de lata na mão, joga um jato de água que a inunda e provoca um último acidente nessa catástrofe carnavalesca. Sentada à porta da venda, uma negra mais velha ainda, vendedora de limões e de polvilho, já enlambuzada, com seu tabuleiro nos joelhos, segura o dinheiro dos limões pagos adiantado, que um negrinho, tatuado voluntariamente com barro amarelo, escolhe, como campeão entusiasta das lutas em perspectiva. Perto desse e da porta pequena da venda, outro negro, orgulhoso da linha vermelha traçada na testa, adquire um pacote de polvilho a um pequeno vendedor de nove a dez anos; em cima, uma negra dispõe-se a vingar com um limão o punhado de polvilho que lhe recobre a face e parte do olho; ao lado da mesma porta, outro negro, grotescamente tatuado, está de tocaia. O vendeiro, tendo retirado precipitadamente todos os comestíveis que de costume expõe à sua porta, deixou tão-somente garrafas cobertas de palha trançada, abanadores e vassouras.

No fundo do quadro podem-se observar famílias tomadas da loucura do momento, uma vendedora ambulante de limões, negros lutando e um pacífico cidadão escondido atrás de seu guarda-chuva aberto e que circula por entre restos de limões de cera.

A Ave Maria impõe uma trégua e algumas rondas policiais acabam por implantar a paz.

A venda muda então, de aspecto; mal iluminada e cheia de fumaça das fritadas, torna-se, como diariamente aliás, o ponto de encontro de todos os negros, já mais calmos, que aí vêm, de prato na mão, comprar sardinhas ou peixes-galos servidos no vinagre, ceia comum às pessoas das classes pobres e aos escravos, e recurso tanto mais procurado, quanto o vendeiro chega a vender seis peixes fritos por um vintém. No dia seguinte, para liquidar os restos da véspera, vende ele o dobro pela mesma importância.

[1] É sempre uma das mais velhas escravas que preenche essa função.

(DEBRET, Jean Baptiste. Viagem pitoresca e histórica ao Brasil)

 

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