Ano V - dezembro  2002 - nº 52

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 52
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
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PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA

setaquad.gif (95 bytes)Quando há lua no fim de ano, por Ademar Vidal

setaquad.gif (95 bytes)O cabelo humano na feitiçaria, por João Dornas Filho.

setaquad.gif (95 bytes)O diabo e os santos do mato. A influência do sentimento religioso na denominação das plantas.

CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...


O DIABO E OS SANTOS DO MATO

Gentil de Camargo


Apreciável como sabemos é a contribuição do vocabulário eclesiástico para a linguagem popular e para a linguagem erudita.

Aqui vem a talho de foice a afirmação de Albert Dauzat, reproduzida na portada de um dos capítulos de minha "Sintaxe caipira do vale do Paraíba" e que versa sobre alimentação (Revista do Arquivo Municipal de São Paulo, v.37, 1937). Eis o que diz o mestre: "Le langage populaire est intimement lié à l’histoire des moeurs et des costumes, à l’histoire locale, à la psichologie sociale, au folclore". (Les Patois. Paris, Ed. Delagrave, 1927, p.8-9).

Alinharei a seguir exemplos de influência religiosa em denominações botânicas. Nessa relação, a influência infernal aparece dez vezes e a divina, 49, o que já é de bom augúrio.

O diabo no mato

Arre diabo (J. Oligandra Mull. Arg.): planta urticante, produz inflamações.

Café do diabo (do gênero casearia): acredita-se que seja tóxica.

Coração do diabo (terens geometrizans, Mart.): é o mandacaru do sertão.

Cornos do diabo (proboscidea): usada na medicina popular; é anti-peçonhento.

Herbe du diable (plumbago seadena, L): vegetal assim chamado em São Domingos; no nordeste chamam-no "louco" porque causa loucura aos animais.

Espinho do diabo (tribulus terrestres, L): tóxica em certas épocas do ano; causadora da tribulosis das abelhas.

Figo do inferno (argenome mexicano, L): também conhecido por cardo santo; tóxico para animais, anti-diarréico, diaforético; as sementes são purgativas.

Figueira do inferno (euforbiacea): tóxica.

Flor do diabo (aristolochia): fétida e medicinal; os indígenas chamavam-na anhangá potira, urubu-çaa.

Papo de saci (aristolochia cymbifera, Mart. e Zuecc., var. labiosa): trepadeira com flores que fedem à carniça.

Maçã de sodoma (solamum sodomaeum, L): tida como estimulante.

Os santos do mato

Ameixa de frade (buncosia): vegeta nas encostas dos Andes, onde se denominam ciruelas de fraile.

Angélica (gênero crygium): há grande variedade: exótica, de jardim, angélica do mato ou angélica cheirosa, etc.

Árvore do céu (simarubacea): de grande porte; usa-se a casca como vermífugo e contra a febre puerperal.

Árvore do paraíso (elaegans angustifolio): segundo F. C. Hoene, é denominação errada do sabugueiro.

Árvore do rosário (melia asederach): árvore ornamental, cinamomo.

Árvore santa: desenvolvimento médio; a casca e raízes usam-se como opilação e como vomitivo.

Babado de nossa senhora (macrosiphonia): tóxica para o gado.

Barba de são pedro (polygala brasiliensis, Marb.): expectorante e vomitiva; produz saponina; encontra-se, entre outros, nos lugares úmidos da serra do Mar.

Beijo de frade (impatiens balsamina, L): há variedades; "a água provoca diabetes" (Huascar Pereira).

Cardo santo: ver figo do inferno.

Casca da virgindade (stryphnodendron barbatimao, Mart.): barbatimão, dayb - árvore; ara - agente; tumon - que aperta; árvore de boa madeira e aromática; as folhas e as cascas em cozimento têm emprego conhecido.

Casta suzana (polemen coerulem, L.): planta de jardim.

Cevada santa (hordeum distichon, Lam.): tem o mesmo emprego da cevada.

Chá de frade (Lippia pseudo-thea, Schauer.): arbusto de folhas aromáticas; peitoral e estimulante.

Cinco chagas (troposlu majus, L.): comem-se os frutos em conserva e as flores cruas em saladas.

Cipó de são joão (pyrostegia vermusta, Mers.): trepadeira ornamental.

Coração de jesus (mykamia officinalis, Mart.): também conhecido como erva de sapo; anti-febril.

Coração de frade: ver cordão de frade.

Cordão de frade (Leonurus sibiricus, L.): tônico, excitante, contra reumatismo.

Cordão de são francisco (leonotis nepetaefolis, R. Br.): usado contra males dos rins e histeria.

Coroa de cristo (paliurus aculeatus, Lam.): arbusto espinhoso usado para cerca viva.

Coroa de frade (das mouririas): trepadeira; as sementes são usadas como adorno.

Erva de santo agostinho (baccharis vulneraria, Bak.): sub-arbusto; vulnerário.

Erva benta (geun urbanum): erbacea; é aromática e comível.

Erva de santa luzia (pistria stratioles, L.): cresce sobre águas estagnadas.

Erva de santa maria (chenopodium ambrosioides, L.): sub-arbusto; vermicida, emenagogo, abortivo.

Erva de são martinho (sauvagesia erecta, L.): estomáquica e anti-febril; contra oftalmia, retenção de urina e doenças dos pulmões.

Espinheira santa (gênero maytenus): usada contra úlcera do estômago e hiperacidez.

Espinheiro de santo antônio: arbusto da família das leguminosas.

Fava de santo inácio (ivillea trilobata, L.): trepadeira; sementes drásticas e tóxicas.

Fava divina (simarubacea):o porte das sementes livra de animais peçonhentos.

Flor de cardeal (apomoea quamoclitis, L.): tem váriso empregos medicinais; contra veneno de cobra, escrofula, reumatismo; as folhas e flores torradas dão rapé contra dor de cabeça.

Flor de santa cruz (symplocas platyphylla, Mart.): também conhecida por sete sangrias; casca e raízes amargas, febrífugas.

Flor de são joão: ver cipó de são joão.

Folhas de santana (veronia macrophylla, Less.): arbusto ornamental.

Flor de são miguel (petrea sub-serrata, Cham.): também dita flor de viúva; é ornamental.

Flor de quaresma (tibouchina mutabilis, Cogn.): diz-se ainda quaresmeira, flor dos passos; a árvore cobre-se de flores.

Fungo sagrado: cactácea do México; produz euforia e alucinações.

Melão de são caetano (suomordica charantia, L.): trepadeira; frutos amarelos de sementes vermelhas comíveis, contra reumatismo e estomáquico.

Melão de são vicente: o mesmo que melão de são caetano.

Lignum sanctum: madeira da América Central.

Palma de santa maria: gladíolo de que há várias espécies.

Pau de santa luzia (dalbergia, sp.): leguminosas; o óleo das nozes emprega-se na iluminação.

Pau de santo (cabralea cangerana, Sald.): o mesmo que cangerana, de que há várias espécies; boa madeira.

Pau de são josé: o mesmo que pau de santo.

Quina de santa luzia (do gênero exostema): inscreve-se na variedade de quinas com igual emprego.

Rosa de jericó (odontospermum pygmaeum, L.): a roseira é sub-arbusto; símbolo religioso.

Rosa de nossa senhora (paeonia officinalis, L.): arbusto conhecido também por peônia; ornamental, aromático, medicinal.

Sacra-ancora: assim eram denominados o ópio e sub-produtos, devido ao seu poder sedativo, esperança e alívio de sofredores.

* * *

A cada um dos nomes há ligeiríssima referência, somente no intuito de provar sua existência e nada mais. Na classificação científica, entre outros, foram consultados Huascar Pereira, F. C. Hoene, Pio Corrêa.

É apenas sucinta amostra de influência do sentimento religioso na denominação das plantas. Observa-se o mesmo em outros departamentos da linguagem.



(Camargo, Gentil de. "O diabo e os santos do mato". A Gazeta. São Paulo, 21 de maio de 1960, suplemento Folclore)

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