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| PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre
plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos;
orações; devoções; magia e feitiçaria... |
O DIABO E OS SANTOS DO MATO |
Apreciável como sabemos é a contribuição do vocabulário eclesiástico para a
linguagem popular e para a linguagem erudita.
Aqui vem a talho de foice a afirmação de Albert Dauzat, reproduzida na portada de um dos
capítulos de minha "Sintaxe caipira do vale do Paraíba" e que versa sobre
alimentação (Revista do Arquivo Municipal de São Paulo, v.37, 1937). Eis o que diz o
mestre: "Le langage populaire est intimement lié à lhistoire des moeurs et
des costumes, à lhistoire locale, à la psichologie sociale, au folclore".
(Les Patois. Paris, Ed. Delagrave, 1927, p.8-9).
Alinharei a seguir exemplos de influência religiosa em denominações botânicas. Nessa
relação, a influência infernal aparece dez vezes e a divina, 49, o que já é de bom
augúrio.
O diabo no matoArre diabo (J. Oligandra Mull. Arg.): planta urticante,
produz inflamações.
Café do diabo (do gênero casearia): acredita-se que seja tóxica.
Coração do diabo (terens geometrizans, Mart.): é o mandacaru do sertão.
Cornos do diabo (proboscidea): usada na medicina popular; é anti-peçonhento.
Herbe du diable (plumbago seadena, L): vegetal assim chamado em São Domingos; no
nordeste chamam-no "louco" porque causa loucura aos animais.
Espinho do diabo (tribulus terrestres, L): tóxica em certas épocas do ano;
causadora da tribulosis das abelhas.
Figo do inferno (argenome mexicano, L): também conhecido por cardo santo; tóxico
para animais, anti-diarréico, diaforético; as sementes são purgativas.
Figueira do inferno (euforbiacea): tóxica.
Flor do diabo (aristolochia): fétida e medicinal; os indígenas chamavam-na
anhangá potira, urubu-çaa.
Papo de saci (aristolochia cymbifera, Mart. e Zuecc., var. labiosa):
trepadeira com flores que fedem à carniça.
Maçã de sodoma (solamum sodomaeum, L): tida como estimulante.
Os santos do mato
Ameixa de frade (buncosia): vegeta nas encostas dos Andes, onde se denominam ciruelas
de fraile.
Angélica (gênero crygium): há grande variedade: exótica, de jardim, angélica
do mato ou angélica cheirosa, etc.
Árvore do céu (simarubacea): de grande porte; usa-se a casca como vermífugo e
contra a febre puerperal.
Árvore do paraíso (elaegans angustifolio): segundo F. C. Hoene, é denominação
errada do sabugueiro.
Árvore do rosário (melia asederach): árvore ornamental, cinamomo.
Árvore santa: desenvolvimento médio; a casca e raízes usam-se como opilação e como
vomitivo.
Babado de nossa senhora (macrosiphonia): tóxica para o gado.
Barba de são pedro (polygala brasiliensis, Marb.): expectorante e vomitiva; produz
saponina; encontra-se, entre outros, nos lugares úmidos da serra do Mar.
Beijo de frade (impatiens balsamina, L): há variedades; "a água provoca
diabetes" (Huascar Pereira).
Cardo santo: ver figo do inferno.
Casca da virgindade (stryphnodendron barbatimao, Mart.): barbatimão, dayb -
árvore; ara - agente; tumon - que aperta; árvore de boa madeira e aromática; as folhas
e as cascas em cozimento têm emprego conhecido.
Casta suzana (polemen coerulem, L.): planta de jardim.
Cevada santa (hordeum distichon, Lam.): tem o mesmo emprego da cevada.
Chá de frade (Lippia pseudo-thea, Schauer.): arbusto de folhas aromáticas;
peitoral e estimulante.
Cinco chagas (troposlu majus, L.): comem-se os frutos em conserva e as flores cruas
em saladas.
Cipó de são joão (pyrostegia vermusta, Mers.): trepadeira ornamental.
Coração de jesus (mykamia officinalis, Mart.): também conhecido como erva de
sapo; anti-febril.
Coração de frade: ver cordão de frade.
Cordão de frade (Leonurus sibiricus, L.): tônico, excitante, contra reumatismo.
Cordão de são francisco (leonotis nepetaefolis, R. Br.): usado contra males dos
rins e histeria.
Coroa de cristo (paliurus aculeatus, Lam.): arbusto espinhoso usado para cerca
viva.
Coroa de frade (das mouririas): trepadeira; as sementes são usadas como adorno.
Erva de santo agostinho (baccharis vulneraria, Bak.): sub-arbusto; vulnerário.
Erva benta (geun urbanum): erbacea; é aromática e comível.
Erva de santa luzia (pistria stratioles, L.): cresce sobre águas estagnadas.
Erva de santa maria (chenopodium ambrosioides, L.): sub-arbusto; vermicida,
emenagogo, abortivo.
Erva de são martinho (sauvagesia erecta, L.): estomáquica e anti-febril; contra
oftalmia, retenção de urina e doenças dos pulmões.
Espinheira santa (gênero maytenus): usada contra úlcera do estômago e
hiperacidez.
Espinheiro de santo antônio: arbusto da família das leguminosas.
Fava de santo inácio (ivillea trilobata, L.): trepadeira; sementes drásticas e
tóxicas.
Fava divina (simarubacea):o porte das sementes livra de animais peçonhentos.
Flor de cardeal (apomoea quamoclitis, L.): tem váriso empregos medicinais; contra
veneno de cobra, escrofula, reumatismo; as folhas e flores torradas dão rapé contra dor
de cabeça.
Flor de santa cruz (symplocas platyphylla, Mart.): também conhecida por sete
sangrias; casca e raízes amargas, febrífugas.
Flor de são joão: ver cipó de são joão.
Folhas de santana (veronia macrophylla, Less.): arbusto ornamental.
Flor de são miguel (petrea sub-serrata, Cham.): também dita flor de viúva; é
ornamental.
Flor de quaresma (tibouchina mutabilis, Cogn.): diz-se ainda quaresmeira, flor dos
passos; a árvore cobre-se de flores.
Fungo sagrado: cactácea do México; produz euforia e alucinações.
Melão de são caetano (suomordica charantia, L.): trepadeira; frutos amarelos de
sementes vermelhas comíveis, contra reumatismo e estomáquico.
Melão de são vicente: o mesmo que melão de são caetano.
Lignum sanctum: madeira da América Central.
Palma de santa maria: gladíolo de que há várias espécies.
Pau de santa luzia (dalbergia, sp.): leguminosas; o óleo das nozes emprega-se na
iluminação.
Pau de santo (cabralea cangerana, Sald.): o mesmo que cangerana, de que há várias
espécies; boa madeira.
Pau de são josé: o mesmo que pau de santo.
Quina de santa luzia (do gênero exostema): inscreve-se na variedade de quinas com
igual emprego.
Rosa de jericó (odontospermum pygmaeum, L.): a roseira é sub-arbusto; símbolo
religioso.
Rosa de nossa senhora (paeonia officinalis, L.): arbusto conhecido também por
peônia; ornamental, aromático, medicinal.
Sacra-ancora: assim eram denominados o ópio e sub-produtos, devido ao seu poder sedativo,
esperança e alívio de sofredores.
* * *
A cada um dos nomes há ligeiríssima referência, somente no intuito de provar sua
existência e nada mais. Na classificação científica, entre outros, foram consultados
Huascar Pereira, F. C. Hoene, Pio Corrêa.
É apenas sucinta amostra de influência do sentimento religioso na denominação das
plantas. Observa-se o mesmo em outros departamentos da linguagem.
(Camargo, Gentil de. "O diabo e os santos do
mato". A Gazeta. São Paulo, 21 de maio de 1960,
suplemento Folclore) |
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