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| PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre
plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos;
orações; devoções; magia e feitiçaria... |
O CABELO HUMANO NA FEITIÇARIA |
Há em Minas Gerais um grande número de abusões e feitiçarias de origem africana que
tem o cabelo como elemento principal da sua manipulação.
Do meu arquivo constam três peças desse gênero, que passarei a copiar como as colhi.
Existia em Ouro Preto uma formosa mundana que, tendo rendido a seu capricho todos os
homens que desejava, viu o seu orgulho ferido pela esquivança de um apenas.
Ofendida por esse fracasso, a mundana, mancomunada com uma escrava, preparou a mandinga na
forma de um bolo apetitoso e enviou-o, em nome de um amigo, ao insubmisso varão, que mal
comido o quitute, se renderia incondicionalmente aos encantos da astuciosa mulher.
Mas, acontece que quem recebeu o presente foi a esposa do desejado amante que,
desconfiando da procedência da bandeja, deu o bolo a comer a um cão do seu marido. E,
devorado o manjar, esse cão, como que atraído por forças irresistíveis, partiu
celeremente, seguido pela escrava da senhora, segundo recomendações desta, para saber o
destino que tomara o animal.
Atingida a casa da mundana, o cão pôs-se a latir e a forçar a porta com impaciência. E
a mundana, supondo tratar-se do homem que desejava, se apresenta toda orgulhoa para ver
rendido o rebelde a seus pés, quando é violentamente cingida pelo animal que, erguido
nas patas traseiras, a abraçava com o furor de um amante.
O bolo fora confeccionado com cabelo pubiano da mundana.
Esta outra foi colhida em Santa Bárbara:
Uma jovem desgraciosa se apaixonara por um rapaz, dono de uma tropa de muares que
arranchava semanalmente na fazenda do seu pai.
Como o tropeiro, por desdém ou qualquer outro motivo, não tomasse conhecimento do
interesse da moça, resolveu recorrer a um feitiço manipulado com alguns fios de cabelo
do rapaz. Para isto, obteve, por intermédio de um empregado do tropeiro, a mecha
desejada, alegando que era para ter uma lembrança do esquivo mancebo.
Recebida e preparada a mandinga, ficou a moça à espera dos resultados.
Uma noite é ela acordada por fortes pancadas na porta do seu quarto, acompanhadas de
fortes berros e espirros. Aberta a porta, um bode grande e amarelo, ostentando uma longa
barba loura, procurava refugiar-se nas suas saias. É que a mandinga fora feita com os
cabelos da barba desse bode, insidiosamente fornecidos pelo empregado do tropeiro.
Esta é de Santa Luzia:
Uma moça se apaixonou por um arrieiro de tropa que não fazia caso dela. A pedido da
namorada infeliz, alguém ficara de lhe arranjar uns fios de cabelo do arrieiro, mas, em
vez disso, arranjou-lhe fios do couro que reveste a cangalha.
Feito o despacho, começa a cangalha a dar pinotes em direção da casa da moça, onde
estacou e só perdeu o "encanto" quando a rapariga deitou no fogo o despacho.
A versão que recolhi em Sabará é a de que, tendo chegado à cidade, nos tempos
coloniais, um ouvidor jovem e belo, não tardou que por ele se interessasse uma certa
donzela, talvez já impaciente de arranjar casamento. E como o juiz não se movesse por
força dos ardis costumeiros, não titubeou ela em lançar mão da mandinga dos cabelos.
Para isto, tentou peitar o escravo do senhor, para conseguir uns fios de barba quando ele
se barbeasse.
O fiel escravo contou ao moço o sucedido e combinou-se que se levasse cabelo raspado de
um surrão que o amo possuía.
Manipulado o despacho, é a moça acordada certa noite com fortes pancadas na porta.
Levanta-se com sofreguidão e verifica, antes de desmaiar para falecer no dia seguinte,
que era um surrão de couro que se acutilava à porta do quarto.
Existem por aí centenas de variantes, cujo fundo é sempre a ingerência do cabelo na
manipulação do trabalho de macumba.
(Dornas Filho, João. "O cabelo humano na
feitiçaria". Estado de Minas, 22 de abril de 1962, 3ª
seção, p.2) |
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