Ano V - dezembro  2002 - nº 52

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 52
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA

setaquad.gif (95 bytes)Quando há lua no fim de ano, por Ademar Vidal

setaquad.gif (95 bytes)O cabelo humano na feitiçaria, por João Dornas Filho.

setaquad.gif (95 bytes)O diabo e os santos do mato. A influência do sentimento religioso na denominação das plantas.

CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...


QUANDO HÁ LUA NO FIM DO ANO

Ademar Vidal


Para se saber se a próxima estação invernosa será boa ou má faz o homem do Nordeste experiências curiosas. No sertão há várias formas de conhecimento prévio. Afirma-se antecipadamente se haverá chuva, se haverá seca. Essas predições não falham, nunca falham. Até certo ponto acontece o mesmo com o povo que vive na zona da mata. O inverno, por mais escasso, não traz para esta área o cortejo de infelicidades que costuma proporcionar à região sertaneja, mesmo porque há sempre água em certa abundância para socorrer as populações necessitadas. Nem por isso o matuto deixa de fazer as suas experiências de Santa Luzia — e outras experiências. A mais conhecida — e de uma precisão espantosa, é aquela referente ao fim do ano.

Os festejos de Natal desfrutam prestígio considerável no ânimo do povo. Todo o seu trabalho duro e sem compensações apenas tem único sentido: participar das festas de fim de ano. Se a safra correr boa, sem maiores complicações, se o preço do açúcar e do algodão atingir posição favorável, não restará dúvida de que o dinheiro não sendo folgado, há de chegar, todavia, para comprar uma camisa, vestidos de chita para a mulher e as filhas, e depois ir com a família tomar parte no baile de casamento de algum parente ou de algum amigo. Esses "afortunados" constituem sociedade a parte, desde que o geral é ficar como está: gente rota e de pés descalços, olhando o tempo, formando "sereno", mas ainda assim alegremente se mostrando reconciliada com a sorte. Não pode torcê-la conforme deseja, ao seu modo. O jeito é aceitá-la e conformar-se, esperando dias melhores.

As festas de Natal são festas do povo. Vai-se à missa do galo: as mulheres gostam muito de ir à missa, fazem tudo para não perdê-la. Têm suas promessas a pagar. Já os homens são diferentes: eles preferem ficar no jogo das barracas que formam o divertimento em torno da igreja, no coco animado pelo vinho tinto, brincadeira querida porque não precisa de mulher. Pois mulher nem sempre há para essas danças de requebros que de comum acabam na faca de ponta.

As mulheres, essas estão ouvindo missa, estão rezando, estão pagando as promessas feitas durante o ano, gostam muito do padre e o seu Natal estará ganho desde que tenham cumprido com os deveres católicos, pouco se incomodando com qualquer divertimento rolando lá por fora. Fim de ano constitui a melhor oportunidade que se apresenta para desvio daquele viver igual na sua monotonia cotidiana. Fim de ano encerra todas as esperanças rurais. Os anseios todos são porque ele seja bom e corra sem novidades de sangue. Não traga muita briga. Que seja portador de venturas e bonanças gerais.

E tudo a depender do inverno [*]. Então se faz a experiência que não engana. O matuto goza de injusta fama: é tido como muito besta. Nada disso, o homem tem sabedoria somente inferior ao do sertanejo que é louco por dinheiro, trabalhador e com invejáveis reservas de energia. E, como este, possui as suas observações de certeza matemática que não admitem controvérsias. Se a lua clareia as noites de Natal e Ano Bom, pode-se ter a segurança de que as chuvas do inverno vindouro vão ser abundantes. Haverá enchente no rio, a cheia será enorme, a safra andará em mar de felicidade. O contrário, isto é, havendo escuridão, apenas as estrelas cintilando na sua luz escassa, deve-se garantir que os dias que se vão proximamente viver não serão agradáveis: a terra estará seca, a lavoura vai ficar murcha, feia e, por conseguinte, a safra há de trazer prejuízos para o povo sofredor.

Sendo fim de ano claro, é motivo para que a gente pobre tenha esperança de folgar mais.



* Na várzea se costuma dizer:

Festa no escuro,
planta no seguro.

Procuram-se os lugares baixos para plantar, os lugares úmidos. E dizem ainda:

Festa no claro,
planta em todo canto.

Indicativo de que o inverno vai ser bom.



(Vidal, Ademar. Lendas e superstições; contos populares brasileiros. Rio de Janeiro, Empresa Gráfica O Cruzeiro, 1950, p.297-298)

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