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| PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre
plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos;
orações; devoções; magia e feitiçaria... |
QUANDO HÁ LUA NO FIM DO ANO |
Para se saber se a próxima estação invernosa será boa ou má faz o homem do Nordeste
experiências curiosas. No sertão há várias formas de conhecimento prévio. Afirma-se
antecipadamente se haverá chuva, se haverá seca. Essas predições não falham, nunca
falham. Até certo ponto acontece o mesmo com o povo que vive na zona da mata. O inverno,
por mais escasso, não traz para esta área o cortejo de infelicidades que costuma
proporcionar à região sertaneja, mesmo porque há sempre água em certa abundância para
socorrer as populações necessitadas. Nem por isso o matuto deixa de fazer as suas
experiências de Santa Luzia e outras experiências. A mais conhecida e de
uma precisão espantosa, é aquela referente ao fim do ano.
Os festejos de Natal desfrutam prestígio considerável no ânimo do povo. Todo o seu
trabalho duro e sem compensações apenas tem único sentido: participar das festas de fim
de ano. Se a safra correr boa, sem maiores complicações, se o preço do açúcar e do
algodão atingir posição favorável, não restará dúvida de que o dinheiro não sendo
folgado, há de chegar, todavia, para comprar uma camisa, vestidos de chita para a mulher
e as filhas, e depois ir com a família tomar parte no baile de casamento de algum parente
ou de algum amigo. Esses "afortunados" constituem sociedade a parte, desde que o
geral é ficar como está: gente rota e de pés descalços, olhando o tempo, formando
"sereno", mas ainda assim alegremente se mostrando reconciliada com a sorte.
Não pode torcê-la conforme deseja, ao seu modo. O jeito é aceitá-la e conformar-se,
esperando dias melhores.
As festas de Natal são festas do povo. Vai-se à missa do galo: as mulheres gostam muito
de ir à missa, fazem tudo para não perdê-la. Têm suas promessas a pagar. Já os homens
são diferentes: eles preferem ficar no jogo das barracas que formam o divertimento em
torno da igreja, no coco animado pelo vinho tinto, brincadeira querida porque não precisa
de mulher. Pois mulher nem sempre há para essas danças de requebros que de comum acabam
na faca de ponta.
As mulheres, essas estão ouvindo missa, estão rezando, estão pagando as promessas
feitas durante o ano, gostam muito do padre e o seu Natal estará ganho desde que tenham
cumprido com os deveres católicos, pouco se incomodando com qualquer divertimento rolando
lá por fora. Fim de ano constitui a melhor oportunidade que se apresenta para desvio
daquele viver igual na sua monotonia cotidiana. Fim de ano encerra todas as esperanças
rurais. Os anseios todos são porque ele seja bom e corra sem novidades de sangue. Não
traga muita briga. Que seja portador de venturas e bonanças gerais.
E tudo a depender do inverno [*]. Então se faz a experiência que não engana. O matuto
goza de injusta fama: é tido como muito besta. Nada disso, o homem tem sabedoria somente
inferior ao do sertanejo que é louco por dinheiro, trabalhador e com invejáveis reservas
de energia. E, como este, possui as suas observações de certeza matemática que não
admitem controvérsias. Se a lua clareia as noites de Natal e Ano Bom, pode-se ter a
segurança de que as chuvas do inverno vindouro vão ser abundantes. Haverá enchente no
rio, a cheia será enorme, a safra andará em mar de felicidade. O contrário, isto é,
havendo escuridão, apenas as estrelas cintilando na sua luz escassa, deve-se garantir que
os dias que se vão proximamente viver não serão agradáveis: a terra estará seca, a
lavoura vai ficar murcha, feia e, por conseguinte, a safra há de trazer prejuízos para o
povo sofredor.
Sendo fim de ano claro, é motivo para que a gente pobre tenha esperança de folgar mais.
* Na várzea se costuma dizer:
Festa no escuro,
planta no seguro.
Procuram-se os lugares baixos para plantar, os lugares úmidos. E dizem ainda:
Festa no claro,
planta em todo canto.
Indicativo de que o inverno vai ser bom.
(Vidal, Ademar. Lendas
e superstições; contos populares brasileiros. Rio de Janeiro, Empresa Gráfica
O Cruzeiro, 1950, p.297-298) |
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