O século XXI chegou e já não é novidade... A era da comunicação, da internet, do
aqui e agora ligando povos, geográfica e culturalmente tão diversos em um mesmo tempo
real, é fato no planeta Terra, embora com graus gritantes de distorções. A imagem, a
realidade é expressada nua e crua, sem simbolismos e linguagens figuradas. "Pão
pão, beijo beijo". "Preto no branco".
Mas nem sempre foi assim. Num passado cronologicamente não tão distante, o uso da
linguagem simbólica das flores era freqüente e mesmo corriqueiro na comunicação dos
enamorados, principalmente. Para tal era necessário o conhecimento e interpretação das
duas regras básicas relacionadas às cores e perfumes e à significação emblemática
das flores. As de tons claros e perfumes suaves significavam sentimentos ternos, piedosos
e respeitosos, enquanto as de tonalidades fortes e perfumes penetrantes traduziam
emoções mais ardentes. Por exemplo: a alfazema exprimia carinho e respeito e o cravo,
amor ardente. Uma rosa vermelha exprimia amor ardente, enquanto um jasmim era entendido
por quero ser todo seu.
De acordo com a cor básica, as flores exprimiam sentimentos que variavam de intensidade
conforme os tons mais ou menos fortes. Assim, o vermelho, a cor do amor, simbolizava ardor
- ardor exaltado ou violento (nas tonalidades fortes) ao ardor moderado e caprichoso (nos
tons pálidos). O azul significava ternura ternura intensa e apaixonada à ternura
discreta e confiante. O verde traduzia esperança - esperança secreta à esperança
nascente. O amarelo exprimia felicidade felicidade completa ou alegria intensa à
felicidade nova ou alegria terna. O violeta simbolizava dor - dor viva e profunda à dor
passada e esquecida. O branco era a cor da inocência e pureza e o preto, cor do luto e
tristeza. E, da combinação entre cores, tonalidades, símbolos e a própria flor, as
múltiplas mensagens de amor iam sendo enviadas e decifradas pelos enamorados de então.
Abaixo uma relação das flores cultivadas no Brasil e que foram bastante usadas pelos
enamorados no século XIX e meados do século XX e agora ilustram o folclórico simbolismo
das flores nas mensagens amorosas. Observa-se a seguinte ordem: nome da flor,
significação, cor e linguagem simbólica.
Alecrim - coração feliz azul: sou feliz quando te vejo.Alfazema - carinho e
respeito azul: amo-vos perfeitamente.
Amor-perfeito - pensamento afetuoso - todas as cores: penso em vós.
Crisântemo - amor findo rosa: não tenho novo amor branco: não me
compreendeis. azul: acreditei um instante em vós.
Azálea - prazer de amar branca: feliz por saber ser amado.
Begônia - cordialidade - rosa ou branca: amizade cordial.
Boa-noite - discrição - várias cores: a prudência se impõe.
Cravo - ardor branco: a minha amizade é viva vermelho: amo-vos com
ardor.
Cravinas - admiração - todas as cores: sou vosso escravo.
Crista-de-galo - impaciência vermelho: diz-me o que pensas.
Dália - reconhecimento vermelha: o vosso amor é minha felicidade.
amarela: o meu coração transborda de amor.
Erva-cidreira - energia branca: tenho pena de fazer sofrer o meu amor.
Girassol - fascinação amarelo: só a vós vejo.
Hortelã - memória branca: guardo recordações e tenho esperanças.
Hortênsia - capricho azul: desgostam-me teus caprichos.
Lírio - coração terno branco: amo-vos ternamente. matizado: amo-vos
com felicidade.
Lírio-branco - pureza branco: são puros os meus sentimentos.
Maravilha - tristeza - branca ou rosa: longe de vós entristeço.
Margarida - aspiração branca: os meus pensamentos e o meu amor são vossos.
Miosótis - fiel recordação azul: não vos esqueças de mim.
Narciso - egoísmo - vaidade branco: não tendes coração.
Orquídea - ardor branca: amor puro. rajada: amor ambicioso.
Papoula - fraco ardor vermelha: antes de tudo amemos.
Perpétua - eterna saudade - várias cores: dor que não se extingüe.
Rosa - amor branca: amor triste. rosa: juramento de amor.
vermelha: amor ardente.
Rosa silvestre - felicidade efêmera - branca ou rosa: os dias felizes passam depressa.
Sensitiva - extrema sensibilidade cinzenta: um nada me desgosta.
Trevo - incerteza rosa: muito gostaria de saber.
Tulipa - declaração - todas as cores: declaração de amor.
Urtiga - crueldade - branca amarelada: desgosta-me a vossa crueldade.
Violeta - amor oculto violeta: que ninguém saiba de nosso amor.
Esta linguagem simbólica das flores é hoje, principalmente, uma lembrança do
passado, guardado na memória de alguns. Testemunho de uma época, de um tempo em que,
para se marcar um encontro, por exemplo, mandava-se um buquê tendo ao centro um gladíolo
- flor que significava entrevista. O número de flores correspondia à hora marcada... É
o tempo passou: já não se oferta flor como antigamente.
Referência bibliográfica
GRAVE, J.; COELHO NETO. Flores (linguagem das). In: Lello & Irmãos Editores. Lello
Universal em 4 volumes - Novo Dicionário Luso-brasileiro. 1ª ed.. Porto,Lello &
Irmãos 1°. v.2, p. 1055-1058.