Ano V - dezembro  2002 - nº 52

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 52
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA

setaquad.gif (95 bytes)Cantigas de cegos, por Veríssimo de Melo.

setaquad.gif (95 bytes)Zé da Luz, um tipo popular do Recife antigo, por Eustórgio Wanderley.

setaquad.gif (95 bytes)No mercado, no Rio de Janeiro em 1865, por Elizabeth Cary Agassiz.

PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

OFICINA - Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária; artesanato; vendedores ambulantes; pregões...

ZÉ DA LUZ

Eustórgio Wanderley


O homem que, há quase meio século, empolgou a atenção de todo o Brasil - Herói da campanha de Canudos - O pioneiro da aviação nacional - Harmoniosa vocação para o vôo e para a música

- Viva Zé da Luz!...

- Viva! Viva!...

Eram estes os brados, as exclamações entusiásticas que se ouviam no Recife durante a miemorável tarde de 6 de outubro de 1906, quando José Pereira da Luz - simples oficial reformado do Exército - fizera um espetacular vôo em um balão esférico, descendo, ou antes, caindo no subúrbio de Tegipió, de onde veio, carregado nos braços do povo, até o centro da cidade, alguns quilômetros distante. Naquela época não havia ninguém tão popular na capital pernambucana como seu Zé da Luz e seu balão, tendo sido, naquela tarde da sua memorável ascensão, promovido pelo povo, ao posto de capitão, o que foi, apenas, confirmado pelo governo; expedindo-se-lhe a respectiva patente.


Fibra de sertanejo

A vida do capitão Zé da Luz, por ele mesmo relatada, tem qualquer coisa de novelesco, de sensacional.

Nasceu no Limoeiro do Norte, poucos anos antes da guerra com o Paraguai, e dizia que se recordava da “caçada” feita aos “voluntários” a fim de marcharem para o sul.

Depois, durante a terrivel seca de 1877, foi “retirante” com toda a família, composta de pai, mãe e numerosos irmãos, dizimados pela fome e pelas maleitas (sezões). Ele próprio escapou de morrer,  quando, atacado pelo mal, ardendo em febre, mendigava um gole d’água, que lhe era negado!...

Rapazinho, sem família - pois os pais haviam falecido e os irmãos mais velhos tomaram, cada qual, seu rumo na vida difícil de então - fez-se ele trabalhador na estrada de ferro (Great Western), ganhando a fabulosa diária de... 5 tostões!...

Tinha inata a vocação musical. Ficava, principalmente nas noites enluaradas, “inventando, de cabeça”, toadas e modinhas que cantarolava. Seu sonho de jovem era possuir urna viola!... Com os maiores sacrifícios conseguiu economizar alguns tostões, dos cinco que ganhava por dia, trabalhando no “pesado”, de sol a sol... E comprou uma viola. Sem mestre algum, conseguiu afinar-lhe as cordas de aço, chegando a dedilhá-la, acompanhando-se nas toadas que inventava e nas modinhas que modulava. Seu amor à viola era tão grande que, muitas vezes, dormiu abraçado a ela.

Era tão suave e doce, tão leve e poético ganhar a vida tocando viola, que deixou o rude serviço da Great Western para ser violeiro nas festas populares, nos batizados, casamentos, etc. Mas tinha outras aspirações.

Foi, então, para o Recife, onde se empregou em casas de família, para fazer serviços domésticos. Em uma dessas casas havia um piano e uma jovem que o dedilhava. Ao ouvir aqueles sons harmoniosos do piano, o matutinho caboclo ficou maravilhado e, no seu atordoamento, deixou cair um jarro de porcelana finíssimo que se partiu!

Foi despedido do emprego!...

Não poderia, entretanto ficar parado. Assentou praça na Companhia de Bombeiros, “ali no Cais José Mariano”, sob o coroando do capitão Jerônimo dos Passos, outra figura, aliás, popularíssima do Recife, nos fins do século passado.


Incrível resistência física

Casou e começaram a lhe nascer os filhos. Seu amor à música jamais arrefecera. A Companhia de Bombeiros não tinha banda de musica. Era composta, apenas, de umas três ou quatro dezenas de valorosos rapazes que, ao sinal de rebate, corriam, arrastando, eles próprios, as carretas com as mangueiras e escadas, para dar combate ao incêndio, muitas vezes em locais distantes, onde já chegavam fatigados pela estafante corrida!...

Zé da Luz, deixando os bombeiros, assentou praça no 14º Batalhão de Infantaria. Alegando ter “bom ouvido” foi mandado para a banda de música. Em pouco tempo sabia solfejar e lhe meteram nas mãos uma clarineta e depois uma requinta, de mais difícil execução.

Em 1897 explode a “guerra de Canudos”, tão bem descrita pelo imortal estilista Euclides da Cunha.

O 14º de Infantaria partiu para combater os valentes “jagunços” na malograda expedição do general Artur Oscar.

Em meio da refrega a banda “debandara” ante a investida dos sertanejos, e o jovem músico fora violentamente interpelado por um oficial:

- Onde já se viu matar jagunço com uma clarineta na mão?! Pega um fuzil, rapaz!

O músico largou o instrumento da harmonia e apanhou o instrumento da morte, atirando-se, corajosamente, ao combate contra seus próprios patrícios!.

Não tardou que sentisse um choque em pleno peito, seguido de uma dor aguda que o fez cair e ficar sem sentidos, como morto: uma bala lhe atravessara o pulmão esquerdo, saindo nas costas!... Encomendou sua alma a Deus e esperou a morte, asfixiado pela hemorragia interna.

Horas depois ouviu que diziam perto dele:

- Esse está morto. Bota pro cemitério!

Diante dessa ordem macabra, teve ele forças para entreabrir os olhos e exclamar:

- Não!... Eu... ainda... estou vivo! Piedade!... Não acreditaram, nem tiveram piedade. Foi arrastado para um cemitério improvisado ali niesmo, onde ficou, vários dias, sem socorro, entre a vida e a morte!

Incrível era sua grande resistência! É o proprio capitão Zé da Luz quem relata o que aconteceu depois:

- “Fazia-se a “retirada” de Canudos, em grande confusão, depois da derrota, e eu não sabia como havia de ir, ferido como estava. Foi quando apareceu uma mulher vendendo rapadura, em um burrico. Como me restasse algum dinheiro do soldo que havia recebido, comprei tudo. Comi as rapaduras e montei no burrico. Estava salvo!

Sofri muito até alcançar Salvador, onde, por fim, cheguei, sendo hospedado no convento de São Bento”.

Sempre a música e a aeronáutica

Voltando ao Recife, deu baixa do Exército, sendo reformado e, para viver, comprou um fonógrafo, onde eram gravados, não em discos, mas em cilindros de cera, o que se passava de mais importante e as músicas em voga. Os matutos, a quem ele exibia seu fonógrafo lhe pagavam, e ele ia vivendo.

Certa vez, em visita a um compadre, abriu um Dicionário enciclopédico português e, na letra B, viu as gravuras de vários balões...

Renasceu-lhe n'alma seu antigo desejo de voar, desde quando certa noite, ainda menino viu, no céu do seu sertão, uma chuva de estrelas...

Já nesse tempo ele havia deixado as exibições do fonógrafo e, como sempre tivera “bom ouvido”, se dedicara à afinação de pianos, consertando-os também.

Todo o dinheiro que podia economizar nessa sua nova profissão ele o guardava, destinando-o a fabricar... um balão!... Fabricou o primeiro, que depois de pronto, se incendiou. Fez o segundo, que teve o mesmo triste fim.

Zé da Luz não desanimava: ia fabricar o terceiro, quando um seu amigo, negociante rico, lhe disse:

- Vou a Paris e de lá te mando um “balão ile verdade... e de seda”...

E mandou. O aeronauta pernambucano recebeu de Paris, fabricado pela Casa Lachambre, um grande aerostato esférico, comportando seiscentos metros cúbicos de gás quando cheio. Enquanto esperava que chegasse de Paris o balão prometido, Zé da Luz construiu um “pára-quedas de algodãozinho” impermeabilizado e, com ele, se atirou do alto das muralhas da fortaleza das Cinco Pontas!

O Pára-quedas, porém, foi “amigo da onça”: não se abriu e o pára-quedista caiu em cima de um boi que passava!...

Fraturou, na queda, uma das pernas.

Quando o balão chegou, já ele estava, entretanto, com a perna consertada. Deu-lhe o nome de Brasil e sua ascenção, como já disse, a 6 de outubro de 1906 - foi um delírio.

Realizou ainda mais três “vôos” no Recife, depois no Ceará, na Bahia e no Rio, em Niteroi, não tendo obtido êxito ali. Na penúltima ascenção, na Capital Federal, elevando-se do Campo de Santana, caiu no mar, sendo socorrido na baía de Guanabara, trazido para terra, onde o puseram em um carro, arrastado com triunfo pelo povo até o Catete, de onde foi saudado, de uma das janelas do palácio, pelo presidente Afonso Pena!


Uma cordinha e sacos de areia

O capitão Zé da Luz subia ao sabor do vento... Ia para onde o vento o levava. . . Como “aparelhos de náutica aérea” tinha apens... uma cordinha e sacos de areia. Quando queria subir mais, deitava fora a areia dos sacos. Quando qtteria descer, puxava a cordinha da válvula, por onde se escapava o gás ascensional e... só.

Sua vocação para o vôo era também para o suicídio... pelo seu ideal de aeronauta.


No Bico do Papagaio

Em 10 de janeiro de 1908, durante a permanência no Rio de Janeiro de um navio de guerra norte-americano, a Ligth lhe forneceu o gás necessário para encher seu aerostato e ele se elevou, mais uma vez, aos céus do Brasil, levando na “barquinha” uma bandeira brasileira e outra norte-americana, aplaudido por grande parte da população carioca, e por 4.000 marinheiros ianques. Ao passar no alto do Bico do Papagaio a barquinha ficou presa em uns galhos de árvores dali. Para não rasgar o invólucro de seda do seu balão, o aeronáutico caiu de grande altura e fraturou o braço esquerdo em três pontos. Passou seis meses recolhido a um hospital, na iminência de ter o braço amputado. Foi seu derradeiro vôo no balão Brasil.


O capitão era poeta

Voltou a trabalhar na sua oficina de consertar e afinar pianos, na rua de Santana, auxiliado pelos seus filhos Humberto e Carlos da Luz, sendo que este último é perito-contador. Há poucos anos desejou ele ir ao Recife ‘‘matar saudades da terra”. Foi, por via aérea, em teco-teco, voltando, porém, em um Douglas. A bordo da aeronave escreveu várias quadras, todas começando por uma invocação ao “farol da barra do Recife”, assim:

Farol da barra do Recife
Que do Capibaribe a foz prateia,
Oh! Sentinela do Brasil querido,
Da cidade de Nassau és a candeia

Farol da barra do Recife
De Pernambuco, oh! símbolo perfeito!
Transforma em luz, por sobre a minha terra,
A sanidade que habita no meu peito!

Como se vê, o caboclo pernambucano, pioneiro da aviação no Brasil, alçava seus vôos também ao Parnaso, conseguindo, com inspiração e estro poético elevado, cavalgar o indomável Pégaso, dedilhando, assim, a lira de Apolo...

E o povo, satisfeito com o seu herói, cantava e dançava o estribilho de um coco:

-O pau rolou... caiu...
Seu Zé da Luz subiu...



(Wanderley, Eustórgio. Tipos populares do Recife antigo. 2ª série, 2ª edição. Recife, Colégio Moderno, 1953-1954, p.213-218)

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