O homem que, há quase meio século, empolgou a atenção de todo o Brasil - Herói da
campanha de Canudos - O pioneiro da aviação nacional - Harmoniosa vocação para o vôo
e para a música- Viva Zé da Luz!...
- Viva! Viva!...
Eram estes os brados, as exclamações entusiásticas que se ouviam no Recife durante a
miemorável tarde de 6 de outubro de 1906, quando José Pereira da Luz - simples oficial
reformado do Exército - fizera um espetacular vôo em um balão esférico, descendo, ou
antes, caindo no subúrbio de Tegipió, de onde veio, carregado nos braços do povo, até
o centro da cidade, alguns quilômetros distante. Naquela época não havia ninguém tão
popular na capital pernambucana como seu Zé da Luz e seu balão, tendo sido, naquela
tarde da sua memorável ascensão, promovido pelo povo, ao posto de capitão, o que foi,
apenas, confirmado pelo governo; expedindo-se-lhe a respectiva patente.
Fibra de sertanejo
A vida do capitão Zé da Luz, por ele mesmo relatada,
tem qualquer coisa de novelesco, de sensacional.
Nasceu no Limoeiro do Norte, poucos anos antes da guerra com o Paraguai, e dizia que se
recordava da caçada feita aos voluntários a fim de marcharem
para o sul.
Depois, durante a terrivel seca de 1877, foi retirante com toda a família,
composta de pai, mãe e numerosos irmãos, dizimados pela fome e pelas maleitas (sezões).
Ele próprio escapou de morrer, quando, atacado pelo mal, ardendo em febre,
mendigava um gole dágua, que lhe era negado!...
Rapazinho, sem família - pois os pais haviam falecido e os irmãos mais velhos tomaram,
cada qual, seu rumo na vida difícil de então - fez-se ele trabalhador na estrada de
ferro (Great Western), ganhando a fabulosa diária de... 5 tostões!...
Tinha inata a vocação musical. Ficava, principalmente nas noites enluaradas,
inventando, de cabeça, toadas e modinhas que cantarolava. Seu sonho de jovem
era possuir urna viola!... Com os maiores sacrifícios conseguiu economizar alguns
tostões, dos cinco que ganhava por dia, trabalhando no pesado, de sol a
sol... E comprou uma viola. Sem mestre algum, conseguiu afinar-lhe as cordas de aço,
chegando a dedilhá-la, acompanhando-se nas toadas que inventava e nas modinhas que
modulava. Seu amor à viola era tão grande que, muitas vezes, dormiu abraçado a ela.
Era tão suave e doce, tão leve e poético ganhar a vida tocando viola, que deixou o rude
serviço da Great Western para ser violeiro nas festas populares, nos batizados,
casamentos, etc. Mas tinha outras aspirações.
Foi, então, para o Recife, onde se empregou em casas de família, para fazer serviços
domésticos. Em uma dessas casas havia um piano e uma jovem que o dedilhava. Ao ouvir
aqueles sons harmoniosos do piano, o matutinho caboclo ficou maravilhado e, no seu
atordoamento, deixou cair um jarro de porcelana finíssimo que se partiu!
Foi despedido do emprego!...
Não poderia, entretanto ficar parado. Assentou praça na Companhia de Bombeiros,
ali no Cais José Mariano, sob o coroando do capitão Jerônimo dos Passos,
outra figura, aliás, popularíssima do Recife, nos fins do século passado.
Incrível resistência física
Casou e começaram a lhe nascer os filhos. Seu amor à
música jamais arrefecera. A Companhia de Bombeiros não tinha banda de musica. Era
composta, apenas, de umas três ou quatro dezenas de valorosos rapazes que, ao sinal de
rebate, corriam, arrastando, eles próprios, as carretas com as mangueiras e escadas, para
dar combate ao incêndio, muitas vezes em locais distantes, onde já chegavam fatigados
pela estafante corrida!...
Zé da Luz, deixando os bombeiros, assentou praça no 14º Batalhão de Infantaria.
Alegando ter bom ouvido foi mandado para a banda de música. Em pouco tempo
sabia solfejar e lhe meteram nas mãos uma clarineta e depois uma requinta, de mais
difícil execução.
Em 1897 explode a guerra de Canudos, tão bem descrita pelo imortal estilista
Euclides da Cunha.
O 14º de Infantaria partiu para combater os valentes jagunços na malograda
expedição do general Artur Oscar.
Em meio da refrega a banda debandara ante a investida dos sertanejos, e o
jovem músico fora violentamente interpelado por um oficial:
- Onde já se viu matar jagunço com uma clarineta na mão?! Pega um fuzil, rapaz!
O músico largou o instrumento da harmonia e apanhou o instrumento da morte, atirando-se,
corajosamente, ao combate contra seus próprios patrícios!.
Não tardou que sentisse um choque em pleno peito, seguido de uma dor aguda que o fez cair
e ficar sem sentidos, como morto: uma bala lhe atravessara o pulmão esquerdo, saindo nas
costas!... Encomendou sua alma a Deus e esperou a morte, asfixiado pela hemorragia
interna.
Horas depois ouviu que diziam perto dele:
- Esse está morto. Bota pro cemitério!
Diante dessa ordem macabra, teve ele forças para entreabrir os olhos e exclamar:
- Não!... Eu... ainda... estou vivo! Piedade!... Não acreditaram, nem tiveram piedade.
Foi arrastado para um cemitério improvisado ali niesmo, onde ficou, vários dias, sem
socorro, entre a vida e a morte!
Incrível era sua grande resistência! É o proprio capitão Zé da Luz quem relata o que
aconteceu depois:
- Fazia-se a retirada de Canudos, em grande confusão, depois da
derrota, e eu não sabia como havia de ir, ferido como estava. Foi quando apareceu uma
mulher vendendo rapadura, em um burrico. Como me restasse algum dinheiro do soldo que
havia recebido, comprei tudo. Comi as rapaduras e montei no burrico. Estava salvo!
Sofri muito até alcançar Salvador, onde, por fim, cheguei, sendo hospedado no convento
de São Bento.
Sempre a música e a aeronáutica
Voltando ao Recife, deu baixa do Exército, sendo
reformado e, para viver, comprou um fonógrafo, onde eram gravados, não em discos, mas em
cilindros de cera, o que se passava de mais importante e as músicas em voga. Os matutos,
a quem ele exibia seu fonógrafo lhe pagavam, e ele ia vivendo.
Certa vez, em visita a um compadre, abriu um Dicionário enciclopédico português
e, na letra B, viu as gravuras de vários balões...
Renasceu-lhe n'alma seu antigo desejo de voar, desde quando certa noite, ainda menino viu,
no céu do seu sertão, uma chuva de estrelas...
Já nesse tempo ele havia deixado as exibições do fonógrafo e, como sempre tivera
bom ouvido, se dedicara à afinação de pianos, consertando-os também.
Todo o dinheiro que podia economizar nessa sua nova profissão ele o guardava,
destinando-o a fabricar... um balão!... Fabricou o primeiro, que depois de pronto, se
incendiou. Fez o segundo, que teve o mesmo triste fim.
Zé da Luz não desanimava: ia fabricar o terceiro, quando um seu amigo, negociante rico,
lhe disse:
- Vou a Paris e de lá te mando um balão ile verdade... e de seda...
E mandou. O aeronauta pernambucano recebeu de Paris, fabricado pela Casa Lachambre, um
grande aerostato esférico, comportando seiscentos metros cúbicos de gás quando cheio.
Enquanto esperava que chegasse de Paris o balão prometido, Zé da Luz construiu um
pára-quedas de algodãozinho impermeabilizado e, com ele, se atirou do alto
das muralhas da fortaleza das Cinco Pontas!
O Pára-quedas, porém, foi amigo da onça: não se abriu e o pára-quedista
caiu em cima de um boi que passava!...
Fraturou, na queda, uma das pernas.
Quando o balão chegou, já ele estava, entretanto, com a perna consertada. Deu-lhe o nome
de Brasil e sua ascenção, como já disse, a 6 de outubro de 1906 - foi um delírio.
Realizou ainda mais três vôos no Recife, depois no Ceará, na Bahia e no
Rio, em Niteroi, não tendo obtido êxito ali. Na penúltima ascenção, na Capital
Federal, elevando-se do Campo de Santana, caiu no mar, sendo socorrido na baía de
Guanabara, trazido para terra, onde o puseram em um carro, arrastado com triunfo pelo povo
até o Catete, de onde foi saudado, de uma das janelas do palácio, pelo presidente Afonso
Pena!
Uma cordinha e sacos de areia
O capitão Zé da Luz subia ao sabor do vento... Ia para
onde o vento o levava. . . Como aparelhos de náutica aérea tinha apens...
uma cordinha e sacos de areia. Quando queria subir mais, deitava fora a areia dos sacos.
Quando qtteria descer, puxava a cordinha da válvula, por onde se escapava o gás
ascensional e... só.
Sua vocação para o vôo era também para o suicídio... pelo seu ideal de aeronauta.
No Bico do Papagaio
Em 10 de janeiro de 1908, durante a permanência no Rio
de Janeiro de um navio de guerra norte-americano, a Ligth lhe forneceu o gás necessário
para encher seu aerostato e ele se elevou, mais uma vez, aos céus do Brasil, levando na
barquinha uma bandeira brasileira e outra norte-americana, aplaudido por
grande parte da população carioca, e por 4.000 marinheiros ianques. Ao passar no alto do
Bico do Papagaio a barquinha ficou presa em uns galhos de árvores dali. Para não rasgar
o invólucro de seda do seu balão, o aeronáutico caiu de grande altura e fraturou o
braço esquerdo em três pontos. Passou seis meses recolhido a um hospital, na iminência
de ter o braço amputado. Foi seu derradeiro vôo no balão Brasil.
O capitão era poeta
Voltou a trabalhar na sua oficina de consertar e afinar
pianos, na rua de Santana, auxiliado pelos seus filhos Humberto e Carlos da Luz, sendo que
este último é perito-contador. Há poucos anos desejou ele ir ao Recife
matar saudades da terra. Foi, por via aérea, em teco-teco, voltando,
porém, em um Douglas. A bordo da aeronave escreveu várias quadras, todas começando por
uma invocação ao farol da barra do Recife, assim:
Farol da barra do Recife
Que do Capibaribe a foz prateia,
Oh! Sentinela do Brasil querido,
Da cidade de Nassau és a candeia
Farol da barra do Recife
De Pernambuco, oh! símbolo perfeito!
Transforma em luz, por sobre a minha terra,
A sanidade que habita no meu peito!
Como se vê, o caboclo pernambucano, pioneiro da aviação no Brasil, alçava seus vôos
também ao Parnaso, conseguindo, com inspiração e estro poético elevado, cavalgar o
indomável Pégaso, dedilhando, assim, a lira de Apolo...
E o povo, satisfeito com o seu herói, cantava e dançava o estribilho de um coco:
-O pau rolou... caiu...
Seu Zé da Luz subiu...
(Wanderley, Eustórgio. Tipos
populares do Recife antigo. 2ª série, 2ª edição. Recife, Colégio Moderno,
1953-1954, p.213-218)
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