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| OFICINA
- Nesta seção, textos sobre profissões; ferramentas; técnicas; agricultura, pecuária;
artesanato; vendedores ambulantes; pregões... |
As nossas cantigas de cegos não foram ainda recolhidas e estudadas convenientemente. Há
breves registros em livros, comentários de historiadores da música, pequena colheita por
parte de folcloristas ou musicológos. Carecemos, entretanto, de estudo mais amplo,
abrangendo todo o país, tanto da parte musical como da poética, seleção das melhores
cantigas e cotejo das variantes regionais, temas preferidos, influência de santos nesses
cantos de pedir esmolas.
Manifestação legítima do populário, tal como os pregões ou o aboio, essas cantigas de
cegos estão geralmente catalogadas como cantos de trabalho. É assim que Oneyda Alvarenga
as considera, no seu livro Música popular brasileira [1], pela sua
"destinação utilitária definida." Herança portuguesa acrescenta
Oneyda são em geral tristonhas e monótonas, muito européias de caráter."
Flausino Rodrigues Vale [2] fixou um desses cantos em Sabará, "por sinal muito
terno", diz ele referindo que Mário de Andrade também o recolheu num
dos estados do sul. A letra é esta:
Com licença de vancê,
Boa tarde meu sinhô,
Vim pedi vossa mercê
Uma esmola pru favor.
Tenha dó deste coitado,
Tenha dó e compaixão
Que ele vive sepultado
Numa eterna escuridão.
Na primeira quadrinha, o termo "sinhô" e a expressão "vossa mercê"
atestam a antigüidade da cantiga, com ranços ainda da escravidão. Outro modelo falando
em "vintém", foi recolhida no Nordeste, por Nestor Diógenes [3], mas em
sextilha:
Meus irmão me dêem uma esmola
Nem que seja de um vintém
No céu só vai quem merece
No mundo vale quem tem,
Quem tem a luz dos seus olhos
Tenha dó de quem não tem.
Essa cantigas precisam ser anotadas o quanto antes, pois a influência avassaladora do
rádio tende a substituí-las pela chamada música industrializada. É o que se observa no
Nordeste, em cidade como Natal, onde os cegos já não cantam mais ao som dos seus velhos
"foles" ou concertinas, rogando felicidades ao transeunte, falando em Santa
Luzia, a santa protetora dos olhos. Hoje, cego canta é baião, sambas de breque, marchas
carnavalescas. Observação que Rossini Tavares de Lima [4] confirma no seu estado, quando
escreveu: "Já nos parecem bastante raras, aqui em São Paulo, essas cantigas."
Por isso, lembro a necessidade de recolha dessas derradeiras vozes tradicionais, com suas
características, modismos, invocações de santos prediletos.
Passemos em revista algumas fontes brasileiras na espécie, transcrevendo verso que no
parecem mais interessantes pelas soluções psicológicas que encerram, maneiras de pedir
esmola, inovações de alguns pedintes mais espirituosos.
Uma constante nesses cantos é o nome de Jesus ou dos santos. Carlos Góis [5] divulga
estas quadras recenseadas no Ceará:
Eu peço por caridade,
Pelos mistérios da cruz;
Meus irmãos, dêem uma esmola
Pelo sangue de Jesus.
A ceguinha que aqui vedes
Tinha olhos, via a luz
E agora, irmãos, pede esmolas
Pelo sangue de Jesus.
Ou esta, agradecendo a esmola:
Deus lhe pague sua esmola,
Deus lhe dê muita alegria,
No reino do céu se veja
Com toda a sua família.
Deus lhe pague sua esmola,
Deus lhe dê muito pra dar;
Na hora de sua morte
Queira Deus lhe perdoar.
Em Natal, faz anos, anotei esta quadrinha de um cego;
Se eu pudesse trabalhar,
Trabalhava e não pedia;
Cidadão me dê uma esmola
Pelo amor da Virge Maria.
No seu Violeiros do Norte, Leonardo Motta [6] consigna dezesseis quadras de cegos.
Veja estas, principalmente a primeira, onde não falta um amargo tom de humor:
Eu sou cego de nascença,
Tenho sofrido demais;
Grande foi a malquerença
do Bom Jesus a meus pais.
Nossa Senhora lhe pague
Jesus lhe queira valer
Da tentação do Maldito
Quando for pra vós morrer.
Os cegos porém, nem sempre repetem os mesmos temas. M. Cavalcanti Proença [7] apanhou
estas quadras, numa das cidades à margem do São Francisco, que um ceguinho improvisava,
após ouvir da mulher, ao lado, a descrição dos traços principais dos transeuntes:
Sarve a gravata listada
Com seu dom singular,
Deus lhe pague sua esmola
Aumente o seu cabedar.
A uma senhora que lhe deu uma prata, o mesmo cego retribui com esta praga amável.
Vou lhe rogá uma praga
Deus há de fazê pegá;
Lhe uma cobra de ouro
Bem na porta do quintá.
A um cavaleiro fez votos para que Deus o livrasse da falsidade.
Deus lhe pague a sua esmola
Aumente o seu cabedá
Lhe livre da falsidade
Que hoje em dia é o que mais há.
Curiosa, sem dúvida, é a observação que faz Carlos Alberto de Carvalho, [8] na Bahia,
a propósito de alguns cegos falsos, que sofrem de catarata, mas preferem passar por cegos
verdadeiros, embora descrevendo as pessoas que lhes dão esmolas:
Não embarga-te barba branca
Quem tem coração fié,
Pode sê branco e sê preto,
Pode sê careca, inté...
Querendo dá sua esmola,
Dá mesmo e dá porque qué!...
Coube, todavia, a Leonardo Mota, [9], noutro livro seu, anotar uma tocante discussão
entre dois cegos: Um, de nascença; outro, que cegou depois. Nos versos, onde advogam a
própria desgraça, ninguém pode saber qual dos dois é mais infeliz:
Tenham pena deste cego,
Filhos da Virge Maria;
Eu sou cego de nascença,
Nunca vi a luz do dia!
Ao que o outro respondeu:
Quem nasceu cego da vista
E dela não se lucrou,
Não sente tanto ser cego
Como quem viu e cegou!
Como se observa, há muita coisa a reunir e analisar nessas cantigas de cegos.
Notas
1. Alvarenga, Oneyda. Música popular brasileira. Porto Alegre, Editora Globo, 1950
2. Vale, Flausino Rodrigues. Elementos de folclore musical brasileiro. " São
Paulo, Companhia Editora Nacional, 1936. Brasiliana, 57
3. Diógenes, Nestor. Brasil virgem. Recife, Livraria Universal, 1924
4. Lima, Rossini Tavares de. ABC do folclore. São Paulo, Conservatório Dramático
Mus. São Paulo, 1952
5. Góis, Carlos. Mil quadras populares brasileiras. Rio de Janeiro, F. Briguiet e
Cia, 1916
6. Mota, Leonardo. Violeiros do norte. São Paulo, Editora Monteiro Lobato, 1925
7. Proença, M. Cavalcanti. Ribeira do São Francisco. Rio de Janeiro, 1944. Bib. Militar,
v.76
8. Carvalho, Carlos A. "Aspectos folclóricos: cantigas de cego". Boletim da
Comissão Nacional de Folclore, nº 13, Rio de Janeiro, 1949
9. Mota. Leonardo. No tempo de Lampião. Rio de Janeiro, Of. Indust. Graf., 1930
(Melo, Veríssimo de. "Cantigas de cegos". Correio da Manhã. Rio de Janeiro, 12 de
setembro de 1959, primeiro caderno) |
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