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| IMAGINÁRIO
- Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas;
narrativas populares; seres fantásticos... |
É uma
criação dos caçadores e é corrente a sua referência nos pousos da mataria, quando os
fanáticos de Santo Humberto se reúnem para distrair a monotonia das horas, contando
proezas em caçadas, até a lua a pino trazer o canto do urutau.
O bode preto é uma figuração do diabo, o espantalho da distração cinegética,
lançando a confusão no espírito dos que andam em procura ou então à espera da lépida
caça. Simula animais: veados, antas e outros, desaparecendo à vista da mira do caçador.
Manifesta-se o bode preto dentro de várias peles, mas comumente é o próprio animal
lendário que vem intrigar o homem: um enorme bode, com longos pêlos, olhos brilhantes
como fogo, frande aspas e um bigodão de faze terror aos mais destemidos. Tem um berro
agudo, como só mesmo satanás seria capaz de emitir: reboa, reboa e por muito tempo o eco
repercute nas quebradas a pique. O bode preto fala e pela manifestação articulada é que
se distingue dos outros colegas da mesma cor; também se distingue pelo colossal
cavanhaque, característico do monstro, anotado pelos caçadores do alto sertão.
Certa vez m caçador, ao atravessar uma ponte, avistou um vulto do outro lado; a montaria
refugou e o nosso homem fez pontaria, mas o vulto, que era o bode preto, replicou com voz
de cana rachada: "Não me atire que você será feliz!" O homem fez fogo e uma
enorme gargalhada rompeu no meio da mataria, enquanto um cheiro de enxofre invadia a
atmosfera, espesso e nauseabundo.
Em outra ocasião um caçador de onça, enganchado num florido pequizeiro, espreitava um
campeiro que vinha pastar a floração caída da árvore. Aprozimando-se o esbelto animal,
um tiro ecoou na calma noturna. Porém, o animal continuava a pastar, indiferente,
enquanto um segundo tiro do enferrujado caravinote abalava a arcada florestal,
prolongando-se... amortecendo. O caçador desceu assombrado da forquinha, apontou, até
sumir-se diante da pontaria.
O homem deu "às gambias" e nunca mais meteu-se em caçadas, à meia-noite, na
forquilha dos pequizeiros.
- O bode preto existe mesmo terminou o ingênuo narrador, lançando a vista para
muito longe, como se quisesse concentrar o pensamento, idealizando a figura diabólica da
superstição popular.
(Brasil, Americano do. "O bode preto". A
Gazeta. São Paulo, 22 de abril de 1960) |
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