Ano V - dezembro  2002 - nº 52

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


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SUMÁRIO - EDIÇÃO 52
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO

setaquad.gif (95 bytes)João, o vaqueiro que não mentia. Versão narrada por José Ormindo dos Santos, em Alagoas, em junho de 1964, por Téo Brandão

setaquad.gif (95 bytes)A lenda gaúcha do fogo-morto.

setaquad.gif (95 bytes)O bode preto, por Americano do Brasil.

OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

IMAGINÁRIO - Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...

FOGO-MORTO

João da Palma Silva
Patrão do Rancho Crioulo


A lenda do fogo-morto, outrora muito popular em todo o Rio Grande, já foi divulgada por Roque Calage, Fernando Osório e outros.

O gaúcho dá o nome de "fogo-morto" a qualquer resto de fogo, aceso ou apagado, antigo ou recente, deixado no chão num pouso de estrada ou noutro lugar onde alguém fez sesta ou pousada. E é de fato sabido que, mesmo nos dias atuais, o carreteiro, em chegando a um pouso, para cozer seu arroz com charque e esquentar a água para o chimarrão, nunca faz fogo sobre restos de fogão alheio. Hoje, na maioria dos casos, não o faz por ignota superstição. Inquirido acerca de tal proceder, responderá apenas: "Não presta... traz azar..."

Pois essa superstição teve origem na velha lenda do "fogo-morto".

Era uma vez, num tempo mui remoto, um rico carreteiro com mais de oitenta juntas de bois mansos, afora léguas e léguas de sesmarias e mais haveres. Foi de uma feita em que ele viajava por outros e distantes pagos, cortando coxilhas e coxilhas que... numa tarde...

Naquela hora o sol recém-posto, ensangüentava as nuvens paradas no arco imenso do poente. No amplo silêncio do campo, e na fina tranparência do ar perfumado de mansenilha e trevo, parecia pairar o mistério imponderável da natureza. E o segredo do Criador.

Com seu Oôô... Oôô... Oôô... o carreteiro afastou a carreira da estrada, aproximando-a de secular e majestoso umbu, sob o qual iria pernoitar. O pouso era bom. Desajoujados os bois, soltou-os ao pasto e foi logo arranjar um fogo. Vinha "seco" pelo sabor de um mate; e o piá que o acompanhava devia de estar faminto depois de tão larga jornada.

E... ou fosse devido à pressa ou por preguiça de preparar lenha, o homem bateu os tições dum fogão recente que encontrou no local, e ateou fogo. Foi o início da desgraça. Logo uma coruja piou na restinga e um dorminhoco, num vôo rasante, cruzou perto com seu grito que lembra o ruído de um pano que se rasga em sucessivos e rápidos tirões... Inexplicável e instantaneamente terríveis e violentas labaredas, erguendo-se daquela meia dúzia de paus, atingiram a carreta ao lado, queimando-a de modo irremediável com a rica carga de mercadorias que transportava. Inúteis foram os esforços do carreteiro e seu peão. De olhos esbugalhados de assombro e terror, em corridas furiosas, tudo fizeram por aplacar a voragem das chamas com a água da sanga, que quase secou...

Aquietada, enfim, a pulsação anímica do estranho fato, repontando os bois, lá foi o carreteiro rumo da estância levando no cérebro a semente da demência e, à própria sombra, o espectro de maiores desgraças: - Pouco depois a mulher o abandonou; o gado pesteou de carrapato e morreu; vendido o campo, roubaram-lhe o dinheiro. Ao cabo, na casa já quase tapera, morreu o desgraçado, por entre delírios, com pavorosas visões de chamas a queimar-lhe a roupa, a lamber-lhe a carne...

E tudo aconteceu por haver se servido do alheio... por causa de "fogo-morto"...



(Silva, João da Palma. "Fogo-morto". Em Diário de Notícias. Porto Alegre, 19 de fevereiro de 1956)

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