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| IMAGINÁRIO
- Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas;
narrativas populares; seres fantásticos... |
João da Palma Silva
Patrão do Rancho Crioulo |
A lenda do fogo-morto, outrora muito popular em todo o Rio Grande, já foi divulgada por
Roque Calage, Fernando Osório e outros.
O gaúcho dá o nome de "fogo-morto" a qualquer resto de fogo, aceso ou apagado,
antigo ou recente, deixado no chão num pouso de estrada ou noutro lugar onde alguém fez
sesta ou pousada. E é de fato sabido que, mesmo nos dias atuais, o carreteiro, em
chegando a um pouso, para cozer seu arroz com charque e esquentar a água para o
chimarrão, nunca faz fogo sobre restos de fogão alheio. Hoje, na maioria dos casos, não
o faz por ignota superstição. Inquirido acerca de tal proceder, responderá apenas:
"Não presta... traz azar..."
Pois essa superstição teve origem na velha lenda do "fogo-morto".
Era uma vez, num tempo mui remoto, um rico carreteiro com mais de oitenta juntas de bois
mansos, afora léguas e léguas de sesmarias e mais haveres. Foi de uma feita em que ele
viajava por outros e distantes pagos, cortando coxilhas e coxilhas que... numa tarde...
Naquela hora o sol recém-posto, ensangüentava as nuvens paradas no arco imenso do
poente. No amplo silêncio do campo, e na fina tranparência do ar perfumado de mansenilha
e trevo, parecia pairar o mistério imponderável da natureza. E o segredo do Criador.
Com seu Oôô... Oôô... Oôô... o carreteiro afastou a carreira da estrada,
aproximando-a de secular e majestoso umbu, sob o qual iria pernoitar. O pouso era bom.
Desajoujados os bois, soltou-os ao pasto e foi logo arranjar um fogo. Vinha
"seco" pelo sabor de um mate; e o piá que o acompanhava devia de estar faminto
depois de tão larga jornada.
E... ou fosse devido à pressa ou por preguiça de preparar lenha, o homem bateu os
tições dum fogão recente que encontrou no local, e ateou fogo. Foi o início da
desgraça. Logo uma coruja piou na restinga e um dorminhoco, num vôo rasante, cruzou
perto com seu grito que lembra o ruído de um pano que se rasga em sucessivos e rápidos
tirões... Inexplicável e instantaneamente terríveis e violentas labaredas, erguendo-se
daquela meia dúzia de paus, atingiram a carreta ao lado, queimando-a de modo
irremediável com a rica carga de mercadorias que transportava. Inúteis foram os
esforços do carreteiro e seu peão. De olhos esbugalhados de assombro e terror, em
corridas furiosas, tudo fizeram por aplacar a voragem das chamas com a água da sanga, que
quase secou...
Aquietada, enfim, a pulsação anímica do estranho fato, repontando os bois, lá foi o
carreteiro rumo da estância levando no cérebro a semente da demência e, à própria
sombra, o espectro de maiores desgraças: - Pouco depois a mulher o abandonou; o gado
pesteou de carrapato e morreu; vendido o campo, roubaram-lhe o dinheiro. Ao cabo, na casa
já quase tapera, morreu o desgraçado, por entre delírios, com pavorosas visões de
chamas a queimar-lhe a roupa, a lamber-lhe a carne...
E tudo aconteceu por haver se servido do alheio... por causa de "fogo-morto"...
(Silva, João da Palma. "Fogo-morto". Em Diário de Notícias. Porto Alegre, 19 de
fevereiro de 1956) |
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