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| FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre
festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas;
instrumentos musicais... |
Escrevendo sobre danças dramáticas ibero-americanas, afirmou Mário de Andrade que
"um dos problemas curiosos, no estudo da sociedade brasileira, era a intensa e pouco
justificável permanência em nossos costumes de celebrações da epopéia marítima
portuguesa e das lutas ibéricas entre cristãos e mouros". Realmente, pelo menos à
primeira vista, causa espécie a existência, entre nós, dos autos marítimos do ciclo
dos navegantes, quando em Portugal nada ou quase nada existe a este respeito, e se em
alguma época terá existido há muito de lá desapareceu.
Em várias regiões do Brasil, sobretudo no Nordeste, ao aproximar-se a época do Natal,
surgem as barcas, os fandangos, as cheganças, as naus catarinetas, a celebrarem a
epopéia marítima portuguesa e a luta contra o infiel, com cristãos pretos
retintos ou mulatos, e mouros-coribocas ou cafuzos, mas até mesmo loiros ou pelo menos
"sararás".
Admiração que só à primeira vista se justifica, pois as cheganças, como as cavalhadas
dramáticas de mouros e cristãos, têm seus antepassados nas danças mouriscadas
peninsulares, do mesmo modo que o restante de nossas danças dramáticas, mesmo as de
aspecto presumivelmente negro tomam as mouriscas como modelo.
É ainda Mário de Andrade quem afirma que tais danças dramáticas se formaram aqui,
embora confesse que o fizeram "amalgamando, reunindo um conjunto de tradições
diversas aqui chegadas". De fato, se não há provas de que tais bailados tenham
existido em Portugal e de lá nos tenham chegado na forma em que aqui existem, e que
muitas das cantigas de que eles se compõem vieram de além-mar e aqui permaneceram
sobrevivendo ao seu total desaparecimento na mãe-pátria.
Além da conhecida xácara da Nau Catarineta, refere-nos mais uma vez o
mestre de Macunaíma, freqüentam os fandangos e barcas dois outros velhos romances
portugueses: o Corsário da Índia e o Conde da Armada. Ora, esta persistência de velhas
cantigas portuguesas não poderia deixar de revelar entre nós a presença, vez por outra,
da cidade que é a metrópole da mãe-pátria e donde saíram para o Brasil, como para
todo o ultra-mar, "para as terras viciosas dÁfrica e dÁsia as velas que
por mares nunca dantes navegados, foram dilatar a fé e o império".
Embora aqui e acolá, nas taieras, por exemplo:
Meu São Benedito não tem mais coroa
Só tem a toalha que veio de Lisboa
se encontrem referências à terra dos "alfacinhas", é nos dois autos
marítimos a Chegança dos marujos e a Chegança dos mouros que vamos
descobrir as mais minuciosas referências à Lisboa.
Numa das mais velhas cantigas de chegança encontro as seguintes estrofes:
Lá no porto de Lisboa
Onde nós puxemo os ferro
Está me dando saudades
Das meninas lá de terra
Já mandei largar os panos
Na saída de Lisboa
Sinhô capitão tenente
Não quero ajuda na proa
E mesmo numa cantiga de recente formação, cantiga que para diferenciar das canções
tradicionais chamadas de "partes" é denominada de "marcha",
justamente porque possui influência das marchas militares da época atual: Adeus,
adeus, Alagoas, encontra-se uma referência à Lisboa, o que parece não somente
necessidade de rima mas um verdadeiro sinal da impregnação da palavra na memória
popular:
Adeus, adeus, Alagoas
Saudades vamos levá
De nossa pátria querida
Nossa terra natá
Vamos marchá para a guerra
Vê o mar de Lisboa
Adeus, adeus, Alagoas
Até quando eu vortá
Contudo, é no fandango, por isso que folguedo muito mais fragmentário, verdadeira colcha
de retalhos de velhas canções náuticas portuguesas que encontramos as maiores
referências à Lisboa. Anotamos aqui a esmo, em várias cantigas do fandango por mim
colhidas e gravadas em Maceió, referências numerosas à metrópole lusitana:
1
Rema, que rema
Quem vem de Lisboa
Quem não rema
Não vê coisa boa, ai, ai
2
Eu venho do mar, eu venho } bis
Eu venho do mar de Lisboa
do mar de Lisboa } bis
Como queres que eu te ame
Eu venho pra amar coisa boa
pra amar coisa boa } bis
3
A 25 de março
Saímos nós de Lisboa, ora viva
Feitos uns corsários da Índia
Para chegarmos em Goa, ora viva
4
Na saída de Lisboa
Lá mesmo fomos entrá
Fomos mui bem recebidos
Por el-rei de Portugá
Na saída de Lisboa
Cinco navios encontramos
Largamo-lhes três granadas
E os mastros desarvoramos
5
No castelo de Lisboa
Lá mesmo fomos entrá
Fomos mui bem recebidos
Por el-rei de Portugá
6
Quando o meu mestre me manda
Pôr o meu nau pela proa
Já não me sai da lembrança
As meninas de Lisboa
Onde, porém, a lembrança de Lisboa, de seus lugares, de sua sruas, de seus bairros, de
suas praias, mais se patenteia, é na cantiga Adeus, ó belas meninas, uma das mais
belas e doces canções do auto:
Adeus, ó belas meninas
Que de Lisboa eu cheguei
Vós pensava que eu não vinha
Eu aqui estou outra vez
Bairro alto, bairro baixo
Terras onde me criei
Adeus, ó belas meninas
Que de Lisboa eu cheguei
Adeus, terreiro do Paço
Adeus, praia da Junqueira
Adeus, brinco das casadas
Ramalhetes das solteiras
Adeus rua São Domingos
No tom da paciência [?]
Onde vão todos os marujos
Fazer suas diligências
Esta cantiga é um verdadeiro survival. Todos os anos, homens rudes e ignorantes,
trabalhadores das docas ou pescadores de alto-mar, que, nunca saíram de Alagoas, que
nunca abandonaram a restinga de Maceió, e que não conhecem outras praias além das de
Pajussara e do Sobral, e outras águas além das do canal dos Remédios e das duas lagoas
a Mandaú e a Manguaba, fardados de marinheiros garbosos, enfeitados de
arminhos e galões, cantam as saudades de uma terra longínqua que os seus longínquos
ancestrais ou os senhores de seus antepassados choraram dolentemente:
Adeus, ó belas meninas
Que de Lisboa eu cheguei
Adeus, terreiro do Paço
Terras onde me criei
(Brandão, Téo. "Folclore de Natal". Diário de
Notícias. Rio de Janeiro, 21 de dezembro de 1952) |
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