Ano V - dezembro  2002 - nº 52

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 52
FESTANÇA

setaquad.gif (95 bytes)A "festa está na porta, tradições do Recife antigo, por Flávio Guerra.

setaquad.gif (95 bytes)A folia de Santa Luzia, por Mozart Rodrigues.

setaquad.gif (95 bytes)Folclore de natal, por Téo Brandão.

CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...


FOLCLORE DE NATAL

Téo Brandão


Escrevendo sobre danças dramáticas ibero-americanas, afirmou Mário de Andrade que "um dos problemas curiosos, no estudo da sociedade brasileira, era a intensa e pouco justificável permanência em nossos costumes de celebrações da epopéia marítima portuguesa e das lutas ibéricas entre cristãos e mouros". Realmente, pelo menos à primeira vista, causa espécie a existência, entre nós, dos autos marítimos do ciclo dos navegantes, quando em Portugal nada ou quase nada existe a este respeito, e se em alguma época terá existido há muito de lá desapareceu.

Em várias regiões do Brasil, sobretudo no Nordeste, ao aproximar-se a época do Natal, surgem as barcas, os fandangos, as cheganças, as naus catarinetas, a celebrarem a epopéia marítima portuguesa e a luta contra o infiel, com cristãos — pretos retintos ou mulatos, e mouros-coribocas ou cafuzos, mas até mesmo loiros ou pelo menos "sararás".

Admiração que só à primeira vista se justifica, pois as cheganças, como as cavalhadas dramáticas de mouros e cristãos, têm seus antepassados nas danças mouriscadas peninsulares, do mesmo modo que o restante de nossas danças dramáticas, mesmo as de aspecto presumivelmente negro tomam as mouriscas como modelo.

É ainda Mário de Andrade quem afirma que tais danças dramáticas se formaram aqui, embora confesse que o fizeram "amalgamando, reunindo um conjunto de tradições diversas aqui chegadas". De fato, se não há provas de que tais bailados tenham existido em Portugal e de lá nos tenham chegado na forma em que aqui existem, e que muitas das cantigas de que eles se compõem vieram de além-mar e aqui permaneceram sobrevivendo ao seu total desaparecimento na mãe-pátria.

Além da conhecida xácara da Nau Catarineta, — refere-nos mais uma vez o mestre de Macunaíma, freqüentam os fandangos e barcas dois outros velhos romances portugueses: o Corsário da Índia e o Conde da Armada. Ora, esta persistência de velhas cantigas portuguesas não poderia deixar de revelar entre nós a presença, vez por outra, da cidade que é a metrópole da mãe-pátria e donde saíram para o Brasil, como para todo o ultra-mar, "para as terras viciosas d’África e d’Ásia as velas que por mares nunca dantes navegados, foram dilatar a fé e o império".

Embora aqui e acolá, nas taieras, por exemplo:

Meu São Benedito não tem mais coroa
Só tem a toalha que veio de Lisboa

se encontrem referências à terra dos "alfacinhas", é nos dois autos marítimos — a Chegança dos marujos e a Chegança dos mouros — que vamos descobrir as mais minuciosas referências à Lisboa.

Numa das mais velhas cantigas de chegança encontro as seguintes estrofes:

Lá no porto de Lisboa
Onde nós puxemo os ferro
Está me dando saudades
Das meninas lá de terra

Já mandei largar os panos
Na saída de Lisboa
Sinhô capitão tenente
Não quero ajuda na proa

E mesmo numa cantiga de recente formação, cantiga que para diferenciar das canções tradicionais chamadas de "partes" é denominada de "marcha", justamente porque possui influência das marchas militares da época atual: Adeus, adeus, Alagoas, encontra-se uma referência à Lisboa, o que parece não somente necessidade de rima mas um verdadeiro sinal da impregnação da palavra na memória popular:

Adeus, adeus, Alagoas
Saudades vamos levá
De nossa pátria querida
Nossa terra natá
Vamos marchá para a guerra
Vê o mar de Lisboa
Adeus, adeus, Alagoas
Até quando eu vortá

Contudo, é no fandango, por isso que folguedo muito mais fragmentário, verdadeira colcha de retalhos de velhas canções náuticas portuguesas que encontramos as maiores referências à Lisboa. Anotamos aqui a esmo, em várias cantigas do fandango por mim colhidas e gravadas em Maceió, referências numerosas à metrópole lusitana:

1
Rema, que rema
Quem vem de Lisboa
Quem não rema
Não vê coisa boa, ai, ai

2
Eu venho do mar, eu venho } bis
Eu venho do mar de Lisboa
do mar de Lisboa } bis
Como queres que eu te ame
Eu venho pra amar coisa boa
pra amar coisa boa } bis

3
A 25 de março
Saímos nós de Lisboa, ora viva
Feitos uns corsários da Índia
Para chegarmos em Goa, ora viva

4
Na saída de Lisboa
Lá mesmo fomos entrá
Fomos mui bem recebidos
Por el-rei de Portugá

Na saída de Lisboa
Cinco navios encontramos
Largamo-lhes três granadas
E os mastros desarvoramos

5
No castelo de Lisboa
Lá mesmo fomos entrá
Fomos mui bem recebidos
Por el-rei de Portugá

6
Quando o meu mestre me manda
Pôr o meu nau pela proa
Já não me sai da lembrança
As meninas de Lisboa

Onde, porém, a lembrança de Lisboa, de seus lugares, de sua sruas, de seus bairros, de suas praias, mais se patenteia, é na cantiga Adeus, ó belas meninas, uma das mais belas e doces canções do auto:

Adeus, ó belas meninas
Que de Lisboa eu cheguei
Vós pensava que eu não vinha
Eu aqui estou outra vez

Bairro alto, bairro baixo
Terras onde me criei
Adeus, ó belas meninas
Que de Lisboa eu cheguei

Adeus, terreiro do Paço
Adeus, praia da Junqueira
Adeus, brinco das casadas
Ramalhetes das solteiras

Adeus rua São Domingos
No tom da paciência [?]
Onde vão todos os marujos
Fazer suas diligências

Esta cantiga é um verdadeiro survival. Todos os anos, homens rudes e ignorantes, trabalhadores das docas ou pescadores de alto-mar, que, nunca saíram de Alagoas, que nunca abandonaram a restinga de Maceió, e que não conhecem outras praias além das de Pajussara e do Sobral, e outras águas além das do canal dos Remédios e das duas lagoas — a Mandaú e a Manguaba, — fardados de marinheiros garbosos, enfeitados de arminhos e galões, cantam as saudades de uma terra longínqua que os seus longínquos ancestrais ou os senhores de seus antepassados choraram dolentemente:

Adeus, ó belas meninas
Que de Lisboa eu cheguei
Adeus, terreiro do Paço
Terras onde me criei



(Brandão, Téo. "Folclore de Natal". Diário de Notícias. Rio de Janeiro, 21 de dezembro de 1952)

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