Ano V - dezembro  2002 - nº 52

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 52
FESTANÇA

setaquad.gif (95 bytes)A "festa está na porta, tradições do Recife antigo, por Flávio Guerra.

setaquad.gif (95 bytes)A folia de Santa Luzia, por Mozart Rodrigues.

setaquad.gif (95 bytes)Folclore de natal, por Téo Brandão.

CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...


A FOLIA DE SANTA LUZIA

Mozart Rodrigues


O folclorista W. Bariani Ortêncio numa de suas costumeiras pesquisas de folclore goiano, recolheu excelente material sobre a tradicional festa de Santa Luzia, que anualmente se comemora no município de Bela Vista de Goiás, e este ano foi realizada na Fazenda Bom Jardim, de propriedade do fazendeiro Sebastião Faleiro, no dia 2 do corrente.

Pouso e entrega de uma folia

O trabalho do folclorista goiano foi ilustrado com slides e gravações, e nele estudado minuciosamente como os foliões fazem o pouso e a entrega de uma folia ao festeiro do ano.

Esta folia foi comandada pelo senhor José Pereira, o mestre da música e composta de 54 foliões, inclusive um cantador de 13 anos, e os seguintes instrumentos: rebeca primitiva, duas caixas, duas violas, um reco-reco e um violão.

O regente, representado pelo senhor José Belizário, é o dono absoluto da festa; é ele quem manda, quem tudo determina, inclusive dentro da própria casa do festeiro, que fez a promessa que ocasionou o giro da referida folia. Os óbulos adquiridos durante o trajeto, em dinheiro, vão pregados à bandeira, e rigorosamente fiscalizados pelo regente.

A chegada

Precisamente às 17:30 horas, deu-se a chegada da comitiva ao local da festa, parando distante uns 300 metros da sede da fazenda, e aguardando ordens do regente, até que os preparativos dos moradores fossem ultimados para recebê-los. Enquanto isso, os foliões deixam a bandeira fincada ao chão e, em duas filas de 27 homens cada, tendo à frente duas caixas em toque de guerra, realizam a cavalhada (a pé) em homenagem ao dono da casa. Dançam em passo de batuque e evoluções geométricas. Finda esta homenagem, retornam, na mesma ordem, onde foi fincada a bandeira sob a guarda do alferes.

A um apito do regente, sai de casa o festeiro, acompanhado de seus familiares, com bandejas repletas de pétalas de flores e uma bandeira da Santíssima Trindade. Seguem, assim, as duas bandeiras, uma de encontro a outra. Os componentes vão contritos e respeitosos, os homens de chapéu à mão e as mulheres e crianças, cabisbaixas.

Em determinado momento cruzam-se as duas bandeiras, oportunidade em que o mestre da música canta versos referentes ao encontro, em dueto com uma parte dos foliões. Estes mesmos versos são respondidos pelo seu filho e demais foliões, também em dueto. Há a primeira até a quinta voz, e as duas últimas são chamadas de requinta; a segunda e terceira tem o nome de contralto. São os seguintes os versos do encontro:

Quando encontra duas bandeiras
Os anjos cobre de véu
Nós cantamos no encontro
Os anjos canta no céu.
Encontrou as duas bandeiras
Às cinco horas da tarde
A senhora Santa Luzia
E a Santíssima Trindade
Com a senhora Santa Luzia
Encontrou duas bandeiras
E no pé da Santa Cruz
O lugar abençoado
Que nele morreu Jesus
Senhores dono da casa
De amor e consciência
Prá beijar nossa bandeira
Já tem nossa licença
Senhor dono da casa
Com sua famia inteira
Pedimos sua licença
Pra beijar sua bandeira
Agora vamos dar vivas
com prazer e mil amor
Viva todos os folião
Convidados e o morador
Viva o dono da casa
Com sua famia inteira
Viva o Wardomiro e o Louro
E o santo das bandeira.

Após a cantiga, o regente começa a dar vivas, no que é respondido por todos os foliões: — Viva Santa Luzia, Viva o Divino Pai Eterno, viva os folião, viva a Senhora da bandeira, viva o dono da casa, viva todos em geral.

Nota-se que no último verso o regente citou os nomes de Waldomiro Bariani Ortêncio e Louco (famoso catireiro pertencente ao grupo do Canedo) que lá se encontravam.

De instante em instante o povo era sacudido por tiros de ronqueira que, ao contrário das que conhecemos de Pirenópolis, constituem-se de uma garrucha tosca fabricada na roça, com ouvido de espingarda; a pessoa coloca meio cano de pólvora, completa com farinha de mandioca puba, uma espoleta pica-pau no ouvido, e com uma das mãos segura o engenho e com a outra aciona uma martelada sobre a espoleta, produzindo o estampido que, talvez devido à farinha, produz um baque bastante forte e grande quantidade de fumaça. A ronqueira quase sempre escapa da mão e voa 10 a 15 metros.

O beijamento

Logo após os tiros, tem seqüência o rito, agora com o "Beijamento", que consiste do solo de todos os instrumentos, sem canto, andando em círculo e cada folião ajoelhando-se e beijando as fitas das bandeiras e em seguida prosseguindo na sua marcha. Seguem-se, do mesmo modo, o dono da casa, as moças com as bandeiras, agora vazias, pois as pétalas foram atiradas durante o encruzamento do encontro com as bandeiras, e de todos os demais presentes. Descem as bandeiras, lado a lado, até o arco enfeitado de flores, plantado em frente à sede da fazenda. Cantam em homenagem ao arco e pedem licença ao proprietário para se introduzirem na casa, com os seguintes versos:

Encontro as duas bandeiras
Todas duas tem virtude
Prá saber dos moradô
Como vamos de saúde
Ai que arco tão bonito
Enfeitado de fulô
Pra passar duas bandeiras
com seu santo resplendor
Ô de casa ô de fora
Dá licença moradô
Pra passar esta bandeira
Com seu santo resplendor
Senhores dono da casa
Já tem o bom pensamento
Arrecolhe esta bandeira
E mande nóis entrá pra dentro.
Viva! Viva!

Cantoria de pedir pouso

Logo após o "Beijamento", o proprietário abre as portas de sua residência entrando os foliões com as duas bandeiras, colocando-as em seguida no altar. Iniciam, então a cantoria de pedir pouso:

Quando eu vi tua bandeira
De alegre fiquei tonto
Lá em frente o pé da cruz
Fizemos bonito encontro

Às cinco da tarde
Chegou na sua moradia
Chegou todos os folião
E a bandeira sagrada

Quando abriste a vossa porta
Como abriste uma rosera
Pra dentro dela posaro
Estas duas formosa bandeira

Quando abriste a vossa casa
Tinha uma luz em cada canto
Para dentro dela entrar
O retrato deste santo

A bandeira envém de longe
Pelos campos e oruval
Procurando a vossa casa
Prá pedir um agasal

Senhores donos da casa
De tão nobre coração
Agasalhe esta bandeira
Dê pousada aos folião

Ô meu nobre folião
Ôceis pode aprepará
Pra fazer a saudação
Vamos todos ajoeiá.

Deus vos salve santo altar
Onde Deus fez a morada
Onde mora o cálice bento
E a hóstia consagrada

Deus vos salve santo altar
Com prazer e alegria
Onde nasceu Jesus Cristo
Filho da Virge Maria

Vamos todos alevantá
Já fizemos saudação
Já saudemos o santo altar
E a santa comunhão

E os santos do altar
Saudemos neste momento
Saudemos o santo altar
Onde mora o cálice bento

A bandeira agora entra
Vai levar seu sacramento
Vai fazer sua visita
Pras senhoras lá de dentro

Agora vamos dar viva
Com prazer e mil amor
Viva todos os folião
Convidados e moradô

Viva o dono da casa
Com sua famia inteira
Viva o Louro e o Waldomiro
E os santo da bandeira.

Após este rito, as bandeiras são colocadas abertas no altar. Ao apito do regente, todos os foliões, distinguidos por um lacinho de fita azul, à altura do peito, achegam-se à mesa, exposta no terreiro, ao lado de um velho engenho de cana de tração animal. Os serventes, em número de dois, distinguidos por uma toalha branca ao pescoço, vem trazendo bacias de arroz, feijão, farinha de milho e mandioca e baldes de almôndegas. No arroz estão misturados nacos de carne de vaca, à semelhança do arroz à carreteira do Rio Grande do Sul.

Até que o regente dá ordens, nenhum folião se movimenta. Após uma preleção, solicitando o máximo respeito e educação, a comida é sofregamente devorada pelos foliões, pois, enquanto estes não se fartam, os demais convidados não podem comer. Em seguida, antes do agradecimento da mesa, que é sagrado e infalível, tem início o "corete", que consta da récita em versos cantados. Nova "décima" por um dos foliões e a resposta em versos cantados. Nova "décima" e novo coro com vivas. O "corete" só é realizado quando há bebidas à mesa:

Décima (falado)

O pinto piripipi
O galo corococô
Valeu o porrete no galo
o danado do galo velho rolô
nóis tava nessa consulta
quando o gado chegou
— paga o meu galo
— pago sim senhor
mas pago pelo real valor
Logo veio a galinha
vestidinha de azul
mataram um galo véio
pra comer miolo cru
natureza de cachorro
estômo de urubu
(todos gritam: viva!)

Em seguida, sem instrumentos, cantam:

Não vô na tua casa
Os seus cachorro late
Você fala desprezo
Emocionou meu coração
Teve uma grande representação
A caravana de dois homens
Elementos de um fim importante

Hoje ao nosso encontro
Das duas bandeiras ao pé da cruz
Foi gravado e fotografado
As coisas bastante importante
Que o dia de amanhã podemos ver e ouvir
Todas as pessoas vão ouvir a nossa voz
E ver a nossa fotografia
Novo canto da "décima"
Segunda plantei a cana
Terça tava nasceno
Quarta sentei o engenho
Quinta tava moendo
Sexta sentei o lambique
E sábado tava bebeno
Domingo eu tava bêbedo
Que nada eu tava veno
Escuta o que eu vou falar
Pra não deixar o meu lugar
Vaca baia dá leite
O que o capeta não dá
Eu era cabrito novo
Tava aprendendo saltá
Ocêis que vê o que sô
Lá em casa vai perguntá
Bebi um gole de pinga
Saiu lá no calcanhã.

Terminado o "corete", iniciam nova cantiga, que é o "Bendito" ou "Agradecimento da mesa", que é cantado pela turma de um lado da mesa e respondido pela outra. Também não entram instrumentos:

1ª turma
Jesus Cristo perguntou
Se deu janta aos folião

2ª turma
Respondeu Santa Luzia
Depois da santa benção

 

1ª turma
Jesus Cristo perguntou
Se deu janta ao pessoal

2ª turma
Respondeu Santa Luzia
Bençoai tudo em geral


Deus lhe pague a boa janta
Tivemos muita alegria


Vai se recompensado
Pela Santíssima Trindade


Bendito louvado seja
Na pessoa de Deus


Padre, filho Espírito Santo
Seja pelo amor de Deus


Oferecei neste bendito
Para o Senhor que está na cruz


Em louvor das cincos chagas
Para sempre amém Jesus.


Lá do céu desceu dois anjos
com a vela acesa na mão

Todos
Vem dizendo Viva

Terminado o "Beijamento", todos se dirigem para outra sala, longe do altar, onde vai ter início a parte profana da festa. Vão dançar o catira. Como as mulheres não tomam parte nessa dança, ficam de lado, assentadas nos bancos, ou em cima dos sacos de arroz.

Compreende-se facilmente que aquela gente simples sofre ainda conseqüências da queda do zebu, e suas cantigas, na maioria fazem parte do ciclo do boi. A Moda dos boiadeiros. De autoria de José Pereira, foi vivamente ovacionada pelos presentes, e dançada por vários catireiros da região, com palmeado e sapateado:

Agora vamos contá esse caso verdadeiro
Da crise que tá passano o Brasil inteiro
Há pouquinhos dias corria rios de dinheiro
Parece que chovia dinheiro em grande quantia.

Jogado pelo terreiro.
O povo ficaro doido
Cada qual interesseiro
Quem tinha duas vacas
Logo alimpava o terreiro
Porque não agüentava o preço
De cinqüenta mil cruzeiro
Já revirava o iludido
Queria já sê boiadeiro
Quem queria sê boiadeiro
Era bastante comprá
Um par de bota comprida
E um chapéu panamá
E um lenço xadrez
Uma goiaca pra enganá
Com prazo de sessenta dia
Qualquer coitadim podia
Alimpá qualquer currá
Tinha muitos coitadim
Que de nada possuía
Queria sê boiadeiro
Mesmo assim sem garantia
Mas o povo habituaro
Comprar de sessenta dia
Eles comprava sem medo
Muitas vez compra cedo
E de tarde vendia.
Tinha muito lavorista
Que jogô a enxada fora
Arriou o seu cavalo
e calçou seu par de espora
E saiu comprando gado
Assinando promissora
Até letra de milhão
Eles punha o chamegão
E o gado ia simbora
Boiadeiro tava encruzando
Um saía outro chegava
Bezerro tava mamano
Boiadeiro arrudiava.
Já fazia a sua oferta
Fazendeiro não agüentava
Já vendia os coitado
Sem tá desmamado
No mesmo dia tirava
E coisa que eu tinha dó
Coitadim da garrotada
Que ficava o dia inteiro
Só andano nas estradas
Só trocava de boiadeiro
Não parava na invernada
Chegava no anoitecer
Dia inteiro sem comer
Saía de madrugada
Eu achei muito engraçado
Quando a roda virou
Ninguém podia vender gado
Porque o dinheiro acabou
Os boiadeiros sumiu
Os faisqueiros amoitou
Já cabô a garantia
Do prazo de sessenta dia
Ninguém mais assujeitou
Os boiadeiros afamados
Agora acabou a fama
Quando eles encontra na estrada
Um pro outro ele reclama
O chapéu guardei na caixa
As bota debaixo da cama
Desde que eu vou ficar sem nada
Minha fazenda hipotecada
Qualquer hora o banco chama
Coitadinho dos faisqueiros
Quando encontra nas estradas
Já pergunta uns pros outros
Como vai a negociada
Com a falta de dinheiro
Já não estou fazendo nada
Pra comprá pão pras crianças
Trabalho pras vizinhanças
Dia inteiro nas estradas
Saía comprando gado
Agora a coisa mudou
Agora sai caçando dinheiro
Onde eles não guardou
Chega lá nos fazendeiros
Só encontra cobrador
E promissória assinada
Muitas letras reformadas
Que os boiadeiros assinou.

O recortado vem logo após a moda e a parte que movimenta o catira. Os cantadores vão passando entre os dançarinos, cantando vários recortados, acompanhados de muitas palmas e sapateados. Eis alguns trechos dos recortados:

Eu achei muito engraçado
Os boiadeiros de Goiás
Sair de motor adiante
E o gado ir atrás
Eu achava muito engraçado
Eu achava muito interessante
As buzinas do motor
Já servia de berrante
(palmas e sapateados)
A minha mulé é uma coitada
Tenho confiança por ser honrada
Ela chega em casa é de madrugada
Achando dinheiro pelas estradas
E eu saio de dia não acho nada
(palma e sapateado)

E assim o catira vai noite a dentro. Só termina quando o sol desponta, momento em que o regente faz a entrega da folia ao fazendeiro e imediatamente convida os foliões a se retirararem. E na volta ainda cantam novas modas.


(Rodrigues, Mozart. "A folia de Santa Luzia". O Quarto Poder. Goiânia, 15 de setembro de 1963, ano 1, nº 52, p.4-5)

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