Ano V - dezembro  2002 - nº 52

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 52
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU

setaquad.gif (95 bytes)Algumas receitas de bolos.

setaquad.gif (95 bytes)O azar e o limão, por Angela Delouche.

setaquad.gif (95 bytes)Alguns alimentos dos cuiabanos.

PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

COLHER DE PAU - Nesta seção, textos sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa; horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e alimentos...


O AZAR E O LIMÃO

Angela Delouche


Vários estudiosos têm recolhido pelo interior do Brasil superstições ligadas à alimentação. O senhor A. da Silva Melo registou diversos tabus em seu livro: Alimentação, instinto, cultura. Sílvio Romero, por sua vez, entre várias superstições recolhidas pelo interior, anota ainda as que estão diretamente ligadas a alimentos ou hábitos alimentares.

O medo do limão é bastante difundido entre as populações não apenas de lugares muito atrasados. Um fruto tão rico em vitamina C fica proscrito sobretudo entre mulheres, pois o dito populara afirma: "se a mulher soubesse o que é o limão, não passava nem por perto de suas ramas". Os que afirmam isso não sabem o mal que faz o limão, contudo acreditam que é um perigo.

Há um nojo generalizado entre o povo, no tocante a tripas, fígado, rim e língua de boi. No interior, as fateiras que lavam e vendem o fato do boi, por nada dele se alimentam ou permitem que os filhos comam. o coração de galinha serve para indicar se vai nascer menino ou menina na casa onde a dona está esperando criança. Comer banana gêmea é proibido à mulher que não queira ter gêmeos. Quem come o miolo do boi fica inteligente. o milho serve para dar memória. Roer cascão de queijo daz ficar indolente. Água dormida no sereno cura tosse. Folha de pimenteira amolece tumores. Quem come pimenta não fica resfriado.

Para curar tubérculo nada como doce de mocotó e chá de tansagem. Peixe cru e salgado faz sarar feridas.

O capítulo das benzeduras é vasto. o curandeiro usa orações e mezinhas. Uma infinidade de doenças tem o nome genérico de espinhela caída. Benze-se a espinhela assim:

Espinhela caída
Portas para o mar:
Arcas, espinhelas
Em teu lugar!...
Assim como Cristo
Senhor nosso, andou
Pelo mundo, arcas
Espinhelas levantou

O pé trilhado deve ser costurado e benzido. Um pano embebido em enxofre, agulha e linha além de oração especial. Para argueiros no olho recorre-se a Santa Luzia com os versinhos:

Corre, corre, cavalheiro
Vai na porta de São Pedro
Dizer a Santa Luzia
Que me mande seu lencinho
Para tirar esse argueiro

Em relação a esta santa é muito generalizada o que chamam de experiência de Santa Luzia para saber se o ano que vem terá ou não um bom inverno. Consiste em marcar do dia 13 de dezembro ao dia de Natal. Cada dia signifca um mês do ano que vem. Se no dia chove o mês por ele simbolizado será de chuva. Caso não chova há de ser o contrário. Em alguns lugares a experiência de Santa Luzia é mais rápida. Na véspera do seu dia, põe-se sal em uma vasilha em lugar seco e coberto. Se o sal amanhece molhado o ano será chuvoso, do contrário, não.

O capítulo dos santos populares e das orações que o povo compõe para deles obter favores é vasto. Já é assunto para outra história.



(Delouche, Angela. "O azar e o limão". Jornal do Comércio. Recife, 12 de setembro de 1965)

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