Ano V - dezembro  2002 - nº 52

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 52
FESTANÇA
CANCIONEIRO

setaquad.gif (95 bytes)Um bumba-meu-boi, em Goiana.

setaquad.gif (95 bytes)História do Boi Leitão ou o vaqueiro que não mentia, excertos do cordel de autoria de Francisco Firmino de Paula.

setaquad.gif (95 bytes)Congada, uma das formas mais típicas do nosso folclore.

IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

CANCIONEIRO: Nesta seção, textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...


INTRODUÇÃO A CONGADA

Uma das formas mais típicas do nosso folclore é a congada. A congada é geralmente um misto de tradições cristãs, rica em ensinamentos de catequese, de tradições pagãs e de fetichismo africano. As danças africanas, trazidas para o Brasil pelos escravos vindos de diversos pontos da África — Congo, Guiné, Moçambique, Angola — eram danças guerreiras na sua maior parte. No Brasil, os missionários católicos conseguiram conservar estas danças guerreiras e batizaram-na introduzindo elementos de cristianismo colaborando assim para a preservação e transformação do valioso folclore negro.

Os escravos, que na sociedade colonial constituíam-se simples instrumento de trabalho, tinham, graças à influência da igreja, a permissão de comemorar certos dias do ano, com festas. Estes dias eram comemorados com a congada, permitida pelos patrões e pelo igreja; com o batuque, condenado pela igreja, e com a macumba, condenada pelos patrões e pelos padres.

O batuque, dança erótica, recebeu a condenação da igreja e a congada foi por ela prestigiada. Na Congada, o seu participante integrava uma confraria religiosa. O negro, que é menos individualista do que o branco, procurou sempre associar-se, formar grupo de cooperação. Formavam grupos que, às vezes, se desentendiam, como acontecia com os congos e moçambiques, disputando sempre: daí nunca terem o mesmo lugar na procissão. Os negros eram colocados no começo dos cortejos religiosos, ao lado dos meninos, costume que deu origem à seguinte crença: "Não vindo a irmandade de São Benedito à frente é chuva na certa".

Como diz Alceu Maynard Araújo, a razão de ser da congada no passado era transferir, sublimar o instinto guerreiro do negro em fator criador, religioso: negro cristão versus negro pagão. Sublimada a atitude guerreira do negro era ao mesmo tempo uma defesa para o branco. Deste ele tinha ressentimentos que se traduziam pela agressividade. Unindo-se os negros podiam fazer valer os seus direitos. Ainda hoje é o espírito de solidariedade dos negros, que faz com que sejam conservadas as danças, como a congada.

No início da congada, os grupos que tomam parte começam cantando:

Que hora tão bunita
Nosso bataião chegô
Pa festejá o Sinhô Divino
Qui o festêro convidô, ai, ai

Como se vê pelos dizeres, a congada festeja o Divino Espírito Santo.

Depois continuam:

Eu quero pidi licença
Pro meu bataião dançã;
Pro sinhô dono da festa
I pro povo desti lugâ

Viremo di lá, virêmo di cá,
Meu sinhô Divino viemo festejá

O desfile da congada começa nas primeiras horas da manhã, estando a cidade toda em festa. A congada é uma espécie de teatro de rua, reunindo muitas tradições mouras e cristãs.

O padroeiro da congada é São Benedito:

O marinheiro coração di aligria,
Deus é nosso Pai,
São Binidito é nosso guia,
Lançai sua santa bença
Nesta hora i nesti dia,
Alegrai seu coração
Di quem tem malinconia, ai, ai!

Desde cedo também se canta o canto dos congueiros:

O sor já vai saino
Lumiano o mundo intero,
Lumió o Sinhô Divino
I os sinhô qui são festêro.

O povo da cidade
Todo este povo daqui,
Alerta o seu ovido
Sai na janela ovi,
Preste bem atenção
No que os piriquito diz,
O povo brasilero
Deve di adorá o Brasil.

Brasil dorado
Brasil querido,
E a terra bençoada
Da Senhora Aparecida.

Mai groriosa,
Mai cuncebida,
Seja nossa adevugada
Nesta i na outra vida.


Marinhero dança nesta ocasião,
Marinhero abaxa renti co chão,
Levanta pra riba, meu bataião,
Os marinhêro são di proteção,
Nóis semo devoto di São Juão.

O marinheiro
Vai cantano i vai pidino
A santa benção
Do sinhô Divino.

Viva o altá,
Viva o andô
Sinhô Divino
No meio da frô.

Oi Sinhora Santana
Rainha do céu, ai,
O virge Maria
Tem seu lindo véu,
Oi marinhêro,
Semu fílio di Deus".

Ao marchar vão cantando, batendo espadas, dançando "tramando", ou seja, trocando de lugar. O desfile da congada é muito interessante, mas o espetáculo é mais bonito na hora da embaixada.

A embaixada

Na praça pública, em local tradicionalmente usado para tal fim, chegam os congos, dançando e cantando. Silenciam de repente e formam um grande quadrilátero, sentando-se numa cadeira o Rei do Congo.

Neste momento entoam:

Quem num viu piriquito falá
Alerta os ovido i venha iscuitá.

Este é o convite para que os presentes se aproximem. Novo silêncio. O Rei com voz forte chama o Secretário:

Ô meu nobre secretaro,
Meu sordado desempenhado,
Vinde logo depressa,
Atender o meu chamado.

O Secretário responde:

Pronto imperadô
Vim atendê o teu chamado,
Sou eu mesmo o secretaro
Um sordado desempenhado.

O Rei continua:

Chamei ocê meu secretaro
Por sê um sordado desempenhado.
Vai vê que gente canáia são essa,
Bruto sem inducação
Qui vai intrá em nosso reinado,
Sem nos dá sastifação.

Secretário:

Rei do Congo manda vê,
Que gente canáia são essa
Que vem entrano neste reinado adentro,
Cum grito e zumbaiada,
Muito toque de caixa
E baruio de pandêro,
E vem entrano no nosso reinado adentro,
Quereno deixá
O nosso reis fica suspenso.

O General responde:

O imperadô Carlos Magno
É um home de estudo e de grande pensá.
Voceis adoram o vosso Deus
E nóis temo o nosso pra adorá,
E vorta atrais secretaro
Cum essa valentia,
Num venha mais cum atrevimento,
Atrapaiá as minha cantoria.

O secretário volta e diz ao Rei:

Imperadô Carlos Magno
Aprevina seu bataião
O generá está disposto
De tomá conta desta nação.

O Rei responde constrangido:

Não me diga isso meu secretaro
Que essa palavra balanciô meu coração.
Descanse que você já fez obrigação.
Chame lá o segundo secretaro
Que dele tenho percisão.

Aproxima-se o segundo secretário, dirigindo ao Rei, diz:

Pronto imperadô estô aqui
Pra atendê o seu chamado,
Sô eu mesmo o segundo secretaro,
Um sordado desciprinado.

Rei:

Chamei ocê meu segundo secretaro
Por sê um sordado mais famado
Ocê num sabe que eu neste meu assento
Estô me veno apertado
Ocê vai me fazê um serviço,
Leva muito cuidado,
Vai entregá esta carta
Ao generá, aquele atrevido marcriado,
Pra ele fica sabeno
Que tem reis neste reinado.

Dirigindo-se ao General mouro, o secretário diz:

Dá licença generá
Aqui vim le conhecê,
O reis de Congo manda esta carta,
Faiz favô de arrecebê.


Ao receber a carta o General responde:

Eu sô um generá guerrêro,
Sô um home desempenhado
Vim fazê uma visita
Para o reis deste reinado,
Vós me manda carta de guerra
Que eu estô me vendo apertado,
Mas si quisé entrá em combate
Eu tenho força aperparada.

Aproximando-se do Rei, diz o General:

Eu sô um generá guerrêro
Que tanto tenho combatido,
Não é o primêro combate
Que eu já tenho vencido.
Esse que eu hei de perdê.
Sendo que vim bem apervinido?
O que tem imperadô
Que tanto me olha
Cum a carranca tão frangida?
Veja lá que agora mesmo
Eu le bato a espada no ovido.

Entra em cena um personagem chamado Ricardo e diz alto:

Arto lá, generá
Seu atrivido marcriado,
A quem tu pediu licência
Pra entrá em nosso reinado?
Tu sabe que só o Ricardo
O sordado mais famado!
Pegue nas tuas armas
E cunvide a tua companherada.
Quando fô daqui, há pouco
Acho bão tu pegá a estrada.
Sinão tu vai na prisão
Por sê um atrevido marcriado.

A discussão cada vez mais acalorada continua, e pouco a pouco vão entrando outros personagens dando seqüência a representação.

Responde o General com altivez e arrogância:

Vorta atrais, seu Ricardo,
Não percisa tanta ânsia,
Ocê percisa se arretirá
E do meu lado num avance,
Senão eu te dô
Um soco no quêxo e outro na pança
Ocê há de sai gritano,
Chorano inguar uma criança,
Ocê há de saí gritano
Por prova de uma vingança
Enquanto ocê vive no mundo
Há de servi de lembrança
O imperadô Carlos Magno
Diz que é um home tão valenti
Que veio do estado da França
Tamém sô um generá guerrêro
Só um home de tantas bondanças.

Ricardo:

Arto lá, generá,
O que tu tá pensano!
Aqui tu fala cum o Ricardo
Empregado de Carlos Magno,
Eu te dô um soco no quêxo
Que tu sai arrenegano.

O General responde a Ricardo:

Vorta atrais seu Ricardo,
Não esquente o meu sentido,
Ocê chame o Galalão
Vocêis dois são unido,
Comigo vocêis num pode
Purque hoje tou arresorvido.

Fala Galalão, de cabeça baixa:

Eu sou o Galalão guerrêro,
Que agora venho chegano
Com minha espada na cinta,
Venho cum ela manejano
E co’o atrevido generá
Desejo de i encontrano
Eu quero que vóis me diga
O que tu anda ordenano?

O General responde a Galalão:

Vorta atrais seu Galalão
Ocê num faiz o que ocê pensa.
Cumbine cum o Ricardo
E cum tuda vossa gente,
Cumigo ocê num pode,
Purque eu te bato a espada na boca
E te arrebento todos os dente
E te mando pra ilha das Cobra
Feito isca de serpente.

Entra em cena a discutir com Oliveiros, com tom provocante, o principal dos mouros — Ferrabrás: "O imperadô Carlos Magno é um home simpre, sem valô, me manda dois ou treis ou quatro do mais valenti e mior dos doze par. Contra mim somente espero vencê a bataia, ainda que seje Rordão ou Oliveira, Teter, Ruger e Danoa, juro por Deus que a minha cara nunca mais vorta. Eu tô em campo de bataia, longe de meu exército, percorri por tudo mundo a cubardia da resistência dos teus cavaleiro. E direi que são indigno de tratar de valeroso".

Grita alto o Rei ao ouvir a arengade Ferrabrás: "Ô Ricardo, ô Ricardo, que palavra são essa tão injuriosa que vem provocano?"

Depois disso, aparecem outros partidários e pares do Rei, que pouco a pouco entram no desafio. Finalmente duela Oliveiros e Ferrabrás:

Oliveiros:

Turco, tu não sabe
Que Carlos Magno, é home tão poderoso?
Tu é valenti por tua pessoa
Mais do meu lado num venha
Que comigo termina à toa.

Ferrabrás:

Cristão, então mande o Carlos Magno
O Rordão ou o Oliveiros,
Dos doze pares aquele que viê.
Que eu espero cum a minha arma,
Firme de ponta em pé,
Pra resisti do modo que quisé.

Oliveiros afirma: "Rordão nunca feis conta de um só turco em prontidão, com isso nem Rordão se move que em campo de bataia só um pra ele num dá pra nada".

Ferrabrás:

Mió cale a boca,
Não tenho mais nada pra dizê
Aprevina as tuas armas e vamo combatê
Que pra mim é perjuízo mais tempo perdê.

Oliveiros:

Tu diz que é muito perjuízo o tempo perdê
Que eu jurgo santo o meu nome,
Que eu sô suficiente
Pra te mandá prendê.
Que se vacê não me conhece
Eu vos dô de conhecê:
Aqui vacê fala com Guaris,

Um home de grande podê.

Ferrabrás, com a espada em riste:

Muito bem seu Guaris,
Fiquei muito sastifeito
Do seu nome eu sabê,
Aprevina a vossa arma
E bamo pelejá
Na primeira batida que eu dé,
Vacê há de se arrependê.

Enquanto isso, os outro congueiros cantam:

Assegura a batida Oliveira,
Combate de turco não é brincadeira.

Ferrabrás acaba perdendo o combate e Oliveiro diz para o General que o interpela:

Ferrabrás ficô preso
Por sê home que não sabe pensá.
Dois combates nóis tivemo,
Quase que me deixa no lugá.
Derradêro combate que nóis tivemo
Foi eu que fui ganhá,
Por erro de uma batida
Fiz o turco enjoeiá.
Eu num matei,
Purque quis acabá de te matá.

O General com medo diz aos seus:

O meu armirante Balão
Faça o favô de mi dizê.
Com o atrevimento do Olivera
Está custoso nóis podê.

Almirante Balão:

Fiquei muito sastifeito
Do sinhô participá
Eles combate na fé de Deus,
É escusado nóis teimá".

Os mouros se rendem, e Carlos Magno, o imperador e rei da Congada, é aclamado com seus pares.



("Introdução à congada". Belo Horizonte, 14 de junho de 1966)

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