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| CANCIONEIRO: Nesta seção, textos sobre
música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios;
romances; cantos religiosos; quadras, pasquins... |
HISTÓRIA DO BOI LEITÃO OU O VAQUEIRO QUE NÃO
MENTIA |
Francisco Firmino de Paula |
1
Numa cidade distante
Há muito tempo existiu
Um distinto fazendeiro
O mais rico que se viu
E tinha um jovem vaqueiro
Homem que nunca mentiu.
2
Também esse fazendeiro
Muitas lojas possuía
Tinha muitos empregados
Porém ele garantia
Que só aquele vaqueiro
Era sério e não mentia.
3
Seus amigos em palestra
Exclamavam admirados
Porque é que entre tantos
Homens nobres empregados
Somente um rude vaqueiro
É quem não causa cuidados?
4
Respondia o fazendeiro
Tudo é nobre e decente,
Porém, capaz de mentir,
Digo conscientemente,
Mas Dorgival meu vaqueiro
Por forma nenhuma mente.
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O conheço há muitos anos
E nunca vi ele mentir
É rude por ser vaqueiro
Mas sabe entrar e sair
Se faz uma causa errada
Nunca procura fingir.
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Juntaram-se dez amigos
E mandaram o fazendeiro
Inventar uma cilada
Pra Dorgival o vaqueiro
Cair na falta, por verem
Se ele era verdadeiro.
10
Disse o doutor aos amigos
Nós temos que apostar
Dará vinte contos cada
Se o que diga aprovar
Perderei duzentos contos
Se a meu vaqueiro falhar.
11
Eu mandarei minha filha
A Dorgival seduzir
E fazer todo o possível
Dele na laço cair,
E depois veremos ele
Falar verdade ou mentir.
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Concordaram e a aposta
Fecharam rapidamente
Dizendo: esperaremos
O dia conveniente
E provaremos doutor
Que o seu vaqueiro mente.
13
O vaqueiro Dorgival
Morava um pouco afastado
Em uma grande fazenda
Aonde era encarregado
Ali existia um boi
Do patrão muito estimado.
14
O vaqueiro também tinha
Ao boi estimação
Pois era um touro bonito
O orgulho do patrão
Era da raça gigante
Lhe chamavam o "boi Leitão".
16
Toda vez que o vaqueiro
O seu patrão visitava
Logo depois de saudá-lo
O doutor lhe perguntava
Pelo gado e em seguida
O boi Leitão coma estava?
17
O vaqueiro respondia
Nosso gado vai feliz
E o nosso boi Leitão?
É gordo e bom de raiz
Dizia o patrão, você
Somente a verdade diz.
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De formas que o patrão tinha
Muita confiança nele
O moço lá na fazenda
Cumprindo os deveres dele
Não sabia que os ricos
Estavam mexendo com ele.
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Na referida fazenda
Quem quisesse ali chegar
Vindo da cidade, havia
De um rio atravessar
Tinha ali uma jangada
Pra quem quisesse passar.
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O doutor chamou a filha
Disse: vá com a criada
Amanhã logo cedinho
Na fazenda da jangada
Do vaqueiro Dorgival
Se faça de namorada.
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Vá lindamente vestida
Com lindos trajes vermelhos
No rio próximo à fazenda
Preste atenção meus conselhos
Vá passear e levante
A roupa até aos joelhos.
22
Se o vaqueiro lhe chamar
Diga: mate a boi Leitão
E tire ligeiramente
O fígado e o coração
Mande fazer um cozido
Pra comermos um pirão.
23
A moça chegou no rio
Pôs-se ali a passear
Com as vestes aos joelhos
Alegremente a cantar
O vaqueiro ouvindo a voz
Veio fora observar.
24
Dorgival vendo a donzela
Disse rindo: oh! minha santa
Me alegro em ver e ouvir
Quem assim tão linda canta
Venha pra lado de cá
Longe assim não adianta.
25
Respondeu ela: eu irei
Se matar o boi Leitão
E tirar ligeiramente
O fígado e o coração
Mandar fazer um cozido
Pra comermos com pirão.
26
O vaqueiro francamente
Deu resposta imediata
Donzela você merece
Por ser gentil e exata
Mas lhe digo: o boi Leitão
Do meu senhor não se mata.
27
Disse a moça: tem razão
E saiu no mesmo instante
O rapaz ficou olhando
Aquele porte elegante
Pensando naquelas pernas
De beleza fascinante.
28
O vaqueiro não sabia
Que aquela moça bela
Era filha de seu amo
Pois não conhecia ela
Quase não dormiu a noite
Com o pensamento nela.
29
Deolinda ao chegar
Em casa contou ao pai
A resposta do vaqueiro
Disse o doutor: você vai
Amanhã e o seduza
Pra ver se ele cai.
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Amanhã você levante
Até as coxas o vestido
Se ele chamar, você diga
Vou se fizer meu pedido
De matar o boi Leitão
Pra comermos um cozido.
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A moça no próximo dia
Lá na fazenda chegou
Na beira do rio, a roupa
Té as coxas levantou
E se pôs a passear
Dorgival vendo-a chamou.
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Meu anjo venha pra cá Só vou se matar o boi
Não, assim é impossível
Minha santa me perdoe
Tem razão respondeu ela
Rapidamente se foi.
33
O pai lhe disse amanhã
Termine a sua aventura
Vá passear e levante
A roupa até a cintura
E mande-o matar o boi
Que ele não se segura.
34
A moça disse: meu pai
Desse jeito é imoral
Disse o doutor: pode ir
Que não lhe "sucede" mal
Eu sei o que estou fazendo
E confio em Dorgival.
35
Ela foi no outro dia
E ficou lá passeando,
Com a roupa até na cinta
Dorgival foi lhe avistando
Gritou: moça venha cá
Você está me aperriando.
36
Deolinda disse: eu vou
Se matar o boi Leitão
Do coração e do fígado
Fazer para nós um pirão
O vaqueiro disse: venha
Hoje eu mato até o cão.
37
Dorgival rapidamente
Botou no rio a jangada
Chegando do outro lado
Trouxe a moça e a criada
Matou logo o boi Leitão
Para fazer a mesada.
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Fez a carne toda em manta
Pegou o couro espichou
O coração e o fígado
A criada preparou
Fez o pirão e depois
Com prazer tudo almoçou.
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Deolinda com o vaqueiro
Ali o dia passou
Palestrando e a tardinha
Ele a donzela abraçou
E ela com a criada
Pra cidade regressou.
44
Chegando informou ao pai
Tudo que tinha se dado
Contou que pelo vaqueiro
Havia se apaixonado
Disse o pai: ele é solteiro
Vamos ver o resultado.
45
No outro dia o vaqueiro
Amanheceu pensativo
E disse: meu amo pensa
Que o boi Leitão está vivo
Mas vou lhe dizer que não,
Gosto de ser positivo.
46
Ali botou um chapéu
Na cabeça do mourão
Se afastando montou-se
Em um cavalo cardão
Pôs-se a dirigir ao pau
Como se fosse ao patrão.
47
Riscava ao pé do mourão
E ali dava bom-dia
Porém o pau não falava
Ele mesmo respondia
Imitando ao patrão
O vaqueiro assim dizia:
48
Bom-dia, senhor meu amo,
Bom-dia, meu bom vaqueiro,
Como vai o nosso gado?
Vai lindo gordo e fagueiro
E o nosso boi Leitão?
Morreu em um atoleiro.
49
Porém disse: esta mentira
Só serve pra quem é mau
Se retirou do local
Montado no seu quartau
Fez carreira novamente
E riscou no pé do pau.
50
Bom-dia, meu bom patrão,
Bom-dia, meu nobre moço.
Como vai o nosso gado?
Patrão está um colosso
E o nosso boi Leitão?
Caiu, quebrou o pescoço.
51
Esta mentira não presta
Convém a cabra ruim
Veloz voltou o cavalo
Chegou deitar o capim
Correu de novo riscou
No mourão dizendo assim:
52
Bom-dia, senhor. Bom-dia,
Nosso gado ainda existe?
Tudo em paz graças a Deus
Seu gado a tudo resiste.
E o nossa boi Leitão?
Morreu, patrão, dum mal triste.
53
Esta mentira não voga
Serve a quem é relaxado
Saiu e voltou dizendo:
Bom-dia, patrão amado
Bom-dia, meu bom vaqueiro,
Como vai o nosso gado?
54
Nosso gado vai feliz
O vaqueiro respondeu
E o nosso boi Leitão?
Patrão a cobra mordeu
Fiz tudo para salvá-lo
Não teve jeito morreu.
55
Essa também não regula
Presta pra cabra de peia
Vou dizer ao patrão
Embora vá pra cadeia
Que matei o boi Leitão
Pois Dorgival não bambeia.
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Guardou então o chapéu
E saiu muito ligeiro
No seu cavalo e riscou
Na porta do fazendeiro
Disse: bom-dia meu amo
Bom-dia, meu bom vaqueiro.
57
Como vai o nosso gado?
Está gordo e à vontade.
E o nosso boi Leitão
Também vai sem novidade?
Ah, meu amo o boi Leitão
Vou lhe falar a verdade.
58
Surgiu por lá uma moça
De rosto lindo e corado
Um olhar muito atraente
Corpo esbelto aveludado
Fiquei hipnotizado.
59
Guardei respeito, porém
Palpitou-me o coração
Chamei-a para minha casa
E matei o boi Leitão
Do coração e o fígado
Comemos um bom pirão.
60
Dorgival que moça é essa?
Não a conheço patrão
É minha filha rapaz!
Disse o vaqueiro perdão
Pois eu não a conhecia
Disse o doutor: tem razão.
61
Doutor Cristino Gardano
Abraçou a Dorgival
Disse aos amigos: perderam
Passem logo o capital
Meu vaqueiro e minha filha
Vão dar um belo casal.
62
É verdade eles disseram
Seu vaqueiro tem valor!
Passaram duzentos contos
Logo pras mãos do doutor
Dorgival casou-se e foi
Gozar em paz seu amor.
64
O dinheiro da aposta
Com a fazenda juntamente
O doutor Gardano fez
Ao seu genro presente
Passou de vaqueiro a dono
Viva o homem que não mente.
65
Dorgival ficou com sua
Estrela do coração
Provou que era fiel
Adquiriu proteção
Urgente ele enriqueceu
Lamento o que sucedeu
Ao pobre do boi Leitão.
(Em Brandão, Téo. Seis contos populares do Brasil. Rio de
Janeiro, Instituto Nacional do Folclore; Maceió, Universidade Federal de Alagoas, 1982,
p.111-113) |
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