Ano V - dezembro  2002 - nº 52

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 52
FESTANÇA
CANCIONEIRO

setaquad.gif (95 bytes)Um bumba-meu-boi, em Goiana.

setaquad.gif (95 bytes)História do Boi Leitão ou o vaqueiro que não mentia, excertos do cordel de autoria de Francisco Firmino de Paula.

setaquad.gif (95 bytes)Congada, uma das formas mais típicas do nosso folclore.

IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

CANCIONEIRO: Nesta seção, textos sobre música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios; romances; cantos religiosos; quadras, pasquins...


UM BUMBA-MEU-BOI, EM GOIANA

Não temos a pretensão de reproduzir, nesta página, todo um bumba-meu-boi nordestino, façanha que ninguém, até hoje, conseguiu realizar, tantas são as variantes, tantas as dificuldades de fixação oral e melódica, manuscrita ou mecânica. O material abaixo transcrito vem de Goiana e consta de versos que ali são cantados, no curso dessa representação folclórica. Tudo quanto podemos garantir, é tratar-se de documento colhido sem fonte, sem depuração filológica, exposto, pois, em toda a sua pureza original. Constitui assim, mais uma achega importante, que nos manda Goiana, para o esclarecimento dessa dança popular de tão estranhado sabor colonial.

Apresentação dos figurantes

Chegada dos Mateus:

Cadê os negros Mateus
Que não vejo eles chegar
Adeus Maria Yayá (bis)

Chegada do Mestre:

Só queria ver meu Mestre
Que eu queria perguntar
Companhia sempre viva
Que habita outra no lugar

Chegada do Contra Mestre:

Sou eu o Contra Mestre amigo do Capitão
Louvores vinheis dar à Virgem da Conceição
Cadê o contra Mestre que eu não vejo ele chegar
Companhia sempre viva habita outra no lugar

Logo no começo da função: a chegada do Cavalo Marinho

Primeiro Galante:

Sou eu o primeiro Galante
Que habita neste lugar
A noite sendo de escuro
Eu faço clarear

Segundo Galante:

Sou eu o segundo Galante
Com os meus trajos decentes
Louvores vinheis dar
O Santo Reis do Oriente

Terceiro Galante:

Sou o terceiro Galante
Que habito nesta Ribeira
Louvores vinheis dar
Ao padre do Juazeiro

Quarto Galante:

Sou o quarto Galante
Com prazer no coração
Louvores vinheis dar
À Virgem da Conceição

Quinto Galante:

Sou o quinto Galante
Sou a flor da Maravia
Louvores vinheis dar
O Santo Reis nesse dia

Sexto Galante:

Sou o sexto Galante
Viva Deus Onipotente
Louvores vinheis dar
O Santo Reis do Oriente

Primeira Dama:

Sou eu a primeira Dama
Que brinco com o lovôr
Louvores vinheis dar
O Santo Reis do Amor.

Segunda Dama:

Sou eu a segunda Dama
Brincando com energia
Louvores vinhemos dar
O Santo Reis desse dia.


Começo da brincadeira

1
Ou Viva Santo Reis
Viva Santo Reis do Oriente

2
Apiantei Girimun
Estendeu não butou
O Mestre Contra Mestre
Também é fuló

3
São Gonçalo de Marante
Casamenteiro das Moça
Casará a mim primeiro
Para depois casar as outra

4
Quem brinca com São Gonçalo
Precisa ter os pés ligeiro
Depois não sair dizendo
Fez barroca no Terreiro

5
Quando eu vim da Bahia
Chuvia na copa do meu chapeo chuvia

6
Senhora Dona da Casa
Suas feições de Iaiá
O seu marido merece
Patente de Generá

7
Aparecesse meu anjo
Feito um feixinho de lenha
Esperando pela resposta
Que da sua boca venha

8
Ou de casa ou de fora
Magerona é quem tá aí
Foi o cravo e foi a rosa
A porta mandou abri

9
Ou sereia ou vai
Ou sereia não
Ou sereia vai aí
Ou sereia Buzuntão

10
Já fui cravo, já fui rosa
Já fui do teu coração
Já hoje fui vassourinha
Com que vai varrer o chão


Versos do Caboclo de Arubar:

Em cima daquela serra
Onde a onça passeiava
Que eu morasse nessa serra
Até a onça eu matava.

Oh lelé Oh lelé
Oh lelé Oh lelé
Os caboclo de Arubá

Chegou os Glosadô
Terra de São Saruê
Lá eu fui uma caçada
Camarão pitu açu
Lá se mata de espingarda
Onde eu matei uma traíra
Que me escondi na queichada

Terra de São Saruê
É tão bom que admira
Apientei milho no Lageiro
Deu bom que a espiga
Vira os homem

Diz que é verdade
As mulher diz que é mentira
Terra de São Saruê
Mataram um pinto d’angola
O corredor desse pinto
Correu vinte e cinco hora
A depois do pinto morto
Ainda butou graxa fora

Terra de São Saruê
É tão bom de se morar
A galinha tem os pinto
A raposa vai criar

Terra de São Saruê
Tão boa de se morar
Plantei um pé de girimum
No recanto de uma ilha
Tanto girimum verdinho
Tanto que a flô caía
Cinquenta junta de boi
Com girimum não podia.


Outros versos:

Cavalo Marinho do Tejipió
Brinca meu Cavalo
Cada vez melhor

Quem tá do lado de dentro
Deitado em sua rede
Tenha dó de quem está fora
Recostada na parede
Meu coração só me pede
Que bata os pé vá embora

Zabelinha, Zabelinha
Zabelinha de Melão
Come pão come bolacha
Come tudo os pé vá embora


Versos do Perna de Pau:

Valei-me Nossa Senhora
A virgem da Conceição
Valei-me ao Pai Eterno
Marte São Sebastião


Samba do Boi:

Oh Marica bela
Oi o boi
Ei boi dar
Boi Gineiro Malabá

Morte do Boi (inventário)
A rabada da mulher casada
A tripa gaiteira das moça solteira
A tripa mais fina isso é das menina
O corredor é de seu dotô
O coração é do capitão
O cambari bote praqui
O que o boi cagou é dos cantadô
O que o boi perdeu isso é dos Mateu
Do boi o rim é do arlequim
O mocotó de trás é de seu João Braz
As mãos da frente é de seu João Bento

Tem uma comadre
Mora em Afogado
Ela me encomendou
Do boi a rabada

Tem uma prima
Mora em Recife
que me encomendou
Do boi o chifre.



("Um bumba-meu-boi, em Goiana". Revista Contraponto. Recife, dezembro de 1949)

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