Ano V - dezembro 2002 - nº 52

Sua revista com a cara e a alma brasileira

SUMÁRIO - EDIÇÃO 52
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO

setaquad.gif (95 bytes)Adivinhas

setaquad.gif (95 bytes)Folclore infantil

setaquad.gif (95 bytes)Natal e as cantigas de ninar

setaquad.gif (95 bytes)O jogo do avião

setaquad.gif (95 bytes)Travalingua na linguagem folclórica

ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

CATAVENTO - Nesta seção, textos sobre cantigas de roda; acalantos; brincadeiras; brinquedos feitos em casa; adivinhas; trava-línguas; parlendas; lengalengas; fórmulas de escolha, mnemônicas...

TRAVALÍNGUA, FORMA DA LINGUAGEM FOLCLÓRICA

Ana Maria da Rocha


18

Ilustração de Marcos JardimAproveitando o recurso de formação de verbos, com o radical onomatopaico, recolhemos o seguinte:

O relógio tic-taqueia; tic-tac, tic-tac,
Mas se o tac tacasse, ante que o tic ticasse,
E o tic ticasse depois que o tac tacasse,
O tac tacaria, antes que o tic ticasse
E o tic ticaria depois que o tac tacasse;
Então o relógio tac tacaria: tac-tic, tac-tic.
Mas como o tic tica antes que o tac taca,
E o tac taca, depois que o tic tica
O relógio tic-taqueia; tic-tac, tic-tac.

Informante: Margarida Leinert, estudante, São Paulo, 1950.

O exemplo apresenta alguma semelhança com história sem fim. Foi porém, apresentado por informante de origem saxônica, como travalíngua, assim o registramos com a ortografia fornecida pelo próprio informante que no-lo deu por escrito.

19

Como fizemos notar quando analisamos a dificuldade que constitui o exemplo registrado sob o número 19, a troca do l subjuntivo de um grupo por r é vício de pronúncia comum em São Paulo. É o problema do exemplo que damos agora:

A bibliotecária leu a Bíblia. (repetir cem vezes).

Informante: Arquivo da C. P. Folclórica, Mário de Andrade.

20

Recolhemos três versões nas quais pequenas as diferenças do conhecido "pardo pardal porque palras...", registrado por Lindolfo Gomes em Nihil Novi, em Minas Gerais e que na literatura oral (História da literatura brasileira, p.351) Luís da Câmara Cascudo declara ser de origem portuguesa.

Ei-las:

Pardal pardo, porque palras!
Palro sempre e palrarei.
Porque sou o pardal pardo
Palrador d’El Senhor Rei.

Informante: Diva Marini, estudante, São Paulo, 1950.

Por que palras, pardal pardo?
Palro e palrarei
Porque sou pardal pardo del Rei

Informante: J. Japur, bibliotecária, São Paulo, 1954.

Pardo pardal por que palras?
Palro e sempre palrarei
Porque sou o pardal pardo
Palrador d’El Rei.

Informante: Zenobia N. Rocha, prendas domésticas, São Paulo, 1954.

A memória dos informantes talvez os tenha traído, o que determinou a simplificação das duas últimas versões. Toda a fórmula gira em torno da dificuldade de pronúncia do r e do l post-vocálicos.

21

Se o papa papasse papa
Se o papa papasse pão,
O papa tudo papava
Seria um papa-papão.

Informante: Amalia Conti Rubino, estudante, São Paulo.

Foi o texto acima registrado por Lindolfo Gomes em Nihil Novi (p.14). Citando-o Luís da Câmara Cascudo o considera literalizado.

Outra fórmula que recolhemos apresenta como esta a dificuldade de repetição das palavras com os mesmos fonemas, em ordens sempre diversas, exigindo, além da articulação correta, grande esforço mnemônico. Emprega-se como recurso para alterar a ordem das palavras a forma interrogativa, a preposição condicional etc., como nos exemplos:

23

Não sei se é fato ou se é fita,
Não sei se é fita ou se é fato.
O fato é que ela me fita
E fita mesmo de fato.

Informante: Semiramis A. Viana, secretária, São Paulo, 1954.

24

À entrada de Chaves
Achei uma chave de chumbo
Chapada no chão.

Informante: Tulie Smith, estudante, São Paulo, 1950.

25

Meia meia feita
Meia meia por fazer.
Contando meia por meia.
Quantas meias há de ter?

Informante: Margarida Leinert, estudante, São Paulo, 1950.

26

- Cá há eco?
– Cá eco há.
– Que eco é que há cá?
– Cá há o eco que aqui há.

Informante Marta Oliveira, funcionário público, São Paulo, 1950. (...)


(Rocha, Ana Maria da. "Travalíngua, forma da linguagem folclórica". A Gazeta. São Paulo, 14 de julho de 1962, 2º caderno, p.16)

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