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| CATAVENTO
- Nesta seção, textos sobre cantigas de roda; acalantos; brincadeiras;
brinquedos feitos em casa; adivinhas; trava-línguas; parlendas; lengalengas; fórmulas de
escolha, mnemônicas... |
O JOGO DE AVIÃO
Um brinquedo que se perdeu na civilização de consumo |
Você já foi menina, brincou de boneca e participou de jogos e brinquedos
próprios da idade? Era a pergunta que deveria ser feita a todas as adolescentes dos anos
setenta. A resposta talvez fosse um Não, intrigado, pois nos dias de hoje é coisa
rara encontrarmos meninos jogando chimbra (bolas de gude), empinando papagaio, brincando
de "pega", ou meninas brincando de roda ou saltando avião.
A civilização do consumo põe a disposição da criançada inúmeros atrativos que
fazem-nas esquecer que são crianças e vivam a idade dos sonhos.
No bairro maceioense de Ponta Grossa encontramos, como por encanto, duas meninas jogando
ou "brincando" de avião, seu nomes: Maria Cristina Cirilo Neto, 12 anos,
estudante do primeiro grau e Valdirene Cirilo Neto, 8 anos, estudante do segundo ano
primário. As meninas são naturais da capital alagoana, filhas de pais nascidos no
interior de Alagoas.
Cristina e Valdirene brincavam de avião de forma natural e pura, que fomos impelidos a
registrar o brinquedo, contamos para isso com a colaboração das meninas que desenharam
todos os tipos de avião que conheciam e, inclusive, jogaram em todos eles, demonstrando
na prática o funcionamento do jogo.
Paulinho Santiago, no trabalho Jogos e brinquedos da minha infância comenta os
seguintes tipos de brincadeira: "A arraia", "A castanha", "O
pião e a carrapeta", "O galo-caiu" e "Boca-de-forno".
Téo Brandão, em Brinquedos Infantis descreve "Caiu no poço",
"Fita", "Viuvinho" e "Melancia", ambos grandes estudiosos do
tema, não comentaram o "Jogo do avião", Inclusive sobre folclore intantil, o
mestre Téo havia anunciado desde 1949 seu trabalho que não chegou a publicar.
O professor Pedro Teixeira de Vasconcelos informa que em Viçosa e Chã Preta o nome
empregado para o divertimento infantil na época de sua infância era "Jogo de
academia". "Vamos jogar Academia!" diziam todos e não era apenas
brincado por meninas, os meninos tomava parte ativamente.
O jogo e os modos de jogarTreze foi o número de tipos de avião citados,
desenhados pelas informantes, cada um deles com um nome próprio, desta maneira: 1. Avião
simples; 2. De pesqueira; 3. Paulista; 4. De Maceió; 5. Carrossel ou Avião do Recife; 6.
Do Japão; 7. De Brasília; 8. De Rio Largo; 9. De Peixe; 10. De Peixe (novo tipo); 11.
Japonês; 12. Do Prado; 13. de Maceió (novo tipo).
O modo de jogar, que a seguir comentaremos, é bem semelhante em todos os tipos, alguns
variam pela sua própria forma, e é interessante observar que entre os tipos de avião,
dez deles não tem a forma convencional do avião que costumávamos desenhar quando
criança.
Modo de jogar
Tipo 1 Avião simples
O primeiro passo para jogar ou saltar avião é desenhá-lo em solo bem limpo, pega-se um
pedaço de madeira ou caco de telha, desenha-o com oito "casas" numeradas fora
da primeira casa e fora das casas 7 e 8 desenha-se o "céu" ou a
"asa", local onde a criança fica em pé para jogar a pedrinha ou casca de
banana dobrada na "casa" certa.
O jogo é iniciado com duas ou mais meninas. A primeira fica no céu, joga a pedrinha na
casa 1, depois pula do céu para a casa 2, em apenas um pé, e, se cair ou pisar na linha
do avião "queima", isto é perde o jogo. Da casa 2, passa para a casa 3, depois
4, 5, até a oitava depois volta da oitava para a sétima... para a sexta até a segunda,
na casa 2, pega a pedra que se encontra na primeira casa e sai.
Nas casas 4 e 5, e 7 e 8, ao invés de apenas um pé, a criança fica como que em
posição de descanso e seus pés tocam nas duas casas.
Novamente no céu, joga a pedra para a casa 2, pula do céu para a casa 1, pula a casa 2
em que se encontra a pedra, pisa na casa 3, 4, 5, 6, 7, 8, depois volta até a casa 3,
onde pega a pedra na casa 2. Pula para a casa 1, sai para o céu, e joga para a casa 3
até chegar a casa 8.
Terminado o jogo, fica no céu, fora da casa 7 e 8 e joga a pedra para a casa 1, depois
vem pulando, primeira na casa 8, depois para a 7, 6, 5, 4, até a casa 2, onde pega a
pedra que se encontra na casa 1, daí volta pulando, sempre em apenas um pé, até a casa
8. Concluído esse jogo arremesa a pedra para a casa 2, depois 3, 4, 5, 6, 7 e 8.
Concluído todos esses jogos, começa a segunda etapa "o jogo de ida", depois o
"jogo de volta", consiste na criança sair chutando a pedra com apenas um pé.
Em seguida, começam outras etapas, que tem nomes especiais e são:
1. Jogo do dedinho
No jogo do dedinho faz-se as mesmas jogadas descritas, só que desta vez com a casca de
banana ou o pedaço de telha sobre dois dedos em riste. Se por acaso a casca de banana
cair a criança perde o jogo e entra o concorrente no lugar.
2. Copinho
Nesta variedade de jogo, a criança coloca a pedra ou a casca de banana em cima da mão
fechada e faz todas as jogadas já descritas. A regra do jogo é inflexível, caiu a
pedra, perde-se o jogo.
3. Bolsinho
Na modalidade chamada "Bolsinho", a criança coloca a pedra apertada entre o
braço e o antebraço, e faz todas as jogadas, a regra é idêntica.
4. Cabecinha
Neste tipo de jogada, a criança coloca a pedrinha sobre a cabeça e procura
equilibrá-la, caiu a pedra, perdeu o jogo.
5. Pesinho
A criança coloca a pedra no pé direito e faz todas as jogadas, caiu a pedra, está
perdida a jogada.
6. Relojinho
Neste tipo de jogada a concorrente coloca a pedra "na munheca" e sai fazendo
as jogadas. A regra é igual.
7. Ombro
A criança coloca a pedra no ombro e faz todas as jogadas.
8. Tô boa
De olhos fechados a criança atira a pedra como na primeira descrição e tenta fazer
todas as jogadas, sempre de olhos fechados e com a cabeça dirigida para cima, e sai
fazendo a pergunta: "Tô boa?" As outras meninas respondem: "Tá" ou
"Não tá". Além das regras já citadas, é bom que lembremos que mesmo com os
olhos fechados, se a concorrente pisar na linha, perdeu a jogada, e todos gritam
"queimou".
(Rocha, José Maria Tenório. "O jogo de avião;
um brinquedo que se perdeu na civilização de consumo". Jornal de Alagoas. Maceió, 22 de setembro
de 1976) |
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