Ano V - dezembro 2002 - nº 52

Sua revista com a cara e a alma brasileira

SUMÁRIO - EDIÇÃO 52
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO

setaquad.gif (95 bytes)Adivinhas

setaquad.gif (95 bytes)Folclore infantil

setaquad.gif (95 bytes)Natal e as cantigas de ninar

setaquad.gif (95 bytes)O jogo do avião

setaquad.gif (95 bytes)Travalingua na linguagem folclórica

ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

CATAVENTO - Nesta seção, textos sobre cantigas de roda; acalantos; brincadeiras; brinquedos feitos em casa; adivinhas; trava-línguas; parlendas; lengalengas; fórmulas de escolha, mnemônicas...

O NATAL E AS CANTIGAS DE NINAR

Guilherme Santos Neves
Da Comissão Espírito-Santense de Folclore


Ilustração de Marcos JardimDe uma feita, García Lorca, em conferência sobre "Las nanas infantiles", disse da "aguda tristeza das cancões de berço", em sua terra, ao ouvir, em Granada, ninar uma mulher do povo a seu filhinho. "Desde então – conta-nos o poeta – procurei recolher canções de berço de todos os recantos de Espanha; quis saber de que modo dormiam seus filhos, as mulheres de meu país, "Y al cabo de un tiempo, recebi la impression de que España usa sus melodias de más acentuada tristeza y sus textos de expresión más melancólica para teñir el primer sueño de sus niños".

Cremos nada haver que mudar ao trecho acima, se nos referimos às nossas cantigas de ninar. São elas – como as de Espanha – impregnadas de profunda tristeza, se não na letra ingênua e doce, ao menos na melodia quase sempre desconsolada e dolente.

Mas não é disso que aqui desejamos tratar, e sim da intromissão natural e lógica de temas do Natal, nessas delicadas jóias do folclore infantil ou melhor – do folclore maternal, segundo a classificação de R. Olivares Figueroa, folclorista da Venezuela (Folclore venezolano, I , p.192).

Nada mais adequado, aliás, para ninar crianças, do que as doces recordações da santa vida do Menino Deus. Por isso, Jesus, Maria e José se entrelaçam, em singelos versos, nos ingênuos acalantos cantarolados em nossa terra.

Quem desconhece, acaso, os versinhos da linda berceuse:

Estava Maria
à beira do rio
lavando os paninhos
do seu bento filho

Maria lavava,
José estendia;
chorava o Menino
do frio que fazia

Desta velha cantiga de ninar temos versões de Vitória, Vila Velha, Piúma, Guarapari, Afonso Cláudio, Santa Leopoldina, Cachoeiro de Itapemirim, Anchieta, São Mateus e Colatina. As alterações são mínimas, embora, em algumas regiões, só se cante a segunda parte.

Variantes da primeira quadra: Encontrei Maria / lavando no rio / lavava a roupinha / do seu bento filho; A Virgem Maria / na beira do rio / lavava os paninhos / do seu amado filho; Nossa Senhora / na beira do rio...; Senhora Santana / na beira do rio... Da segunda quadrinha, a variante mais acentuada é a substituição de um verbo "Do frio que sentia" – em lugar de "Do frio que fazia".

Em outro acalanto, por vezes entoado com a mesma bonita melodia do anterior, se diz, aqui no Espírito Santo:

Maria e José
vão para Belém
levando o Menino
que eles querem bem
(ou que lhe querem bem)

Dorme filhinho,
que mãezinha logo vem,
foi lavar sua roupinha
na pocinha de Belém

Este último também se encontra assim alterado: "Dorme filhinho / que o bicho já vem / papai foi buscar água / no poço de Belém; Dorme, meu filhinho / que o papai já vem / teu maninho também dorme / na fontinha de Belém. Variantes todas da velha versão portuguesa (Natal português, Luís Chaves, 35):

Calai-vos, meu Menino,
Que a Senhora logo vem;
Foi lavar os cueirinho
À fontinha de Belém



(Neves, Guilherme Santos. "O Natal e as cantigas de ninar". Vida Capixaba. Vitória, 15 de dezembro de 1950)

Jangada Brasil © 1998-2002