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| CATAVENTO
- Nesta seção, textos sobre cantigas de roda; acalantos; brincadeiras;
brinquedos feitos em casa; adivinhas; trava-línguas; parlendas; lengalengas; fórmulas de
escolha, mnemônicas... |
O NATAL E AS CANTIGAS DE NINAR |
Guilherme Santos Neves
Da Comissão Espírito-Santense de Folclore |
De uma feita, García Lorca, em conferência sobre "Las nanas
infantiles", disse da "aguda tristeza das cancões de berço", em sua
terra, ao ouvir, em Granada, ninar uma mulher do povo a seu filhinho. "Desde então
conta-nos o poeta procurei recolher canções de berço de todos os recantos
de Espanha; quis saber de que modo dormiam seus filhos, as mulheres de meu país, "Y
al cabo de un tiempo, recebi la impression de que España usa sus melodias de más
acentuada tristeza y sus textos de expresión más melancólica para teñir el primer
sueño de sus niños".
Cremos nada haver que mudar ao trecho acima, se nos referimos às nossas cantigas de
ninar. São elas como as de Espanha impregnadas de profunda tristeza, se
não na letra ingênua e doce, ao menos na melodia quase sempre desconsolada e dolente.
Mas não é disso que aqui desejamos tratar, e sim da intromissão natural e lógica de
temas do Natal, nessas delicadas jóias do folclore infantil ou melhor do folclore
maternal, segundo a classificação de R. Olivares Figueroa, folclorista da Venezuela
(Folclore venezolano, I , p.192).
Nada mais adequado, aliás, para ninar crianças, do que as doces recordações da santa
vida do Menino Deus. Por isso, Jesus, Maria e José se entrelaçam, em singelos versos,
nos ingênuos acalantos cantarolados em nossa terra.
Quem desconhece, acaso, os versinhos da linda berceuse:
Estava Maria
à beira do rio
lavando os paninhos
do seu bento filho
Maria lavava,
José estendia;
chorava o Menino
do frio que fazia
Desta velha cantiga de ninar temos versões de Vitória, Vila Velha, Piúma, Guarapari,
Afonso Cláudio, Santa Leopoldina, Cachoeiro de Itapemirim, Anchieta, São Mateus e
Colatina. As alterações são mínimas, embora, em algumas regiões, só se cante a
segunda parte.
Variantes da primeira quadra: Encontrei Maria / lavando no rio / lavava a roupinha / do
seu bento filho; A Virgem Maria / na beira do rio / lavava os paninhos / do seu amado
filho; Nossa Senhora / na beira do rio...; Senhora Santana / na beira do rio... Da segunda
quadrinha, a variante mais acentuada é a substituição de um verbo "Do frio que sentia"
em lugar de "Do frio que fazia".
Em outro acalanto, por vezes entoado com a mesma bonita melodia do anterior, se diz, aqui
no Espírito Santo:
Maria e José
vão para Belém
levando o Menino
que eles querem bem
(ou que lhe querem bem)
Dorme filhinho,
que mãezinha logo vem,
foi lavar sua roupinha
na pocinha de Belém
Este último também se encontra assim alterado: "Dorme filhinho / que o bicho
já vem / papai foi buscar água / no poço de Belém; Dorme, meu filhinho / que o papai
já vem / teu maninho também dorme / na fontinha de Belém. Variantes todas da
velha versão portuguesa (Natal português, Luís Chaves, 35):
Calai-vos, meu Menino,
Que a Senhora logo vem;
Foi lavar os cueirinho
À fontinha de Belém
(Neves, Guilherme Santos. "O Natal e as cantigas
de ninar". Vida Capixaba. Vitória, 15 de dezembro de
1950) |
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