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| CATAVENTO
- Nesta seção, textos sobre cantigas de roda; acalantos; brincadeiras;
brinquedos feitos em casa; adivinhas; trava-línguas; parlendas; lengalengas; fórmulas de
escolha, mnemônicas... |
Li outro dia um artigo sobre o mal que o
progresso das cidades faz às crianças. Menino de apartamento, menino de rua asfaltada,
não sabe o que é sujar as mãos de terra, ter por amigo o mourão da cerca ou um pé de
árvore. Nunca teve o prazer de roubar uma fruta no quintal do vizinho nem proibir um
eventual inimigo de transitar pelo seu passeio. Com a televisão e o cinema eles deixam de
exercitar a imaginação. Quem ainda sonha com feiticeiras, anões, dragões, gigantes,
princesas de cabelo de ouro? Tudo já vem pronto para ser aceito. Apenas umas mentes mais
atiladas não aceitam os tipos que lhe impingem nas películas e videotapes, sendo
consideradas como crianças desajustadas. Era este mais ou menos o pensamento do autor,
embora dito por outras palavras.
A decadência da brincadeira espontânea é um fato. Atualmente, menino só pode brincar
mesmo é quando vai aprender a gostar de freqüentar escola. Brinca aliás, do que a
professora ensina ou sugere. Não há mais oportunidade, salvo nos bairros pobres, de se
ver uma turminha animada, discutindo qual o brinquedo, qual o jogo que deve desfrutar no
momento.
Existiu e ainda existe uma espécie de código infantil a respeito do modo de brincar.
Brinquedos para de manhã, para de tarde, para de noite, brinquedos sentados, brinquedos
de correr. Brinquedos só de meninos ou só de meninas. Meninas terríveis e meninos
matreiros sempre infringiram as regras mais primárias do seu código, desde que tivessem
qualidades de comando, isto que se chama agora de liderança.
Menino junto é briga ou brincadeira diz um velho ditado. Briga ou brincadeira onde
só são aceitos aqueles que se dão bem com todos. Os que estão de mal com algum dos
elementos mais destacados do grupo têm de ser alijados para que tudo corra bem. Os
desconhecidos precisam saber beirar, indagar ou pedir para também brincar. A vontade de
um prevalecendo. Mas brincar de que?
Os brinquedos tradicionais estão morrendo pressionados pela padronização nas escolas.
Agora há muita brincadeira que está fossilizada ou sobrevive mutilada, porque estão
tirando ao menino o direito de inventar. O que são as versões dos jogos infantis mais
que isto? O menino repetindo algo que julgou ouvir, suprindo da maneira que quer o que
não consegue reproduzir com exatidão.
Muita gente tem se ocupado em registrar as brincadeiras infantis, preocupando-se,
sobretudo com os aspectos semânticos, rítmicos ou musicais. Graças a isto temos
notícia de como deveriam ter sido os textos originais de determinadas lenga-lengas que
por acaso ainda circulem entre as crianças. O dedo mindinho, tão comum entre adulto e
criança, com aquele longo indagar sobre o toucinho, sobre o camarão, sobre o bolo que
estava na palma da mãozinha. A versão mais comprida que já conseguimos registrar,
colhida aqui mesmo em Salvador, num esforço de memória da senhora Maria da Natividade da
Silva, é mais ou menos assim:
Dedo mindinho
Seu (ou senhor) vizinho
Maior de todos
Fura-bolos
Cata (ou mata) piolho
Cadê o toucinho que estava aqui?
O gato comeu.
Cadê o gato?
Está no mato.
Cadê o mato?
O fogo queimou.
Cadê o fogo?
A água apagou.
Cadê a água?
O boi bebeu.
Cadê o boi?
Está amassando o barro.
Cadê o barro?
A galinha espalhou.
Cadê a galinha?
Está botando o ovo.
Cadê o ovo?
O padre comeu.
Cadê o padre?
Está caçando o gato.
Cadê o gato?
Ele fugiu.
or onde ele foi?
Foi por aqui, por aqui, por aqui, etc.
Termina com o passeio pelo braço, provocando cócegas no pequeno incauto.
Encontrei em João Ribeiro uma versão parecida. Quantos de nós seria capaz de dizer que
o brinquedo tinha este desenvolvimento?
Outros minguam ainda mais, apesar do texto não ser dois mais longos. É o caso do pular
Boca de forno, outrora brincado como Vento com vento frade. Poucos se incomodavam com a
incoerência da expressão que não se sabia o que queria dizer. A brincadeira do Frade
Bento que ainda alguns anos passados era dialogado de outra maneira.
Vento com vento frade (ou Bento que Bento é o frade).
Frade.
Onde quereis que mande?
Mande.
Na boca de um forno.
Forno.
Tirar um bolo.
Bolo.
Onde seu mestre mandar.
Mande.
Vá em tal lugar, fazer tal coisa.
As tarefas mais absurdas eram dadas e desempenhadas com a maior presteza.
Uns tantos desapareceram deixando de ser cantados, porque escaparam à seleção dos que
organizaram manuais de recreação. É o caso do Mata-tira-tirarô. A versão mais
completa nos foi fornecida pela mesma dona Maria da Natividade Silva. Talvez o leitor
pudesse também dar a sua ajuda enviando a sua versão.
Bom dia, meu senhor
Mata-tira-tirarô
Que é que vós quereis?
Mata-tira-tirarô
Quero uma de vossas filhas
Mata-tira-tirarô
Escolheis a que quiserdes
Mata-tira-tirarô
Que ofício tem você?
Mata-tira-tirarô
Sou filho de um rei
Mata-tira-tirarô
Ela não aceitou
Mata-tira-tirarô
Meu castelo é muito belo
Mata-tira-tirarô
O nosso também é
Mata-tira-tirarô
Eu só caso por amor
Mata-tira-tirarô
Ela aceitou
Mata-tira-tirarô
O que dareis a ela?
Mata-tira-tirarô
Um vestido de seda
Mata-tira-tirarô
Ela aceitou
Mata-tira-tirarô
Os meninos de hoje nada sabem dessa brincadeira. Os de ontem esqueceram da forma porque
brincavam. O brinquedo morreu. Mas se o leitor ainda se lembra de como era o seu
Mata-tira-tirarô, por que não enviar o texto para divulgação?
(Viana, Hildegardes. "Folclore infantil". A
Tarde. Salvador, 7 de outubro de 1969, primeiro caderno, p.4) |
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