Ano V - dezembro 2002 - nº 52

Sua revista com a cara e a alma brasileira

SUMÁRIO - EDIÇÃO 52
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO

setaquad.gif (95 bytes)Adivinhas

setaquad.gif (95 bytes)Folclore infantil

setaquad.gif (95 bytes)Natal e as cantigas de ninar

setaquad.gif (95 bytes)O jogo do avião

setaquad.gif (95 bytes)Travalingua na linguagem folclórica

ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

CATAVENTO - Nesta seção, textos sobre cantigas de roda; acalantos; brincadeiras; brinquedos feitos em casa; adivinhas; trava-línguas; parlendas; lengalengas; fórmulas de escolha, mnemônicas...

FOLCLORE INFANTIL

Hildegardes Viana


Ilustração de Marcos JardimLi outro dia um artigo sobre o mal que o progresso das cidades faz às crianças. Menino de apartamento, menino de rua asfaltada, não sabe o que é sujar as mãos de terra, ter por amigo o mourão da cerca ou um pé de árvore. Nunca teve o prazer de roubar uma fruta no quintal do vizinho nem proibir um eventual inimigo de transitar pelo seu passeio. Com a televisão e o cinema eles deixam de exercitar a imaginação. Quem ainda sonha com feiticeiras, anões, dragões, gigantes, princesas de cabelo de ouro? Tudo já vem pronto para ser aceito. Apenas umas mentes mais atiladas não aceitam os tipos que lhe impingem nas películas e videotapes, sendo consideradas como crianças desajustadas. Era este mais ou menos o pensamento do autor, embora dito por outras palavras.

A decadência da brincadeira espontânea é um fato. Atualmente, menino só pode brincar mesmo é quando vai aprender a gostar de freqüentar escola. Brinca aliás, do que a professora ensina ou sugere. Não há mais oportunidade, salvo nos bairros pobres, de se ver uma turminha animada, discutindo qual o brinquedo, qual o jogo que deve desfrutar no momento.

Existiu e ainda existe uma espécie de código infantil a respeito do modo de brincar. Brinquedos para de manhã, para de tarde, para de noite, brinquedos sentados, brinquedos de correr. Brinquedos só de meninos ou só de meninas. Meninas terríveis e meninos matreiros sempre infringiram as regras mais primárias do seu código, desde que tivessem qualidades de comando, isto que se chama agora de liderança.

Menino junto é briga ou brincadeira — diz um velho ditado. Briga ou brincadeira onde só são aceitos aqueles que se dão bem com todos. Os que estão de mal com algum dos elementos mais destacados do grupo têm de ser alijados para que tudo corra bem. Os desconhecidos precisam saber beirar, indagar ou pedir para também brincar. A vontade de um prevalecendo. Mas brincar de que?

Os brinquedos tradicionais estão morrendo pressionados pela padronização nas escolas. Agora há muita brincadeira que está fossilizada ou sobrevive mutilada, porque estão tirando ao menino o direito de inventar. O que são as versões dos jogos infantis mais que isto? O menino repetindo algo que julgou ouvir, suprindo da maneira que quer o que não consegue reproduzir com exatidão.

Muita gente tem se ocupado em registrar as brincadeiras infantis, preocupando-se, sobretudo com os aspectos semânticos, rítmicos ou musicais. Graças a isto temos notícia de como deveriam ter sido os textos originais de determinadas lenga-lengas que por acaso ainda circulem entre as crianças. O dedo mindinho, tão comum entre adulto e criança, com aquele longo indagar sobre o toucinho, sobre o camarão, sobre o bolo que estava na palma da mãozinha. A versão mais comprida que já conseguimos registrar, colhida aqui mesmo em Salvador, num esforço de memória da senhora Maria da Natividade da Silva, é mais ou menos assim:

Dedo mindinho
Seu (ou senhor) vizinho
Maior de todos
Fura-bolos
Cata (ou mata) piolho
Cadê o toucinho que estava aqui?
O gato comeu.
Cadê o gato?
Está no mato.
Cadê o mato?
O fogo queimou.
Cadê o fogo?
A água apagou.
Cadê a água?
O boi bebeu.
Cadê o boi?
Está amassando o barro.
Cadê o barro?
A galinha espalhou.
Cadê a galinha?
Está botando o ovo.
Cadê o ovo?
O padre comeu.
Cadê o padre?
Está caçando o gato.
Cadê o gato?
Ele fugiu.
or onde ele foi?
Foi por aqui, por aqui, por aqui, etc.

Termina com o passeio pelo braço, provocando cócegas no pequeno incauto.

Encontrei em João Ribeiro uma versão parecida. Quantos de nós seria capaz de dizer que o brinquedo tinha este desenvolvimento?

Outros minguam ainda mais, apesar do texto não ser dois mais longos. É o caso do pular Boca de forno, outrora brincado como Vento com vento frade. Poucos se incomodavam com a incoerência da expressão que não se sabia o que queria dizer. A brincadeira do Frade Bento que ainda alguns anos passados era dialogado de outra maneira.

Vento com vento frade (ou Bento que Bento é o frade).
Frade.
Onde quereis que mande?
Mande.
Na boca de um forno.
Forno.
Tirar um bolo.
Bolo.
Onde seu mestre mandar.
Mande.
Vá em tal lugar, fazer tal coisa.

As tarefas mais absurdas eram dadas e desempenhadas com a maior presteza.

Uns tantos desapareceram deixando de ser cantados, porque escaparam à seleção dos que organizaram manuais de recreação. É o caso do Mata-tira-tirarô. A versão mais completa nos foi fornecida pela mesma dona Maria da Natividade Silva. Talvez o leitor pudesse também dar a sua ajuda enviando a sua versão.

Bom dia, meu senhor
Mata-tira-tirarô
Que é que vós quereis?
Mata-tira-tirarô
Quero uma de vossas filhas
Mata-tira-tirarô
Escolheis a que quiserdes
Mata-tira-tirarô
Que ofício tem você?
Mata-tira-tirarô
Sou filho de um rei
Mata-tira-tirarô
Ela não aceitou
Mata-tira-tirarô
Meu castelo é muito belo
Mata-tira-tirarô
O nosso também é
Mata-tira-tirarô
Eu só caso por amor
Mata-tira-tirarô
Ela aceitou
Mata-tira-tirarô
O que dareis a ela?
Mata-tira-tirarô
Um vestido de seda
Mata-tira-tirarô
Ela aceitou
Mata-tira-tirarô

Os meninos de hoje nada sabem dessa brincadeira. Os de ontem esqueceram da forma porque brincavam. O brinquedo morreu. Mas se o leitor ainda se lembra de como era o seu Mata-tira-tirarô, por que não enviar o texto para divulgação?



(Viana, Hildegardes. "Folclore infantil". A Tarde. Salvador, 7 de outubro de 1969, primeiro caderno, p.4)

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