"Meu prezado amigo Aldércio Aquino (que, diga-se como ressalva, não
acompanhou em menino, os palhaços de circo...) forneceu-me ótimo e rico material
referente à essas versalhadas brejeiras".
Isso deixei dito no final dos meus rascunhos de quinta-feira passada, ao focalizar, neste
mesmo jornal, o "Hoje tem espetáculo! Tem sim sinhô..."
tradicional pregão de circos, prometendo o resto para hoje.
Há tempos, ali em Santo Antônio informe do Aquino a garotada ia seguindo o
palhaço, a lhe responder às perguntas curiosas:
Hoje tem espetáculos?
Tem sim sinhô
Hoje tem vatapá?
Tem sim sinhô
Hoje tem marmelada?
Tem sim sinhô
Hoje tem brucutu?
Tem sim sinhô
Pra comê com angu?
(Tem) sim sinhô
E depois:
E o palhaço o que é?
É ladrão de mulhé...
Também ouvia o informante este diálogo entre o palhaço e a malta, semelhante ao que
transcrevemos quinta-feira do livro Por onde Deus não andou, do escritor
maranhense Godofredo Viana;
Teco teleco teco
Maravilha!
Quem pelou a mãe?
Foi a filha..."
Por vezes, a cantinela toma ares um tanto ou quanto líricos...
O raio e o sol
Suspende a lua
Olha o palhaço
Que está na rua!
Outro amigo meu, também cá do peito. Paulo Velozo, lembrou-me variante desta última,
entoada lá pelos idos de 1914 ou 1915, ali em Vila Velha:
Ó raio, ô sol
Suspende a lua
Bravos ó palhaço
Que está na rua!
Esses dois últimos versos se reproduziam na despedida do palhaço, segundo a versão
maranhense publicada aqui quinta-feira:
Inzora, inzora,
acabou-se a história
Bravos o palhaço
que já vai simbora!
Aliás, em Vila Velha conforme testemunho de Velozo o palhaço lá (como
vimos nas referências literárias do escrito anterior) montado às avessas num burro,
isto é, com a cara voltada para a anca do animal. Quanto à cantinela, era ela semelhante
às demais:
Hoje tem espetáculo?
Tem sim sinhô
Às seis horas da noite?
Tem sim sinhô
Olha a negra na janela
Que tem cara de panela
Olha a negra no portão
Que tem cara de tição...
E o palhaço o que é?
É ladrão de mulhé...
No final do giro através das ruas da cidade, o palhaço, pouco antes do espetáculo,
riscava com cinza uma cruz na testa dos garotos que o acompanharam na faina alegre do
pregão. Essa cruz de cinza era a senha que permitiria a entrada grátis no circo.
Ouvindo outros informantes, ali no Banco de Crédito Agrícola, onde trabalha, Aldércio
Aquino recolheu mais estes versos, que servem também ao estudo dos pregões circenses. |
Neste,
por exemplo, desfilavam as reais ou fictícias atrações do circo:
Minha gente venha vê
O palhaço Pingolé,
Cachorro que ri e dança,
Macaco fazê crochê,
Galinha brincá no arame
De braço com chipanzé,
A onça fazendo conta
Ajudada por mulhé...
E a seguir:
Subi pela rama
Desci pelo galo,
Segura Teresa
Senão eu caio... (bis)
Depois, estes versinhos, tirados a um velho brinco infantil:
Mamãe, titia,
Vem vê vovó
Chupando cana
Com um dente só...

Havia também o apelo às domésticas a "graxeiras", assanhadas com o vozerio do
palhaço e seu cortejo:
Ó bela menina
Vai dizê tua patroa,
Que hoje lá no circo
Novidade e coisa boa...
Outros versos, cantados lá em São Mateus, envolviam coisas e língua de negro:
Olerê bambu
Olerê bambu
Casaco de negro
É urubu...
E havia também um caso meio complicado de que lavo as mãos para não me meter em
barulho:
Hoje tem arrelia?
Tem sim sinhô
Com a mulhé do Malaquia?
Tem sim sinhô...
E depois, e sempre e a toda hora, a todo instante, a pergunta insistente, de cuja
resposta, com certeza, se vangloriavam todos os palhaços:
E o palhaço o que é?
É ladrão de mulhé... |