Matar sapo ou lagartixa chuva na certa. Pato procurando beber água no
chão seco sinal de que vai chover. Bode quando espirra avisa chuva. Guaiu deu em
casa? daí a pouco está chovendo. Cavalo olhando pra cima ou porco fazendo ninho
não tarda chover. Sapo de papo pro ar chuva...
A esses velhos conhecidos sinais de chuva, o capixaba desta ilha de Vitória acrescenta
mais este, infalível: Circo anunciando ou armando toldo pra estréia não tenha
dúvida vem chuva por aí!...
Está na terra ali na Esplanada, o Circo Garcia. E como tem chovido...
Mas vamos ao que aqui nos trouxe hoje.
Na Vitória de ontem, anunciavam-se os espetáculos dos circos da mesma tradicional
maneira por que ainda o fazem no interior: saía o palhaço à rua, seguido da molecada
alegre e bulhenta, que respondia, em coro e algazarra, às perguntas que o cômico fazia,
em versalhada que começava assim:
Hoje tem espetáculo?
Tem, sim sinhô...
Não faz muito tempo, creio que em 1952, ouvi ali em Itarana o velho pregão circense.
Colhi até uma fotografia onde se vê o palhaço, risonho e burlesco, e a garotada álacre
a seguir-lhe os passos ligeirinhos. E a mesma cantilena com as mesmíssimas respostas
uasavam a malta de garotos e o palhaço do circo mambembe que se armara em Itarana.
Essa cantilena tradicional e, portanto, folclórica tem sido registrada por
escritores nossos, em seus contos e romances. Disto vou dar aqui uns três exemplos. R.
Magalhães Júnior que hoje, graças aos seus estudos e pesquisas em torno da vida
e obra de Machado de Assis, ocupa uma das poltronas da Academia Brasileira de Letras
escreveu de parceria com Lúcia Benedetti, um livro para crianças, o Chico
Vira-Bicho (Porto Alegre, Editora Globo, 1943), em sua página 20 se pode ler:
"Chico achara muito cruel e muito esquisito o mundo antigo, e considerou que não era
a um circo dessa espécie que ele queria ir. Queria um circo com bichos mansos,
domesticados, arteiros, sabendo dar saltos e fazer habilidades, e com muitos palhaços
engraçados, desses que fazem a gente morrer de rir com as suas cenas cômicas e com as
suas piadas estapafúrdias.
Palhaços como aquele que vira uma vez da janela do Palácio real, passando montado num
burrico, a cara cheia de alvaiade e vermelhão, seguido pela molecada das ruas. O palhaço
dizia:
" Hoje tem espetáculo?
E a molecada
Tem, sin senhor!
Hoje tem goiabada?
Tem, sin senhor!
Olha a velhota assanhada!
Tem cara de marmelada!
Olha a negra na janela!
Tem cara de panela!
Olha a negra no fogão!
Tem cara de tição!"
Da literatura infantil, pulemos para a outra (às vezes tão infantil quanto a
primeira...). No romance Jubiabá, de Jorge Amado (Rio de Janeiro, José Olímpio,
1953), deparo outro tópico, no capítulo "Circo", à página 237, em que se
descreve também como se fazia o pregão do espetáculo. Vale a pena transcrever o trecho:
" E o palhaço o que é?
É ladrão de mulher...
Olha a negra na janela...
Com cara de panela...O palhaço Bolão vai montado de costas num jumento. No fundo da
cidade o circo domina. Cheio de bardeiras, com dois anúncios na porta. De noite a música
tocará ali e negras venderão cocada. A cidade só fala no circo, nas artistas, na negra
que dança quase nua e principalmente no negro Baldo que desafia os homens de Feira de
Santa (...) O palhaço está atravessando o largo da Feira:
Hoje tem espetáculo?
Tem, sim senhor...
Os meninos que vieram das fazendas trazer rapadura e
requeijão para vender olham com inveja os moleques da cidade que acompanham o palhaço e
entrarão de graça no circo." |
Também num livrinho maranhense, Por onde Deus não andou,
de Godofredo Viana (Rio de Janeiro, José Olímpio, 1946), encontro, à página 225, esta
referência, coincidente, até certo ponto, com a de Jubiabá. Vejam:
"No dia seguinte, em em regozijo pela merecida eleição do benemérito senhor
intendente para o Congresso Estadual, e oferecido à "culta sociedade codoense"
como diziam os cartazes, houve função de gala no circo Vitória, armado no seu grande
toldo de lona, para os lados da Água Fria. Anunciando-a, um palhaço de segunda ordem da
companhia (a cara pintada de alvaiade e pós de sapatos, virada para a anca do burro lerdo
e magro, em cujo lombo se escanchara, e que um molecote ia puxando, importante, pelo
cabresto), esteve a percorrer as ruas da cidade, metido em longas e fofas amareias,
debruadas de preto, a gritar:

Hoje tem espetáculo?
Ao que um séquito imenso de garotos respondia, em coro:
Tem, sim sinhô!
Às oito horas da noite?
Tem, sim sinhô!
O palhaço o que é?
É ladrão de muié!
E, mais adiante:
Olha a negra na janela...
Tem a cara de panela!
Tecos, terecos, tecos...
Maravilha!
Quem pelou a mãe?
Foi a filha...
Todo o mundo corria a ver o palhaço.
Olha a negra no portão...
Tem cara de tição!
Parava o burro, fazia caretas e trejeitos:
Inzora, inzora, acabou-se a história!
Bravos o palhaço que já vai simbora!"
Esses versos, ouvidos no sul ou no norte do
país, são mais ou menos os mesmos que por aqui se entoavam nos pregões circenses.
Meu prezado amigo Aldércio Aquino (que, diga-se como ressalva, não acompanhou, em
menino, os palhaços de circo...) forneceu-me ótimo e vivo material referente a essas
versalhadas brejeiras. Não me seria possível dá-las aqui sem espichar de muito estes
rabiscos.
O leitor, curioso, que espere até domingo... |