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Dezembro 2001
Ano IV - nº 40

SÃO LÁZARO

Entre as inúmeras lendas bíblicas, sem dúvida uma das mais estupefacientes é a de São Lázaro, - o mártir.

E por quê?

Toda realização que vai de encontro às leis naturais é milagre. E o que a tradição registrou sobre Cristo e Lázaro excede a graça, alcança o sobrenatural, daí ser miraculoso o feito de Cristo ressuscitando Lázaro.

Conta-nos o Evangelho que Lázaro era irmão de Marta e Maria, residindo a família em Betânia, próximo de Jerusalém.

Doente de mal da pele, corre na região a notícia da morte de Lázaro, amigo de Jesus.

Nessa ocasião, Jesus, acompanhado dos apóstolos, pregava ao povo às margens do rio Jordão.

Ao ter notícia da morte do amigo, Jesus desloca-se, com os apóstolos, para Betânia. Viagem demorada fez com que Jesus e os discípulos só lá chegassem quatro dias após Lázaro ser sepultado, estando o corpo em franca decomposição.

Conta São João (Evangelho XI e XII, II) que, ao chegar a Betânia, Jesus, sempre acompanhado dos apóstolos e de enorme massa popular, dirige-se ao túmulo de Lázaro e, diante de todos, inclusive de Marta e Maria, mandou abrir a laje e, em voz forte e segura, ordenou: "Lázaro, levanta-te e caminha".

Diz a lenda que Lázaro se levantou da catacumba e, ainda envolto nas faixas mortuárias, o rosto coberto com o véu funerário, caminhou.

Grande milagre o da ressurreição de Lázaro, concorrendo para engrandecer mais ainda a figura de Jesus, mas acendendo maiores ódios nos fariseus.

A lenda movimenta-se. Registra Lázaro, mais tarde, residindo na Provença com as duas irmãs. Lá está em Marselha, em veneração, a cabeça de São Lázaro, santificado como verdadeiro mártir, ele que chegou a primeiro bispo da cidade.

Da análise dessas duas passagens da lenda parece haver confusão de nomes. Talvez duas criaturas sofrendo do mesmo mal, recebendo a segunda, por semelhança, o mesmo nome da primeira e, por extensão, dado o nome de Lázaro a todo portador da moléstia maldita.

Há também, no Novo Testamento (Lucas, XVI, 19-31), a parábola "Jesus, o homem rico e pobre". Sempre o antagonismo das classes, neste caso, financeiro.

Conta a parábola: Um nababo esbanjava o dinheiro em luxo e banquetes. Enquanto isso, um pobre infeliz, coberto de chagas, - Lázaro, impedido de apanhar as migalhas dos festins, é enxotado por todos, que se repugnam do aspecto deplorável da figura chaguenta. Só os cães dele se aproximam, lambendo-lhe as feridas. (Daí a crença popular de que qualquer ferida, lambida por um cão, fecha sem mais remédio).

A morte, porém, pôs termo aos males do infeliz. Afirma a lenda evangélica que recebeu compensação, a alma subiu aos céus, ao seio de Abraão, aos páramos de Deus.

Os tesouros do nababo não impediam que ele morresse e descesse ao inferno.

De lá, registra textualmente a parábola, teria o rico, abraçado pelo fogo do inferno, rogado:

- Abraão, tende piedade de mim, manda que Lázaro com a ponta do seu dedo molhe a minha língua, porque sofro terrivelmente no meio destas chamas.

Teria respondido Abraão:

- Meu filho, lembra-te que tu recebeste bens na outra vida, ao passo que Lázaro só teve males; agora está a gozar a felicidade que o consola e tu estás nesses tormentos.

Além de que há sempre um grande abismo entre ti e nós: os que quiserem ir daqui para aí não podem, assim como não podem vir daí para aqui.

E a réplica do rico não tardou:

- Ao menos suplico-te, Pai Abraão, que mandes à casa de meu pai, onde tenho cinco irmãos, para avisá-los. Tenho medo que venham cair neste lugar tremendo.

Abraão sentenciou:

- Eles tem Moisés e os profetas que os seguem.

- Não os ouvem, porém, Pai Abraão, mas se algum dos mortos fosse ter com eles, fariam penitência.

Abraão concluiu:

- Pois se eles não ouvem Moisés nem os profetas, como hão de crer em um morto que ressuscita para ensiná-los?

Tudo isso, por incrível que pareça, está registrado nos Evangelhos e é relembrado pela passagem do dia consagrado a São Lázaro, - o mártir, 17 de dezembro, data que desperta em todos nós profunda piedade pelos portadores da morféia, lepra ou mal de Hansen.

De longa data é a preocupação de prestar auxílio aos lázaros.

A mais antiga ordem, que se conhece foi a Ordem de São Lázaro de Jerusalém, fundada nessa cidade, em 1120, pelos cruzados.

Mas deve-se a São Vicente de Paula, desde 1632, a tarefa de preparar padres para cuidar dos lázaros, daí ficarem conhecidos como lazaristas.

A lepra já existia no Egito e nas Índias 1.500 anos antes de Cristo, sendo também conhecida pelos gregos e árabes.

A doença terrível propagou-se rapidamente, embora combatida, por todo o mundo.

Apesar disso, alcançou a Lusitânia, assim como toda a Europa.

Está provado que os nossos índios não conheciam a lepra antes do descobrimento.

O contágio deu-se depois da entrada dos europeus em terra dos brasis: portugueses colonizadores, franceses e holandeses invasores, espanhóis dominadores, que receberam de povos mais antigos a herança maldita dessa enfermidade.

A estatística demonstra que a percentagem de negros entrados no Brasil, portadores de lepra, era mínima, e é fácil compreender a razão: o que se exigia inicialmente do negro escravo era saúde e bom aspecto.

A obrigação de amparar os lázaros surgiu bem cedo no Brasil.

Desde 1697 que se procurou fundar um hospital para lázaros na igreja da Conceição. Vários obstáculos surgiram na época.

Gomes Freire de Andrade, - conde de Bobadela, - operoso vice-rei, em 1741 mandou recolher os leprosos da cidade a umas casinhas isoladas lá pelos lados de São Cristóvão, naquele tempo quase desabitado. Essas casinhas ficavam próximas do mar, enquanto que todo o trânsito era feito pela ladeira do Barro Vermelho, hoje rua Fonseca Teles. A manutenção desses lázaros era suprida pelo próprio conde de Bobadela.

Morto o conde, depois de várias tentativas, coube ao bispo dom Antônio do Desterro conseguir que a Irmandade da Candelária assumisse a administração do asilo de leprosos, devendo a dita irmandade fazer o necessário aumento nas instalações.

Depois de algumas delongas, foi, finalmente, no governo do conde da Cunha, em 1765, por ordem de dom José I, entregue a Casa dos Jesuítas de São Cristóvão e adaptada a Hospital dos Lázaros.

Não comportaria, nesta coletânea de notas folclóricas cariocas, fazer a história dessa benemérita instituição, que por longos anos vem acolhendo os doentes do terrível mal.

A tristeza daquele edifício de dores e lágrimas sé se altera uma vez por ano, - a 17 de dezembro, quando, depois da missa solene, as meninas órfãs do Asilo Gonçalves de Araújo, do Campo de São Cristóvão, fazem farta distribuição de pão-de-ló aos doentes.

Hoje, o velho hospital, transformado em uma instituição moderníssima, tem a encimar-lhe o portão da entrada o nome benemérito de frei Antônio, que, à frente dos serviços para ali levou enfermeiros do Donato de Santo Antônio. Há anos que foram substituídos por irmãs de caridade, que prosseguem a obra caridosa de assistência a tão infeliz doentes.

Já não me quero referir ao Brasil, mas ao Rio apenas, onde já temos vários leprosários, infelizmente poucos, para abrigar os inúmeros doentes que vivem, pelas ruas da cidade, em contato com a sociedade.

A ciência afirma que, em certa fase de desenvolvimento da moléstia, o contágio é nulo, mas ninguém esquece o aviso de Cristo: "Levanta-te; nesta pedra, há cem anos, sentou um lázaro".

Os portadores de lepra, descrentes da eficácia dos remédios para uma cura completa, lançam mão de superstições tremendas.

Crêem que, mordendo a face de sete pessoas sãs, o doente fica bom.

Muitas têm sido as incursões de grupos desses doentes pelas cidades do interior próximas aos núcleos de leprosos, atacando os transeuntes, invadindo casas em encontros terríveis, para que possam realizar a nefanda tarefa.

Nesses momentos, são de uma crueldade incrível.

Que logo a ciência médica, orientada pela graça divina, possa livrar a humanidade de tão hedionda enfermidade.

[1956]

(Lira, Mariza. Calendário folclórico do Distrito Federal. p. 409)

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