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Dezembro 2001
Ano IV - nº 40

A DEUSA DOS CEGOS

20 de março de 1846 - Vagueando pela manhã, cheguei sem saber como à praia ou à rua de Santa Luzia - uma rua sem casas, mas não sem uma igreja, dedicada a esta santa. Santa Luzia é padroeira dos cegos e muito célebre por conseguir aquele alivio para o qual recorremos aos oculistas e aos serviços de oftalmologia.

Atravessando a porta aberta, não encontrei ninguém no interior. Bacias de mármore em forma de concha para água benta são construídas na parede, de ambos os lados da porta, e ao seu lado vêem-se caixas de esmolas. Além de Luzia, apenas dois outros santos têm altares neste templo. Na parede direita fica São João; do lado oposto Nossa Senhora dos Navegantes, que se ergue sobre o convés de um navio com o costado voltado para os espectadores. Uma caixa fortemente presa, fechada por dois cadeados, com sua reprodução na frente e uma fenda ao alto, pende da parede ao lado da estátua, lembrando aos marinheiros que, embora a santa lhes conceda favores, espera também o reconhecimento na forma de vinténs e mil-réis.

Na extremidade mais distante, Santa Luzia está em pé, em tamanho natural, segurando dois globos oculares num prato ou pires. Ao lado do corrimão do altar, existem quatro candelabros de madeira dourada, cada um deles de um metro e oitenta de altura, em cuja base triangular há um desenho de olhos, além de um par deles colossal na cortina, perto da porta da frente, muito semelhante ao anúncio de oculistas. Mas por que as igrejas não exibiriam os símbolos das boas coisas em que negociam, da mesma forma que os leigos, se grande parte de seus fregueses não podem ler outra espécie de escrita? (Os coletores de esmolas para Santa Luzia levam consigo um olho de prata para os contribuintes beijarem.)

Em um canto, fica o belo púlpito móvel, um daqueles púlpitos aparentemente modelados por copos de mesa - gigantescas taças com originais colunas e bases. São muito leves e pitorescos em sua aparência, mas em vista das desigualdades do soalho não devem ser muito firmes. De fato, nunca consegui resistir à idéia de que um orador cheio de gestos poderia, num paroxismo de ardor, arremessar-se tanto para a frente que encerraria seu discurso com uma peroração capaz de evitar ao sacristão o trabalho de trazer a escada portátil para que ele descesse.

Uma velha brincadeira de crianças é quebrar a ponta de uma ervilha preta e virar o pedaço para baixo, de maneira a representar o capuz de um monge, enquanto a parte exposta da ervilha representa sua coroa raspada. Colocando-se um desses pregadores liiputianos num gordo copo de vinho, não se teria má representação de um frade em um daqueles púlpitos móveis.

Uma escrava chegou até a porta, retirou da cabeça a grande cesta que trazia, aspergiu-se e fez o sinal-da-cruz, lançando-se de joelhos a meio metro do ponto onde eu me encontrava. Com os olhos voltados para Luzia, murmurou seus desejos ou seus agradecimentos, levantou-se, colocou seu pequeno óbolo na caixa de esmolas, fez outra reverência à santa e partiu. Pobre criatura! Sente-se aliviada por descarregar seus sofrimentos diante da imagem daquela que, segundo me contaram tem o poder de mitigá-lo. Sinto-me quase disposto a reverenciar uma superstição que pode assim acalmar os sofrimentos dos desolados e reconciliá-los com uma existência sem alegrias. Talvez tivesse não os seus próprios votos, mas os de outras pessoas: alguma mãe, irmão ou amigo que sofresse dos olhos. Seja qual for a causa, a cegueira é muito comum entre os escravos. É lamentável encontrar com tanta freqüência um ou mais deles, levando barris cheios na cabeça, girando os globos oculares inúteis e tacteando o caminho com seu bordões.

Já me encontro há meia hora no local e, a não ser a escrava, nenhuma alma apareceu para quebrar o silêncio que reina no interior; o mesmo aconteceria lá fora, não fosse a ressaca. Viam-se ali duas portas laterais, uma das quais entreaberta. Que mal haveria em entrar pela porta e examinar o que houvesse dentro? Assim raciocinei e assim agi. A porta da esquerda abria para um corredor, em que se viam diversas placas votivas. Apenas duas delas traziam pintado um par de olhos. Passei em seguida pela outra porta. Empurrando-a delicadamente, abri-a e um par de olhos, perto do soalho, voltou-se para mim, erguendo-se no momento seguinte uma cabeça viva: a do sacristão. Ali estivera sentado sobre o soalho, durante toda a manhã, com as costas descansando na parede, consertando arreios de mulas, dos quais havia a seu lado nada menos de duas carradas. Soube mais tarde que era sapateiro de profissão e tinha uma família que precisava de sua sovela para poder viver.

Tive alguma dificuldade em fazê-lo compreender o meu desejo de saber alguma coisa a respeito de uma santa que curava olhos enfermos. Assim, porém, que percebeu minha idéia, levou-me para diante do altar. Fechando ambos os olhos, inclinou a cabeça sobre o ombro, gemeu, ergueu as mãos suplicantes para Luzia, imobilizou-se por um momento, abriu lentamente o canto de um dos olhos, em seguida do outro e gradualmente revelou o globo inteiro de ambos. Olhou fixamente para cima, para baixo e ao redor, com bem fingido espanto, bateu as mãos de alegria e ajoelhando-se, ergueu-as em sinal de gratidão para a Santa. Levantou-se então e voltou-se sorrindo para mim. Exclamei: "Bom! Muito bom!" E era de fato; fora magistralmente executado. Nada poderia mostrar melhor quão pouca coisa exterior é necessário à verdadeira eloqüência, para auxiliá-la a se manifestar, pois o sacristão não tinha colarinho, colete ou paletó nem sapatos ou meias.

Para ilustrar ainda mais o assunto, dirigiu-se ao local onde estavam as placas e referiu-se a elas como prova do poder da santa. Mencionei a sacristia e ele abriu uma porta no fim do corredor, introduzindo-me num quarto por trás do altar. Havia ali um grande sortimento de artigos de sacristia - um armário gigantesco de madeira, com mais de seis metros de comprimento, preto como ébano, contendo os pratos, as roupas e os enfeites das imagens. Suas peças de bronze podiam ser exibidas como antigüidades de Pompéia, tão semelhantes eram os puxadores e as fechaduras de iguais objetos lá encontrados. Nas paredes, penduravam-se junto com olhos votivos, outros membros do corpo humano, prova de que a santa padroeira não limitava sua prática a uma classe de enfermidades. Havia ali cabeças, braços, mãos, pés, e um retrato de meio corpo em alto-relevo, tudo de cera. Pareciam ser muito velhos, pois sua cor era algo entre a cor do soalho e a do armário. Não tinham quaisquer notas explicativas, devendo contar por si próprios sua história e, com uma única exceção, pouca coisa era possível descobrir. O retrato de meio corpo fora colorido para representar o miserável estado do infeliz original, antes de ser curado pela santa: um lado de seu rosto estava purpúreo com o olho destruído, sendo o lugar deste assinalado por uma horrível massa de matéria preta e lívida.

Pelas cabeças não era possível dizer de que se queixavam seus donos, nem se as enfermidades existiam dentro ou fora delas; havia cabeças queimadas e quebradas, cabeças fracas ou transtornadas. Os contornos estavam desfigurados e quase apagados. Se não fosse quase certo resultar o estrago do calor e da idade, seria possível acreditar que os originais houvessem pertencido a lutadores. Dos outros ornamentos murais, o mais característico era um velho quadro de um navio em perigo, salvo por Nossa Senhora dos Navegantes.

O artista reiniciou então seu trabalho com tiras e almofadas de couro e eu saí a procurar outras novidades. Dois marinheiros aqueciam-se ao sol, estendidos de comprido nos degraus exteriores e observando os navios que se moviam na baía. Se sua visita era de devoção à deusa dos marinheiros - não sendo provável que qualquer outra coisa os trouxesse a lugar tão solitário e tão distante do porto - os dois marítimos poderiam fazer lembrar os marinheiros de Sidon ou Cartago, vadiando diante dos templos de Netuno, após renderem-lhe graças por uma viagem bem sucedida.


(Ewbank, Thomas. A vida no Brasil, p.130-141)

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