Dezembro
2001
Ano IV - nº 40 |
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É mais uma vez Natal! Estamos a celebrar o
nascimento de Jesus Cristo que, neste ano oficialmente comemoraria o seu
2001º natalício. Bem verdade que o 25 de dezembro é simbólico, pois foi nesta data
fixada pelo Papa Júlio I, no século IV, para se festejar o nascimento do Filho de Deus
feito Homem, fazendo substituir a então romana festa pagã do solstício, consagrada ao
sol.
Entre nós, cristãos, o Natal se reveste de um significado especial porque, a título de
exame de consciência, faz o homem sentir-se mais humano, vivenciando mais intensamente o
mandamento novo do Messias: "que vos ameis uns aos outros. Como eu vos tenho amado,
amai-vos assim também vós mutuamente". Jó, 13,34.
Por ser uma festa universal, o Natal caracteriza uma época, dando-lhe identidade
própria. É o chamado ciclo natalino. Este ciclo engloba expressões diversas da
cultura brasileira, em especial a nordestina, destacando-se entre outras manifestações
folclóricas, a lapinha, o pastoril, o bumba-meu-boi, o fandango, as folias de reis.
Natal é uma festa de confraternização, de amor. Também é uma grande festa de alegria,
de luzes de cores. O presépio, o Papai Noel, a árvore de natal, têm destaque entre os
símbolos natalinos de todo o mundo. A troca de presentes e os votos de boas festas
através de mensagens diversas são, igualmente, costumes universais. Estes elementos,
tão diversificados em suas origens, foram incluídos nos festejos da época, através de
um contínuo processo de aculturação, de tal forma que, hoje é quase impossível se
conceber o natal sem Papai Noel, por exemplo.
O presépio corresponde à representação da cena de adoração do Menino-Jesus na gruta
de Belém. Jesus, Nossa Senhora e São José são figuras humanas obrigatórias. Entre os
animais, o burro e o boi. Podendo ainda figurar os três Reis Magos, pastores, anjos,
ovelhas e outros bichos. Em geral, estas peças são confeccionadas em barro, madeira,
gesso, palha ou outro material, através do artesanato ou industrialmente. E vão
ornamentar igrejas, residências, locais de trabalho e vias públicas durante as
comemorações natalinas. A criação do presépio é atribuída a São Francisco de Assis
que, em 1223, teria armado a primeira lapinha. No Brasil, já no século XVI, foi o
presépio trazido pelos jesuítas, no início do período colonial, difundindo-se, a
partir de então, o costume de se representar a adoração do Deus-Menino.
O Papai Noel é um elemento relativamente novo nas comemorações natalinas, da
maneira especial no Brasil. Foi introduzido no início deste século, tornando-se mais
conhecido a partir de 1930, como figura formal e de iniciativa oficial. Atualmente deve
sua popularidade, em particular e de modo significado, à publicidade para fins comerciais
de que tem sido alvo. Na Europa, sua origem se confunde com as lendas de São Nicolau.
Segundo a tradição, a cada fim-de-ano, o bom velhinho deixa o Pólo Norte num trenó
puxado por renas douradas, numa velocidade do pensamento, carregando um grande saco
cheinho de brinquedos, embora sem condições de presentear as crianças do mundo inteiro
afinal não possui varinha de condão... Sua imagem, conhecida em quase todos os
recantos da Terra, através dos modernos meios de comunicação, corresponde a um velhinho
gorducho, de barbas brancas, que usa roupas vermelhas e longas botas pretas. É
ansiosamente esperado pelas crianças que aguardam receber dele seus presentes de natal,
alguns, inclusive, pedidos por meio de cartinhas e bilhetes endereçados ao Papai Noel.
A árvore de natal é, principalmente, um elemento decorativo que, através do
colorido de bolas, velas e luzes empresta um ar mais festivo à alegria das comemorações
natalinas. Entre nós, é um hábito deste século. Segundo Luís Câmara Cascudo, a
primeira árvore de natal foi armada na capital do Rio Grande do Norte Natal
em 1909. Desde então, tornou-se cada vez mais comum, sua presença nas festas de
fim-de-ano. A introdução da árvore de Natal nas festividades do nascimento de Jesus
deveu-se a São Vilfrido que, segundo a tradição, indicou o abeto ou pinheiro como
árvore do Menino-Deus, a partir de um fato que, a seus olhos, pareceu milagre. Mandando
cortar um grande carvalho, o qual teve seu tronco atingido por um raio que o partiu em
pedaços, ficando ileso um pequeno abeto, plantado a seu lado e que foi considerado, pelo
santo, como símbolo de paz e de inocência. O uso do pinheiro foi largamente difundido na
Alemanha antiga, de onde surgiu o costume de iluminá-lo. Conta-se que Lutero, usando
velinhas multicoloridas, fazia lembrar, na árvore de natal, o céu estrelado do qual
descia o Menino-Jesus para abençoar as crianças.
Como festa de confraternização universal, sobressaem no Natal, a troca de mensagens e de
presentes. Embora de caráter acentuadamente comercial, esta manifestação do ciclo
natalino, merece incentivo e louvor, enquanto motivação a uma melhor e mais intensa
comunicação e fraternidade entre as pessoas.
A troca de cartões de boas festas vem sendo muito difundida. Os cartões, em sua
maioria, apresentam como estímulo visual, motivos alheios à realidade brasileira,
constituindo verdadeiras anomalias à nossa tropicalidade. São pinheiros e picos nevados,
renas puxando trenós, chaminés... que nada têm a ver com as paisagens físicas e
culturais do país. Fugindo a esta regra geral, merecem incentivo e divulgação, os
cartões natalinos desenhados pelos xilógrafos Stênio Diniz e Abraão Batista, ambos de
Juazeiro do Norte, Ceará. Inspiram-se em motivos bem nossos: a Sagrada Família é uma
família de retirantes nordestinos; a árvore de natal e suas bolas multicores são
substituídas por cajueiros e cajus; o sol tropical e a vegetação de cactos compõem a
paisagem desses cartões, efetivamente, bem mais representativos da cultura nacional.
A troca de presentes tornou-se um costume natalino universal, a partir do século
XV quando, na Inglaterra, ficou estabelecida a noite de 24 de dezembro para se dar e
receber presentes. A prática do amigo secreto ou amigo oculto é cada vez
mais difundida no Natal brasileiro seja em família ou entre colegas de estudo ou
de trabalho. A brincadeira se constitui na troca de presentes através de um sorteio,
prévio e sigiloso entre os participantes que curtem a expectativa do presente e a
descoberta e identificação do amigo secreto.
Estes são alguns elementos característicos do natal de nossos dias. Natal comemorado
festivamente, com muitas luzes, árvores de natal e bolas coloridas. Natal de Papai Noel,
de mensagens de boas festas, de trocas de presentes. Natal de propaganda. Mas, Natal é, e
acima de tudo, festa de confraternização, de amor e de paz. Feliz natal!
Colaboração da autora para a Jangada Brasil
(Linhares, Thelma Regina Siqueira. "Natal". Fundação Joaquim Nabuco de
Pesquisas Sociais; Centro de Estudos Folclóricos. Folclore, 117, dezembro de 1981)
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