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Dezembro 2001
Ano IV - nº 40

PORTO ALEGRE EM 1821

Porto Alegre, 21 de julho de 1821
Porto Alegre, capital da capitania do Rio Grande do Sul, residência do general e do ouvidor, fica situada em agradável posição sobre uma pequena península formada por uma colina que se projeta de norte a sudoeste sobre a lagoa dos Patos. Este lago, medindo 60 léguas de comprimento, tem, em suas origens, os nomes de lagoa de Viamão ou lagoa de Porto Alegre. Ele se estende na direção norte-sul da costa, suas águas têm uma correnteza sensível e são geralmente doces em uma extensão de 30 léguas. É formado por quatro rios navegáveis que reunem suas águas em frente a Porto Alegre e que divididos em sua embocadura em um grande número de braços formam um labirinto de ilhas. Três desses rios, o Gravataí, que é o mais oriental, o rio dos Sinos e o rio Caí, vêm do norte, nascendo na Serra Geral e têm pequeno curso. O quarto rio, que se chama Jacuí ou Guaíba é mais importante que os outros. Vindo do oeste recebe em seu curso diversos afluentes.

A cidade de Porto Alegre dispõe-se em anfiteatro sobre um dos lados da colina de que falei, voltado para noroeste. Ela se compõe de três longas ruas principais que começam um pouco aquém da península, no continente, por assim dizer, estendendo-se em todo o comprimento paralelamente ao lago, sendo atravessada por outras ruas muito mais curtas, traçadas sobre a encosta da colina. Várias dessas ruas transversais são calçadas, outras somente em parte, porém todas muito mal pavimentadas. Na chamada rua da Praia, que é a mais próxima do lago, existe diante de cada grupo de casas um passeio constituído por largas pedras chatas em frente do qual são colocados, de distância em distância, marcos estreitos e altos.

As casas de Porto Alegre são cobertas de telhas, caiadas na frente, construídas em tijolo sobre alicerces de pedra; são bem conservadas. A maior parte possui sacadas. São em geral maiores que as das outras cidades do interior do Brasil e um grande número delas possui um andar além do térreo, e algumas têm mesmo dois.

A rua da Praia, que é a única comercial, é extremamente movimentada. Nela se encontram numerosas pessoas a pé e a cavalo, marinheiros e muitos negros carregando volumes diversos. É dotada de lojas muito bem instaladas, de vendas bem sortidas e de oficinas de diversas profissões. Quase na metade desta rua existe um grande cais dirigido para o lago, e ao qual se vai por uma ponte de madeira de cerca de cem passos de comprimento, guarnecida de parapeito e mantida sobre pilares de alvenaria. As mercadorias que aí se descarregam são recebidas na extremidade dessa ponte, sob um armazém de 23 passos de largura por 30 de comprimento, construído sobre oito pilastras de pedra em que se apoiam outras de madeira. A vista desses cais seria de lindo efeito pata a cidade se não houvesse sido prejudicada pela construção de um edifício pesado e feio, à entrada da ponte, de quarenta passos de comprimento, destinado à alfândega.

Uma das três grandes ruas, chamada rua da Igreja, estende-se sobre a crista da colina. É aí que ficam os três principais edifícios da cidade, o Palácio, a Igreja Paroquial e o Palácio da Justiça. São construídos alinhados e voltados para noroeste. Na outra face da rua, em frente, não existem edifícios, mas tão somente um muro de arrimo, a fim de que não seja prejudicada a linda vista daí descortinável. Abaixo desse muro, sobre o declive da colina, existe uma praça, infelizmente muito irregular, cujo aterro é mantido por pedras soltas sobre o solo, formando tabuleiros dispostos em losango.

Para além da rua da Igreja, do Palácio, dos edifícios vizinhos dessa praça e das casas existentes mais abaixo avista-se o lago, que aparenta ter a mesma largura do Loire em Orleans, circundado de ilhas baixas e cobertas de vegetação pouco crescida. Entre essas ilhas vêem-se serpentear os braços dos quatro rios supra citados, sendo impossível determinar com exatidão a que rio pertencem porque antes de chegar ao lago eles se cruzam e se confundem. As águas que se vêem na direção do rio Gravataí, na extremidade mais oriental do lago, aí chegam descrevendo uma grande curva, apresentando-se como se fossem um belo rio distinto dos demais. Um pouco ao norte outras águas formam uma larga bacia, compreendida entre duas faixas de terra, que ambas, se curvam em semi-círculo deixando em sua extremidade apenas uma estreita abertura. Alguns trechos dos rios mostram-se por trás das ilhas, resultando num conjunto agradável essa mistura de águas e terras. Para completar este quadro acrescentarei que o horizonte é limitado pelos cumes da Serra Geral, a qual tendo sua direção no quadrante de este para norte some-se a perder de vista.

Querendo gozar uma vista de aspecto diferente, mas também cheia de encantos, basta, logo que se chega ao alto da cidade, na rua da Igreja, voltar-se para o lado oposto àquele que acabo de descrever. A parte do lago que banha a península do lado sudoeste forma uma grande enseada de contorno semi-elíptico, de águas ordinariamente tranqüilas. Um vale, largo e pouco profundo, confina a parte longínqua da enseada. Nas margens o conde de Figueira mandou plantar, recentemente, uma grande área de figueiras selvagens, que futuramente constituirá aprazível ponto para passeios. Além o terreno acha-se coberto de árvores e mormente de arbustos. Vêem-se aqui e ali casas de campos. Mais além, enfim, estendem-se vastos gramados semeados de espinheiros, grupos de árvores e fileiras de arbustos copados que desenham os contornos irregulares de um grande número de sebes. O lago estende-se obliquamente para o sul, orlado de colinas pouco elevadas. No horizonte ele confunde-se com as nuvens e ao longe avista-se um rochedo esbranquiçado, surgindo do meio de suas águas. A paisagem do lado noroeste é mais alegre e mais animada do que esta, cuja calma parece convidar ao sonho.

Os edifícios existentes no cume da colina não oferecem beleza independente da situação. Pode-se mesmo afirmar que eles não estão em relação com a importância da cidade e a riqueza da Capitania.

O Palácio do Governador não passa de uma casa comum, de um andar e nove sacadas na frente. Mal dividido internamente, não possui uma só peça onde se possa reunir uma sociedade numerosa como a de Porto Alegre. O Palácio da Justiça é muito mais mesquinho ainda, térreo. A igreja paroquial, cujo acesso se faz por uma escada, tem duas torres desiguais; é clara, bem ornamentada e tem dois altares além dos que acompanham a capela-mor. Entretanto é muito pequena pois, segundo medi, conta apenas quarenta passos da capela-mor à porta.

Muito menos importantes são os outros edifícios públicos de Porto Alegre. Além da igreja paroquial existem mais duas outras ainda não terminadas. Numa, contudo, já celebram missa, enquanto a outra, ainda não coberta, tem sua construção paralizada. A sede da Câmara não passa de uma casinha térrea, onde dificilmente se instalaria um particular medianamente abastado. Aqui a cadeia não faz parte da casa da Câmara, existindo duas muito pequenas, situadas à entrada da cidade.

Na extremidade da rua da Praia existem dois prédios, vizinhos, servindo de armazém para a marinha, de depósito de armas, e onde se instalou, para as necessidades das tropas, oficina de armeiro, seleiro e carreiro. Causou-me admiração a ordem, o arranjo, diga-se mesmo - a elegância, reinante na sala destinada às armas de reserva.

Do lado do lago, onde esses prédios têm a fachada, cada um apresenta uma espécie de apartamento alongado, de rés-do-chão, na extremidade do qual há um pavilhão de um andar. Entre os dois edifícios há um espaço considerável, correspondendo, em um plano mais elevado, à Igreja das Dores, uma das duas retro citadas. Em frente da igreja, além dos armazéns e portanto próximo ao lago, vê-se uma coluna encabeçada por um globo, indicando que a cidade é a sede de uma comarca. Diante dela construiu-se um dique de pedra destinado a servir de cais para os dois armazéns. Esse conjunto teria um belo efeito se a igreja estivesse pronta, se o terreno existente entre ela e os dois armazéns tivesse sido nivelado, e se estes, embora construídos sob a mesma planta, não apresentassem diferenças tão chocantes.

Fora da cidade, sobre um dos pontos mais altos da colina onde ela se desenvolve, iniciou-se a construção de um hospital cujas proporções são tamanhas que talvez não seja terminado tão cedo. Mas sua posição foi escolhida com rara felicidade, ficando perfeitamente arejado, bastante distanciado da cidade para evitar contágios e ao mesmo tempo próximo quanto às facilidades de suprimento médico e farmacêutico.

Embora construída somente no lado noroeste da colina a cidade possui várias casas no lado oposto, esparsas e desalinhadas, entremeadas de terrenos baldios, pequenas e mal construídas, quase todas habitadas pela população pobre.

Após minha chegada já contei cerca de 20 a 30 embarcações no porto, e, segundo me informaram é freqüente esse número elevar-se a cinqüenta. O porto dá calado para sumacas, brigues e galeras de três mastros.

Demorando-se sobre a margem de um lago que se estende até ao mar, podendo ao mesmo tempo comunicar-se com o interior por meio de vários rios navegáveis, cujas embocaduras ficam diante de seu porto, Porto Alegre está fadada a se tomar rica e florescente em futuro muito próximo. Esta cidade, fundada há cinqüenta anos, mais ou menos, conta já uma população de 10 a 12 mil almas e alguém aí residente há 17 anos informa-me que sua população aumentou nesse lapso de tempo em mais dois terços. Pode ser considerada como principal empório da capitania e mormente da zona nordeste do Estado.

Os negociantes adquirem quase todas as mercadorias no Rio de Janeiro e as distribuem nos arredores da cidade. Em troca exportam principalmente couros, trigo e carne-seca; é também de Porto Alegre que saem todas as conservas expedidas da província.

O rápido aumento da população fez com que os terrenos se tornassem mais valorizados aqui que nas cidades do interior. Poucas casas possuem jardim e muitas não tem mesmo pátio, redundando isso no grave inconveniente de serem atiradas à rua todas as imundícies, tornando-as de uma extrema sujeira. As encruzilhadas, os terrenos baldios e principalmente as margens do lago são entulhadas de lixo. Apesar de ser o lago o único manancial de água potável, utilizado pela população, consentem que nele se faça o despejo das residências.

Sobre os habitantes de Porto Alegre disse já quanto se refere à cor da tez, compleição e índole dos homens e das mulheres. Devo agora acrescentar que se não há aqui tanta vida social como nas cidades européias não resta dúvida haver muito mais que nas outras cidades do Brasil. São freqüentes as reuniões nas residências para saraus musicais, tocando algumas senhoras, com mestria, o bandolim e o piano, instrumento este em geral desconhecido no interior devido às dificuldades de seu transporte.

É na rua da Praia, próximo ao cais, que fica o mercado. Nele vendem-se laranjas, amendoim, carne-seca, molhos de lenha e de hortaliças, principalmente de couve. Como no Rio de Janeiro os vendedores são negros. Muitos comerciam acocorados junto à mercadoria à venda, outros possuem barracas, dispostas desordenadamente no pátio do mercado. Vêem-se também aqui trapeiros pelas ruas. Atualmente vendem muito o fruto da araucária, a que chamam pinhão, nome semelhante ao das sementes de pinheiro na Europa. Usam-no cozido ou ligeiramente assado, ao chá, ou entre as refeições, sendo freqüente obsequiar com ele os amigos.


(Saint-Hilaire, Auguste de. Viagem ao Rio Grande do Sul, 1820-1821)

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