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Dezembro 2001
Ano IV - nº 40

BURRO PANELEIRO

A expressão burro paneleiro era muito usada na época em que a louça de barro tinha comércio certo, sendo tida em alta conta por seus préstimos utilíssimos. No tempo em que as peças de louça cabioca e vidrada eram vendidas separadamente ou por talhas e meias talhas (curiosa maneira de calcular sumida com o progresso).

A talha, no caso presente, não era o utensílio. Era uma medida que tomava por base um certo número de tentos. O tento era uma medida simbólica do diâmetro da vasilha, calculada a olho, sem quaisquer implicações aritméticas. Uma talha possuía 50 tentos representados por número variado de peças heterogêneas, incluindo, conforme a estimativa, quatro ou cinco panelas e figideiras de tamanhos diferentes, moringues grandes e pequenos, um porrão, um cocho, um caboré, um papeiro e um caco para molho.

As talhas com seus tentos perduraram ainda nas feiras do tipo ribeirinho, como a do Sete, Praça Divina, e Água dos Meninos, até que o uso da louça de barro entrou em franca decadência, superada pelo alumínio e o pirex.

A supressão do uso dos objetos de barro nas residências desfalcou a cidade de um dos tipos de vendedores mais interessantes - o homem da louça de barro, o homem do caboré, o homem das panelas ou que nome tomasse. O homem carregava um verdadeiro mundo no balaio que levava à cabeça. Um mundo de peças de barro, identificadas como panelas, moringues, frigideiras, incensadores, copos e quartinhas, alguidares, covilhetes, etc. O balaio dava a impressão de vergar, porém o homem, arvorado inconscientemente a Hércules, não demonstrava sofrer muito com a sua carga. Andava quilômetros a pé, de espinha ereta e passo firme, subindo e descendo ladeiras íngremes sem sinais de exaustão. Sobrava-lhe até energia para fazer notada a sua passagem, mercando em altas vozes, num jeito tão de cançoneta:

Eu tenho panelas
Eu tenho frigideiras
Eu tenho caboré
Pra fazer café.

Fregueses não faltavam, pois a louça de barro tinha largo consumo. A todos ele atendia na medida do possível. Com uma pequena ajuda, abaixava no chão o seu balaio, deixando à vista tudo tão arrumadinho que parecia mentira dizer que nada se quebrava. Peças de louça cabocla um tanto rústicas, moringues e quartinhas, com alguns motivos ornamentais feitos na própria argamassa, de mistura com pratos de Nagé que davam aparência de luxo ao conjunto. Quanto aos potes, talhas e porrões, só mesmo trazidos debaixo de encomenda tal como no caso de filtros e urinóis.

Antes desses vendedores, o que havia era o burro paneleiro. Burro paneleiro que fazia parelha com o burro do aguadeiro ou burro da laranja. Burro que nem sempre era burro. Era um jumento, freqüentemente, um jegue sofredor, guarnecido por uma cangalha de palha, comum aos animais de carga. Sobre a cangalha corriam os suportes dos caçuás de junco trançado. Dentro dos caçuás toda variedade possível de utensílio de barro capaz de ser vendido.

No princípio do dia, o burro caminhava lépido, atendendo às provocações amistosas do seu condutor. Depois a fadiga se fazia sentir, a situação piorava para ele. Os caçuás davam para ficar sem equilíbrio, à medida que iam sendo esvaziados, com um lado mais pesado que o outro, obrigando o pobre animal a verdadeiras acrobacias para manter-se firme.

A salvação do burro paneleiro eram as ruas estreitas por onde passava. Ia costeando pelos muros e casas, cada passada apoiando o caçuá contra a parede numa tentativa de alívio. Se parado, para atender a freguesia, suspendia a corcova e comprimia o corpo contra o apoio encontrado. Quando voltava à posição natural, a carga tornava-se mais leve e menos penosa, possibilitando uns breves momentos de descanso. Sua alegria durava muito pouco, quando seu esforço redundava na queda dos caçuás. O mangual dono das vasilhas descia no seu lombo, terminando a pausa desejada da pior maneira.

Foi o eterno enroscar pelas paredes, a angustiosa procura de repouso, por menor que fosse, que se tornou característica destes animais. O povo antigo, que tudo observava e aplicava, deu para apelidar de burro paneleiro às pessoas encabuladas, desacostumadas a andar pelas ruas de forma desinibida, gente que não entrava pelas paredes porque Deus não era servido. Burro paneleiro eram os preguiçosos que se mostravam incapazes de aguentar o próprio corpo, vivendo a se escorar em tudo o que estivesse por perto. Também passou a ser designativo de pessoa de andar sem firmeza, pesadona e um tanto lenta.

A expressão sumiu, como está sumindo o verbo mercar. Tudo tem seu tempo. O burro paneleiro era do tempo em que se usavam louça de barro e fogões de carvão ou lenha.


(Viana, Hildegardes. A Bahia já foi assim – crônicas de costumes, p.102-104)

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