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Dezembro 2001
Ano IV - nº 40

DO FUMO

Nicotiana tabacum L. (Pentandria Monogynia) da família das salanáceas (gênero Nocotiana). Se bem que não proporcione aos homens serviço algum necessário, assim mesmo tem se tornado tão indispensável ao capricho e ociosidade, que talvez não haja outro vegetal cujo uso esteja tão geralmente espalhado entre todas as nações. O negro nos areais adustos do seu clima ardente e o lapônio sepultado no chão debaixo de outeiros de neve não podem passar sem o fumo. Os japões, os chinas, os árabes e os indianos fazem uso diário do fumo, que merece igual estima dos selvagens, nos matos virgens da América, e dos povos da Europa nas suas cidades e palácios.

O fumo é originário da América, e os selvagens ensinaram aos povos civilizados o seu uso. O célebre marinheiro inglês Drack
[1], que conquistou a Virgínia, foi o primeiro que o transportou à Europa, onde já se naturalizou, de forma que nasce ali espontaneamente.

O fumo do Brasil gozou e ainda goza de grande fama, e tem sido uma das fontes principais da sua riqueza. Sem dúvida, a gratidão dos serviços passados obrigou os fundadores do Império do Brasil a admiti-lo no seu novo brasão de armas, pois que para o futuro a nicotiana não pertencerá mais peculiarmente ao Brasil que à Suécia, à Sibéria ou aos quinto e sexto continentes. A exportação do fumo tinha diminuído muito no Brasil, e a cessação do tráfico da escravatura dar-lhe-á um golpe fatal, se bem que o consumo doméstico e tráfico externo nunca hão de permitir que este ramo de lavoura seja abandonado.

A cultura do fumo é muito simples e não se carece de máquina alguma para a preparação do gênero. Gosta de terra leve, abundante em sucos e mediocremente úmida. Uma mistura de areia e de massapé ou húmus convém-lhe maravilhosamente. As chuvas favorecem sua infância e desenvolvimento; porém, na época da madurez das folhas, são excessivamente nocivas, particularmente de dia, se o sol bate logo depois. O mal que produzem é tão grande, que um pirajá ou uma neblina fazem perder uma colheita, se o sol sai repentinamente antes que as folhas tenham tempo de secar, razão por que a cultura deste vegetal se acha distante da beira-mar, e se faz hoje particularmente nos sertões, aonde as estações são mais regulares.

O fumo, preferindo um solo como aquele que descrevemos, costumam os sertanejos plantá-lo em certos currais grandes de recolherem gado, que chamam malhados, e que no meio da devastação que causam as queimadas e pastos, são os seus únicos roçados e hortas. O fundo areento destes terrenos enriquecidos com o esterco e secreções do gado produz um fumo de qualidade superior.

O chão destinado a esta lavoura não pode ser cavado e atenuado demais, assim como bem nivelado e limpo de pedras e raízes. As jovens nicotianas, tiradas de um viveiro aonde foram semeadas, são plantadas a distância de dois pés; e para regularidade e cômodo das limpezas, aconselhamos que se faça a plantação a cordel. As plantas devem ser calçadas na ocasião que tiverem pé e meio de altura, e fazerem-se as limpezas à proporção que forem necessárias. As folhas próximas as chão e os ramos laterais devem ser troncados à mão. O mesmo se deve fazer nas sumidades dos indivíduos que tenderem a crescer demais, em vez de se guarnecerem de folhas. Da mesma sorte troncam-se os botões das flores, pois que se o vigor e espíritos da planta se gastarem no esforço da florescência e sustentação das sementes, as folhas perderão todo o sabor e suco. Conhece-se que estas estão maduras quando se dispõem a mudar a cor verde-esbranquiçada em amarelo; então apresentam algumas nódoas, exalam um aroma particular, e seus nervos machucam-se com facilidades entre os dedos. As folhas, ou amadurecem sucessivamente, ou de uma vez. No primeiro caso, a colheita é feita em diferentes intervalos, no segundo colhe-se o pé de uma só vez. As folhas reunidas em mãos põem-se a secar em lugar arejado e à sombra, e muitas vezes suspendem-se nas ripas dos telhados.

As subseqüentes operações de dispor as folhas em maços, cordas e rolos pertencem ainda à agricultura. O merecimento deste gênero consiste principalmente na dessecação. É preciso que esta não seja tão violenta e rápida que o bálsamo evapore, nem tão incompleta que a umidade que se lhe deve conservar seja demais e o faça apodrecer. Um princípio de fermentação, ajudada pelo amontoamento, e imersão na água do mar ou água preparada com sal amoníaco, nitro e untura de melaço
[2], e abafada de repente por meio de compressão, torrefação, moagem ou socagem, dá ao fumo esse aroma e espírito picante que tanto agrada aos partidistas destas preparações. Mas isto já entrou no domínio das fábricas, e o que temos dito basta.

O fumo toma-se debaixo de três formas, e debaixo de todas elas conserva as suas qualidades narcóticas e venenosas, a ponto de causar vertigens, enjôos, embriaguez e vômitos às pessoas que não estão acostumadas aos seus efeitos. Mas com o costume se dissipam estes sintomas, e em breve o hábito muda em precisão, e algumas vezes em paixão irresistível, um uso tão repugnante à natureza.

O fumo assim mesmo serve à medicina, a qual ordinariamente tira seus mais eficazes remédios da classe dos venenos. Verdadeiramente, nos países úmidos, no mar e nas doenças originadas por excesso de linfa e de humores frios, o uso moderado do fumo é proveitoso. Convém particularmente aos temperamentos flegmáticos. Os negros de ambos os sexos gostam imoderadamente do fumo, e, para o obterem, são capazes de cometer excessos que os senhores de juízo prevêem, fazendo dele uma distribuição regular à sua escravatura. É, pois, escusado recomendar aos lavradores prudentes que cultivem porção suficiente para o gasto da sua casa, pois que esta precaução entra no sistema de economia e boa administração sem o qual nenhum estabelecimento de agricultura pode prosperar.


Notas

[1]. Outros dizem que fora descoberto em São Domingos e introduzido na Europa por Jean Nicot, embaixador francês em 1560.

[2]. Se, em vez de melaço, se empregar uma dissolução de açúcar mascavo, o fumo teria uma qualidade muito superior. O fumo da Martinica, conhecido debaixo do nome de Macubá, deve a esta preparação o aroma que tem e que se assemelha ao da violeta, aroma que se encontra também no rapé princesa.

[1839]


(Taunay, Carlos Augusto. Manual do agricultor brasileiro.)

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