Dezembro
2001
Ano IV - nº 40 |
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Há muitos
anos, morava em certa choça de cascas de pau, no barranco do rio São Francisco, uma
velha tapuia feiticeira e má. Contava-se que ela se alimentava de sangue humano e, quando
este não a fartava, comia também o fígado se suas vítimas. Um ou outro caçador a
surpreendia casualmente no meio da catinga, ou à boca de uma das furnas da serra.
Quando tinha fome, despia-se, estendia os trapos no chão, mas às avessas, e a seguir
deitava-se neles, espojando-se como um bicho. E virava onça. Assim transformada,
atirava-se contra pobres criaturas, geralmente mulheres e crianças. Apaziguada a fome,
voltava ao ponto de partida e, rebolando-se sobre os andrajos, transformava-se de novo em
gente. Certo dia, porém, bateu um pé de vento, atirou os seus trapos no rio e ela não
pôde desencantar-se. Ficou onça para sempre e lá existe.
***
Mas há quem conte essa lenda de modo diferente.
As tapuias eram duas e gêmeas. Conversavam elas à beira de uma várzea, a olhar gorda
novilha que pastava.
Uma das gêmeas falou:
- Já faz tempo que nós não comemos uma osga de carne... E olhe ali que novilha boa...
Está até espelhando de gordura!
A outra, que era feiticeira disse, disse:
- Ora... Se você garante que não me atraiçoa, eu viro uma onça cabocla e mato a
novilha para a gente cear...
Está dito!
Ouvindo a resposta da irmã, a bruxa tomou duas folhas verdes, benzeu-as e entregou-as à
outra:
- Segure nesta folha. Eu tiro a roupa atrás daquela moita e venho de quatro pés com a
boca aberta. Aí você mete a primeira folha na minha boca, para eu virar onça. Depois
que eu matar a novilha, volto e você bota a segunda folha na minha boca para eu virar
gente outra vez. Mas não precisa se assustar, pois eu não lhe faço mal. Se você ficar
com medo, atrapalha tudo e eu continuo onça para sempre.
Entendi muito bem respondeu a irmã.
Na primeira parte, ela saiu-se muito bem. Mas quando chegou a vez de colocar a segunda
folha, teve medo e fugiu. E a bruxa continuou sendo onça.
Mais tarde, caiu numa armadilha que lhe prepararam, quebrou umas das patas e ficou
defeituosa. Em vista disso, as diversas pessoas que a tem encontrado, passaram a
designá-la como a onça da mão torta.
(Martins, Saul. O Diário de Belo Horizonte. 23 de julho de 1950. Em Estórias
e lendas de Minas Gerais, Espírito Santo e Rio de Janeiro, p. 111-113) |
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