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Dezembro 2001
Ano IV - nº 40

TRÊS HISTÓRIAS COM SAPOS

Ilustração de Marcos JardimLuiz-caixeiro* e o sapo

O sapo fez a sua casa e estava morando dentro dela. Luiz-caixeiro andava pelo mato comendo as suas frutas e não tinha casa. Uma noite de inverno, chovendo muito, o sapo havia feito um foguinhó e estava se aquentando, a bater o papo: - poque-te-poque, poque-te-poque.

Luiz-caixeiro chegou e pediu ao sapo que lhe desse um agasalho, porque estava com os espinhos moles e sentindo muito frio, de tanta chuva que tinha apanhado. Era só para passar aquela noite Então o sapo, coitado, mandou que ele entrasse. Luiz-caixeiro chegou-se para junto do fogo, a fim de se aquentar. Quando já estava com um lado bem quente, virou-se do outro. Assim que os espinhos secaram e ficaram duros de novo, ele começou a se encostar devagarinho no sapo, que gritou:

- Olhe lá os seus espinhos!...

Luiz-caieiro aquietou-se; Passando um bocado de tempo, porém, tornou a se chegar para o sapo, que berrou pela segunda vez:

- Olhe lá os seus espinhos!...

Pela segunda vez, também, aquietou-se o incômodo hóspede; mas daí a pouco encostou-se bem no sapo, sugigando-o na parede. O sapo deu um pinote por cima do fogo, para o outro lado, reclamando pela terceira vez:

- Olhe lá os seus espinhos!...

Porém, Luiz-caixeiro correu pra riba do sapo, a fim de tornar a espetá-lo. Assim, tanto o perseguiu, que o pobre, pula daqui, pula d’acolá; sempre imprensado entre a parede e os espinhos do malvado, deu um grande salto, caindo na porta da rua. Vendo, afinal, que Luiz-caixeiro se preparava para ir de novo em cima dele, correu para o mato e foi-se embora. Então Luiz-caixeiro ficou bem de seu, morando na casa do sapo.

* Ouriço-caixeiro.



O sapo velho e os sapos moços

Numa noite de inverno, estavam os sapos cantando à beira da lagoa. O sapo velho dizia:

- Quando eu morrer
Quem vai comigo?

Os sapos molos ficavam bem de seu, calados. Então o sapo velho disse:

- Quando qu morrer,
Quem fica com minha mulher?

Aí, os sapos moços todos responderam:

- Eu, eu
Eu, eu

É isso que os sapos cantam à noite, na beira das lagoas.


O sapo saramuqueca

Um rapaz estava apaixonado por uma moça. Então pediu-a em casamento. Porém a moça disse que não queria se casar com ele. O rapaz ficou com muita raiva e procurou meios e modos de matá-la. Enfeitiçou um sapo cururu e peitou um criado da casa para botar o bicho debaixo do estrado sobre o qual a moça cosia.

Começou logo a moça a emagrecer e ficar amarela. Quando um dia de manhã, tendo ela acordado muito cedo para coser, o sapo saiu de debaixo do estrado e agarrou-a. A moça,aí, chamou pela gente de casa, que ainda estava dormindo:

- Meu pai, minha mãe,
Meus parentes, meus irmãos,
Olhe o sapo saramuqueca,
Que quer me comer a mim

Porém todo o mundo estava enfeitiçado em casa e por isso não ouviram a voz da moça, continuando a dor mir. O sapo engoliu-lhe os pés, fazendo assim:

- "Indunga... indunga... indunga...
Indunga, lacandunga, ingúti...

Tornou a moça a chamar pelos parentes e eles ferrados no sono.

Para encurtar a história, o sapo egoliu-a toda, fazendo sempre: - Indunga, etc. E a moça chamando sem cessar por sua gente. Só depois que o sapo a engoliu foi que os parentes acordaram, achando o bicho esparralhado no meio da sala, com a pobrezinha no bucho. Aí não tiveram conversa. Meteram-lhe o cacete de rijo: - pá-pu-burucutu, pá-pu-burucutu -, até que deram cabo dele, tirando-lhe a moça da barriga ainda viva.


(Em Magalhães, Basílio de. O folclore no Brasil. p. 206-208)

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