Dezembro
2001
Ano IV - nº 40 |
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Transcrevemos
da edição do Jornal de Alagoas de 25 de dezembro de 1924, o artigo que se segue,
em que Arthur Ramos, o ilustre mestre, tão cedo desaparecido, já demostrava, há 25 anos
passados*, sua paixão pelos assuntos folclóricos. Prestamos, dessa forma, uma homenagem
à sua memória, que será sempre pouco reverenciar.
Um dos problemas mais interessantes de demopsicologia
é justamente esse pesquisar, de investigar o que a memória coletiva guarda do
patrimônio dos seus ancestrais, adaptando-o às novas condições de raça, de tempo e de
habitat.
O povo, a massa anônima é este grande depositário dos materiais histórico-sociais que
vêem atravessando as idades, e que se adulteram, mercê de condições novas de
educação, de desenvolvimento intelectual, modificando-se ao contato da polícia de
costumes, que lhe arredonda as arestas, lhes amacia os contornos e lhes dá o lustro
característico do progresso social.
As idéias elementares, porém, não se apagam e surgem constantemente à tona da
realidade, entremostrando-se a cada momento em todas as manifestações da massa anônima.
Ir em busca dessas idéias elementares, desse espírito invisível elementargeist
que são o dínamo, o móvel, o elemento propulsor das ações do povo
constitui o objeto de uma ciência hoje perfeitamente individualizada, o folclore,
ou a demopsicologia.
Tenho-me batido por várias vezes nesse modo de encarar o folclore, não o
considerando, como a maior parte dos autores, um estudo de mera curiosidade
filólogo-comparativa ou sócio-histórica.
Deve ser estudado com os métodos e recursos da biologia, da psicologia, o que já os
alemães fizeram ao criarem o imenso cabedal da Volkspsychologie.
Daí o serem de duas classes os estudiosos do folclore: os que colecionam e
amontoam matérias fragmentárias e os que os utilizam e os reúnem em síntese.
A necessidade da divisão do trabalho aqui, como em toda a ciência, impõe essa dicotomia
das atividades. Os trabalhos respectivos, porém, não se separam, nem se anulam, como a
uma análise apressada, se poderia supor. Ao contrário: sucedem-se um ao outro,
continuam-se e se completam.
A origem dos brinquedos e autos de Natal Cheganças, Reisados, Fandangos,
Pastoris, Bumba-meu-boi e quantos outros se perde num emaranhado
intrincado, para trás dos séculos.
Melo Morais Filho, estudando a Noite de Natal na Bahia, (Festas e tradições populares
do Brasil, p. 59) assevera que os autos e cheganças da noite de Natal remontam ao
alvorecer da Idade Média, época em que os natais produções em verso destinadas
a celebrar o nascimento de Jesus, confundiam-se com as composições sagradas; e em que os
trovadores e menestréis, seguindo as procissões solenes se iam exibir nas lapinhas, em
visita ao Messias no presepe de Belém.
O que é verdade, porém, é que essa origem é muito mais complexa do que se poderia
imaginar.
Basta notar-se a diversidade destas folganças, traindo, a uma impressão ligeira, as
fontes várias de onde provieram.
O natal na Bahia, é fato com os seus ranchos, os seus ternos grupos
de pastoras que saem cantando cópias sacro-profanas em visita às lapinhas está
de acordo com a origem que assinala aquele autor.
Os autos que se festejam mais comumente no norte, porém Cheganças, Reisados,
etc. têm procedências outras.
Os nossos folcloristas já os têm estudado, perquirindo-lhes as variantes
regionais, estabelecendo confrontos, e aproveitando-lhes a lição psicológica final.
De todos esses autos, as Cheganças constituem em Alagoas o brinquedo mais
popular e mais característico nas noites de Natal, Ano Bom e Reis.
Numa barca armada com grande aparato numa praça reúnem-se as dramatìs personae,
constituídas por toda uma tripulação improvisada Comandante, Mar e Guerra,
Mestre-Piloto, Gajeiro, o Padre, o Rei Mouro, Marinheiros, etc. e diante de grande
multidão curiosa, começam o jogo, que é movimentado e interessante.
Assiste-se à barração de uma história aventureira de uma nau perdida em alto mar; de
como padeceram fome cruel todos os tripulantes; da guerra que travaram com os piratas
mouros; e enfim de como avistaram terra, salvando-se todos.
A multidão cá em baixo tripudia de gozo à vista daquelas personagens metidas em
vestimentas agaloadas e berrantes, a declamarem a altos brados, e entrechocando as suas
espadas de metal barato, enquanto que a garotada faz coro com os estribilhos mais
populares:
Lá na linha avistam vela!
Lá na linha avistam vela!
Avistei, seu comandante.
Uma fragata de vela!
ou simulam novo brinquedo, em todos os recantos, com um alarido ensurdecedor:
- Marinheiro!
- "Sinhô"!
- Já comeu?!
- Já, sim, "Sinhô"!
- Já bebeu?!
- Já, sim, "Sinhô"!
O auto das Cheganças é incontestavelmente a reminiscência popular do romance
marítimo da Nau Catarineta, que se lê nos romanceiros portugueses.
A versão de Almeida Garrett (Rom. III p. 97-106) assim começa:
Lá vem a nau Catarineta
Que tem muito que contar!
Ouvide, agora, senhores,
Uma história de pasmar.
Passava mais de ano e dia
Que iam na volta do mar,
Já não tinham que comer,
Já não tinham que manjar
Deitaram sola de molho
Para o outro dia jantar;
Mas a sola era tão rija
Que a não poderam tragar
Deitam sortes à ventura
Qual se havia de matar;
Logo foi cair a sorte
No capitão general.
Os autores não estão de acordo com a verdadeira origem desse romance, que Teófilo Braga
(Rom. p. 53; apud V. E. Hardan Rom. Port. p. 20) julga
referir-se "ao celebre galeão Santa Caterina do Monte Sinai que levou a infante dona
Beatriz para Saboya".
Outra é a opinião de Almeida Garret (op. cit.) que julga tratar-se do naufrágio
de Jorge Albuquerque Coelho, na sua viagem ao Brasil, em 1565.
Já na versão do Algarva, de Estácio da Veiga (Hardung, op. cit. p. 26) "o
romance da Nau Catarineta anda amalgamado com outro de Dom Joan de Áustria e
contem alguns versos do romance da bela infanta".
Não é para desprezar-se a opinião daqueles para quem a lenda na nau Catarineta
"não tem determinada origem histórica; é a generalidade tétrica de todos os
naufrágios" (Hardung op. cit. p. 23).
Essa é talvez a mais aceitável. A origem real de uma tradição se perde num nevoeiro
confuso, misto de legenda e história, onde os heróis se confundem com semi-deuses, na
imaginativa popular.
O subconsciente das massas, quando festejam por exemplo as cheganças, tanto pode
relembrar o episódio da Nau Catarineta, como as desventuras de uma Odisséia ou
de uma Eneida.
A idéia essencial é a mesma, que se vai fragmentando pelas idades a fora, recebendo
novos contingentes, deturpando-se em contínua e lenta deformação revestindo aspectos
vários e polimorfos.
As Cheganças tal como se festeja hoje em nosso meio é já um
complexo totalmente diverso do auto primitivo.
Ainda há em suas linhas gerais todos aqueles episódios que se vêm nas versões
portuguesas da Nau Catarineta, porém deturpados, e onde se pode nitidamente
constatar a adaptação ao novo habitat, com os materiais novos que, lentamente, se
foram enxertando.
Aqui e ali, espoucam as quadrinhas legitimamente nossas, de uma cor evidentemente local:
Quem é aquele
Que vem lá fora?
É o marques de Olinda,
Que vem de Angola!
Quem é aquele
Que daqui se vê?
É o Minas Gerais
Que vem combater!
Quem é aquele
Que vem acolá?
É o Minas Gerais
Que vem guerrear!
Que terra é aquela
De tanta alegria?
É os campos do Rosário
Onde se festeja Maria.
totalmente diversas do texto primitivo.
Como o auto das Cheganças, todos os outros... A sua exata significação, já o
povo a ignora. Ficou mergulhada no inconsciente popular.
O papel do folclorista, do legítimo folclorista digno deste nome consiste agora em
praticar uma verdadeira demopsico-análise, isto é, fazer subir essas idéias
inconscientes à tona da realidade, acordando-as à consciência.
E assim, pesquisando, nestes brinquedos e autos da massa anônima, as explosões de
contentamento do povo aprenderemos, como um livro aberto de psicologia coletiva, o que tem
sido a alma das multidões através das raças e das idades...
[25 de janeiro de 1950]
* Nota dos editores de Jangada Brasil:
Texto publicado em 1950
(Ramos, Artur. Em Boletim Alagoano de Folclore, nº 1, Maceió,
dezembro de 1955) |
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