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Dezembro 2001
Ano IV - nº 40

A UMBIGADA EM FILEIRA

 

Homens e mulheres, em fileiras vis-á-vis, davam-se, e dão-se, repetidas umbigadas, respectivamente em Alagoas (coco em fileira) e em São Paulo (batuque). A umbigada, naturalmente, caracteriza o samba, mas neste caso a umbigada, como observou Luís da Câmara Cascudo (Made in Africa, 1965), não constitui um convite, uma vênia, o modo de passar a vez de dançar, como em tantas outras formas de samba; pelo contrário, é a sua figuração essencial. Tanto a ocorrência da umbigada em fileira no Brasil como a sua filiação aos bailes rústicos de Angola põem um problema etnográfico de solução nada fácil.

Há, contudo, duas pistas a explorar.

Do coco em fileira, forma ‘muito antiga’, já desaparecida, Téo Brandão escreveu, imprecisamente, que "25 parelhas em fila sapateavam vis-á-vis a número correspondente de outros pares". Em comunicação pessoal, à base de depoimento obtido do Velho Garanhuns, ex-capitão de campo durante a escravidão, Théo Brandão confirmou que as duas filas de dançarinos se chocavam, ritmadamente, numa umbigada coletiva. Em cada fila, alternavam-se homens e mulheres (donde a referência a parelhas e pares), de modo que cada figurante tinha diante de si um indivíduo do sexo oposto.

O caduque e a massemba de Angola são, pelo que se pode depreender de uma descrição muito insuficiente do cronista angolano Óscar Ribas (Izomba, 1965), parentes próximos, se não antepassados, do coco em fileira.

A massemba, que se dança em Luanda, e tem, ou tinha, associações populares que a cultivavam, seria a forma urbana do caduque, baile "essencialmente rústico, executado ao ar livre, em chão de quintal", natural de Ambaca (Mbaka). Massemba é plural de dissemba, umbigada, do verbo kussemba, requebrar-se. E dança de salão - evidentemente, de salão pobre, nativo. Se desprezarmos uma movimentação em quadrilha, o fogope - os ‘exercícios’, sob o comando de um marcador - que faz parte do baile em Luanda, mas estruturalmente nada tem a ver com ele, os dançarinos se organizam em duas fileiras, como no coco, mas as umbigadas nem sempre se dão entre homem e mulher. Um dos figurantes se destaca da sua fileira e vai dar uma semba (umbigada) num dos componentes da outra: "Quem aplica a semba ocupa o lugar de quem a recebe, pois esse, em evolução análoga, logo parte a entrechocar-se com outro elemento da fila contrária." A orquestra desse baile urbano, bem comportado, em que "cavalheiros e damas trajam a capricho", muitas vezes na mesma cor, e outrora até mesmo de smoking, compõe-se de uma harmônica e uma dicanza, espécie de reco-reco de cerca de um metro de comprimento. Os presentes fazem coro nas canções.

O caduque era mais movimentado. Executava-se a semba, mas, escreve Óscar Ribas, "em vez de, como na massemba, sair apenas um dançante, saíam dois simultaneamente, um de cada fila". Compunham o instrumental uma goma (tambor escavado em tronco de árvore) percutida com as mãos, uma caixa, que se tocava com baquetas, e uma dicanza. Também aqui os brincantes cantavam em coro.

Note-se que, num e noutro caso, se pode qualificar de seletiva a umbigada, movimentando-se os dançarinos, mas não as fileiras.

Já o batuque de São Paulo apresenta grande semelhança com o calandá (calenda em francês) do Haiti, e em geral de toda a antiga Hispaniola. Este era o baile da predileção dos escravos. O padre Labat (Jean-Baptiste Labat, 1663-1738), missionário e cronista da vida colonial, chegou a escrever, a fim de dar uma idéia da ‘paixão’ de adultos e crianças pelo calandá, que parecia que o viessem dançando desde o ventre materno. Dois tambores, um grande e um pequeno (bamboula), cabaças e às vezes um banza, violino rudimentar de quatro cordas, compunham a orquestra, que as palmas completavam. Heli Chatelain (Folk-Tales of Angola, 1894) grafa mbanza, que eventualmente deu banjo. De acordo com o relato do padre Labat, os dançarinos se dividiam em duas fileiras, uma de homens, outra de mulheres, e faziam figurações individuais.

"até que o som do tambor lhes dê aviso para se juntarem, batendo as coxas uns contra os outros, isto é, os homens contra as mulheres [...] Afastam-se por um momento, fazendo piruetas, para recomeçar o mesmo movimento, com gestos inteiramente lascivos, tantas vezes quantas o tambor dê o sinal, o que amiúde faz muitas vezes, sucessivamente. De vez em quando, dão-se os braços e fazem duas ou três voltas, sempre batendo as coxas e se beijando."

Era natural, pois, que o padre Labat não os pudesse dissuadir do calandá, ainda que contratasse músicos e distribuísse aguardente para interessá-los em outras danças.

Do calandá, ao que parece, nada, ou quase nada restou no Haiti, pelo que informa Michel Lamartinière Honorat (Les danses folkloriques haitiannes, 1955).

Em São Paulo, batuqueiros e batuqueiras, em fileiras vis-á-vis, sambam uns ao encontro das outras e dão-se valentes umbigadas, o homem inclinando o busto para trás para aplicá-las melhor, três de cada vez, intercaladas por ligeiras reviravoltas sobre o corpo, e assinaladas por palmas acima da cabeça. A orquestra se constitui de tambores (tambu e quinjengue),matraca e guaiá. E, para encerrar o baile, há a figuração chamada leva-e-traz, quando batuqueiros e batuqueiras, obedecendo à batida dos tambores, avançam e recuam de modo vivaz, dando-se sucessivas umbigadas.

Como sempre acontece nestas coisas, certeza não há. É possível relacionar o coco em fileira ao caduque, mais do que à massemba, de Angola. O batuque paulista corresponde, muito de perto, ao calandá do Haiti. Mas o calandá, por sua vez, de que forma de samba se terá originado?


(Carneiro, Edison. Folguedos tradicionais)

Downloads de partituras* e MIDIs** de batuques do Grupo de Batuque e Umbigada Tambor do Congo, de Capivari, SP:

• Partitura de Treze de maio, de Benedito Pedroso: [PDF:23KB]

• MIDI de Treze de maio: [MID:39KB]

• Partitura de Toda festa que eu vou, de Anecide de Toledo: [PDF:36KB]

• MIDI de Toda festa que eu vou: [MID:24KB]

• Partitura de Escravidão, de Mário Correa de Toledo: [PDF:26KB]

• MIDI de Escravidão: [MID:18KB]

 


* Para visualizar as partituras é necessário ter o Adobe Acrobat Reader instalado.

** MIDIs: Alessandro Valente.

ADVERTÊNCIA: Embora tenham sido testados, os MIDIs aqui disponíveis podem não tocar por razões que dependem da configuração do seu micro (instalação de hardware, drivers, etc.). Além disso, a qualidade sonora de um arquivo MIDI (o timbre dos instrumentos) depende da placa de som que o reproduz. Esses arquivos foram gerados com uma placa Sound Blaster PCI128.

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