Ir para a página principalRetornar para Festança

Dezembro 2001
Ano IV - nº 40

NATAL NO TEMPO DA COLÔNIA

Em sua chácara, na Glória, próxima ao caminho do Catete, Manuel Dias da Serra Cavaleiro, cirurgião aprovado pela junta do Proto-medicato, festeja o nascimento de Jesus. Dia 24 de dezembro de 1799. São oito horas da noite. Os archoteiros da morada, negros robustos e escolhidos entre os mais guapos da senzala, iluminam o caminho por onde hão de passar os convidados. A casa posta em meio a largos tufos de folhagem, como que esplende e arde ao insólito clarão de enormes candelabros. Luzes pelos parapeitos das janelas, pelas varandas e até pelo terreiro onde os escravos cruzam vozeirudos, alegres e apressados.

A um canto do salão de visitas já se armou o presepe. As personagens do drama bíblico: o menino Jesus, a Virgem, São José, os três Reis Magos, pastores, pastoras, esculturados em madeira, vieram de Lisboa, pela nau do Reino. Com eles vieram, também, os arvoredos minúsculos, as fontezinhas, os moinhos e toda uma variada fauna que se dissemina sobre o pano enfelpado, de cor verde, lembrando a relva batida e baixa e de uma campina pobre. O estábulo onde nasceu Jesus não tem teto, para que a gente possa ver o comovente quadro da Sagrada Família que se reúne em torno ao pequenino berço.

Círios altos crepitam em derredor, plantados em castiçais que mãos piedosas enfeitam com fitas, em largos laçarotes e alegres flores de papel. Atapetou-se todo o salão com folhas novas, num caminho que segue, da porta principal da morada, até ao largo portão que se escancara, aberto, para a rua.

Vão chegando as visitas. É o sargento-mor comandante do Corpo Militar da Guarda do senhor conde de Resende vice-rei, que chega numa garrida sege de arruar, desce, e caminha à frente da família, como ensina o bom costume. Ele, a crosta conjugal, logo atrás, carregadas de sedas e de jóias e duas filhas casadoiras, nos seus biocos de renda, de ar trêfego e em passinho de rolas assustadas. O escrivão da Junta do Real Erário, logo depois, salta de uma aparatosa serpentina que dois negros carregam. O senhor Paulo José Guedes, escrivão da Procuradoria dos Defuntos e Ausentes, mais modesto, pula da sua mula baia que um escravo solícito vai conduzindo, logo para as cavalariças da morada. E outros mais vão chegando. São cabeleiras de empoar, são casacas de seda e calções curtos e ajarretados de fita e prata, véstias de cores fulgurantes... As senhoras, cheirando a água da Hungria ou de Córdoba, já não usam mais saias balão. Os vestidos murcharam. Caem, agora, naturalmente, em panejamentos voluptuosos, desenhando a fartura das ancas e os traseiros que mostram desenvoltos e fortes. Apesar do calor que então faz, as moçoilas, como é moda em Lisboa, vestem josezinhos vermelhos, golados de veludo e com capuz. São as "sécias" que dão louçania, lustre e elegância à vida obscura e triste da Colônia. Os "peraltas" olham-se de soslaio, como ensinam os rigores do tempo, com olhozinhos de carneiro morto, suspirando de leve.

Às oito e meio o salão está repleto. Abafa. As senhoras, sentadas, movem enormes leques de pluma ou de papel. Os homens procuram os vãos de porta ou de janela, em busca de uma aragem que não vem, olhando, fora, o arvoredo ereto e imobilizado como se fosse de metal.

A assembléia de mote e prendas começa, então. O intendente da marinha, José Caetano, lança o primeiro mote, que diz assim:

"Nasceu Jesus de Nazaré..."

Chovem as glosas, medíocres, timoratas, em versos frouxos ou em pé quebrado. O poeta Souza Moita é que consegue, afinal, a melhor, que assim termina:

"Nasceu a luz clara da fé,
Nasceu a paz nos corações,
Nasceu Jesus de Nazaré..."

Aplausos, bravos. O reverendo cônego-cura, Antônio Rodrigues de Miranda, anafado e vermelho, ergue-se comovido do enorme cadeirão de vaca, todo de pregarias amarelas, para abraçar o vate vencedor do torneio de motes.

- Repita-me ó m’nino! Que mimosa de glosa que ela é! Repita-me !

E o trovador repete a versalhada de improviso:

".....................................
Nasceu a luz clara da fé
Nasceu a paz nos corações,
Nasceu Jesus de Nazaré....."

De novo reboam palmas no salão.

A espineta desenha, aí, uma pequena melodia do Rei Pastor, de Mozart. O silêncio é geral. As "sécias", sentimentalizadas pela solfa, aproveitam e atiram, aos líricos "peraltas" que se encontram recostados aos portais e às janelas do salão, patéticos olhares. A parte musical terminada, anuncia-se a nova diversão – Jogos de prenda!

Os velhos, que não estão mais para esses jogos, vão para outras salas. Vão para o gamão, ou para as cartas, jogar o faraó, o espinafre, o boston-sueco, a guingueta ou o pacau.

Na sala principal, contudo, principia a alegre distração.

Joga-se o vaivém.

"Se vaivém fosse
E visse
Ve-vem ia,
Como vaivém vai
E não vem
Vaivém não vai lá".

Depois, é o jogo da Cidade de Roma – tão engraçado! O jogo do Cascavel, muito dos serões de Lisboa:

"Prestai todos, atenção
Ao jogo do Cascavel
Quem não acertar com el,

Ponha a prenda em minha mão".

O jogo do Papagaio, que quase endoidece a sala de tanto rir, começa assim:

- "Papagaio
- Senhor.
- Foste ao campo?
- Ao campo fui.
- Que lá viste?
- Uma ave.
- Que ave era?"

O senhor cônego-cura está no jogo também. Erra por duas vezes. Paga prendas. Uma delas é a sua boceta de rapé, em charão, obra de arte chinesa, preciosa oferta do senhor Procurador da Mitra.

São dez horas da noite. É a hora de cear. As danças para depois da ceia.

A mesa posta, em coberta, lembra um carro alegórico erguido em honra a Pantagruel. É uma alta montanha de alimentos. Nela se encontram várias qualidades de carnes assadas no espeto ou no forno. É o porco assado, talhado em fatias paralelas, lembrando mais um ouriço do que porco, ao centro; e, em torno, dentro de largos tigelões de louça branca, carneiro verde, enroupado em salsa, carneiro amarelo (em banho de gemas de ovo), a boa galinha a Fernão Lopes, frangões de cabidela, patos de piverada, peru em botinas (as pernas recheadas de carnes de vitela, ostras e mariscos), macucos frios no azeite, preás de espeto. Sobremesas inúmeras: sonhos de massa, bolos reais, bolos a Delfina, cuscuz, arroz doce, compotas e geléias preparadas de acordo com as receitas do Livro de Cozinha, de Lucas Rigaud "um dos chefes da cozinha de Suas Majestades Fidelíssimas". Bíblia de epicuristas, guia para composição de boas petisqueiras à portuguesa, obra preciosa que se manda buscar em Lisboa, porque no Rio de Janeiro desse tempo, as raras livrarias existentes só vendem livros sacros, vidas de santos e orações.

Sobre a toalha da mesa, enorme, há pratos estendidos em fila, mas não há talheres. Entram as mãos e os dedos em exercício. Das bocas atulhadas de petiscos, escorrem pingos largos de gordura que, quando os pratos não aparam, caem por sobre a toalha ou sobre o medeiramento do assoalho. Bandejas cheias de copos com sangrias e vinho do Reino, sopesadas por escravos, passam. Estrídulas gargalhadas. O vinho é de primeira. Os homens bebem a fartar. Muitos vão para o terreiro onde uma parte da negada escrava já se diverte dançando e cantando. Dança-se a chocaina, o sarambeque, a fofa e canta-se a modinha e lundum. Soam marimbas, berimbaus, adufes, xequerês, quisangues e molunguns:

"Meu São Benedito
É santo de preto
Ele bebe garapa
Ele ronca no peito..."

A espineta, porém, dá o sinal para as danças. Já estão todos a postos no salão de dançar, os cavaleiros de uma banda, as senhoras de outra. O cordão das conveniências de permeio.

Dança-se a gavota, o minueto francês, e, sobretudo, o minueto português, por sinal, o mesmo descrito por Beckford, que o viu dançar nos salões de Lisboa, um minueto "aos saltos, cheio de sapateados e requebros", muito de acordo, aliás, com as delicadezas da nossa época colonial. De repente, ouvem-se sinos a tocar, chamando os fiéis à missa da meia-noite. A espineta pára de chofre. Interrompe-se o baile. Há uma lufa-lufa geral. Os homens procurandos os seus tricórnios, os seus bastões, as suas capas; as senhoras, as suas mantilhas de renda ou os seus josezinhos de gola e capuz. São convocados os lanterneiros e archoteiros para iluminar os caminhos. E, em magotes, lá vão, todos, pela fralda do outeiro da Glória, a subir, lentamente. Outros magotes, vindos de outras bandas, vão subindo, também, em direção à igreja violentamente iluminada para a Missa do Galo.

E aí termina a festa de Natal ?

Era o que faltava terminar tão cedo! As luzes das casas ainda estão acesas, as mesas estão postas, as espinetas à espera de novos minuetos e gavotas, bem como os escravos a postos para dar de comer e beber a toda gente. Porque a folgança, alegremente, continua, até romper a madrugada.


(Luiz Edmundo. Recordações do Rio antigo, p. 41-46)

Topo

Jangada Brasil © 2000