Dezembro
2001
Ano IV - nº 40 |
|
ALIMENTAÇÃO DO
JANGADEIRO |
|
O jangadeiro que vive
exclusivamente da pesca no mar, completa a sua alimentação com os produtos da terra,
principalmente com o caju. Este é como todos os jangadeiros afirmam: "Deus mandou o
caju para que os pescadores não passem fome como os matutos do sertão".
Em tórno do caju há uma verdadeira arte culinária: pancão, canjirão, mel de caju,
mocororó e as várias maneiras de aproveitar a farinha da castanha dessa árvore típica
das praias.
Bom passadio de jangadeiro é o pancão. Tira-se o caju e espreme-se para fazer a
garapa do caju. Leva-se ao fogo. Apura-se até fazer o mel. Assa-se a castanha, pila-a,
mistura-se com o mel, coloca-se numa prensa e faz-se uma forma como se fosse um tijolo, é
o pancão.
Comendo-se cedo o pancão, passa-se o dia todo sem comer mais nada. A pessoa fica
alimentada, pode-se ir para o mar ou para o roçado e trabalhar o dia todo.
Tambança é o vinho do caju com a farinha da castanha. O vinho de caju assim se
prepara: espreme-se o caju, depois coloca-se a farinha de castanha assada e pilada dentro;
é a tambança. Alimento forte.
Canjirão - assa-se a castanha, pila-se e mistura-se com farinha de mandioca,
colocando-se mel de caju.
Mel de caju - Espreme-se o caju numa gamela, depois coloca-se num caldeirão e
leva-se ao fogo. Vai fervendo e vai-se tirando as espumas, lançando-as fora. Apura-se
até ficar mel grosso.
Mocororó - (Bebida de origem indígena). Espreme-se o caju, quando se tira o vinho
(o suco) todo, coa-se e engarrafa-se. Deixa-se azedar. É necessário amarrar fortemente a
rolha que tampa a garrafa, porque fermentando, pode estourar e perder-se. O melhor
mocororó é feito com o caju azedo.
Farinha de castanha - Toma-se a castanha do caju e pila-se para a farinha de
castanha. É comum misturá-la com a de mandioca para se comer peixe seco; agulha, espada,
moréia. Como esse peixe sobra do consumo, salga-se e guarda-se. Escala-se o peixe,
isto é, corta-se pela costa, abrindo-se da cabeça à cauda dois lanhos onde se coloca o
sal. Esta operação é feita depois de se ter consertado o peixe, isto é, tirado as
vísceras. Peixe seco com farinha de castanha é um prato forte.
Na arte culinária jangadeira encontramos além do caju o aproveitamento da melancia, do
murici, do maxixe.
Angu de castanha: apanha-se o caju, tira-se a castanha, assa-se, depois quebra-se e
pisa-se bem no pilão. Quando está bem fininha, leva-se ao fogo numa panela com pouca
água. Põe-se um pouco de sal, uma pitadinha apenas. Depois de pronta coloca-se nos
pratos. Esse angu fica como uma canjica. Come-se com colher de pau que é a que se usa na
casa de pescador. Com esse "angu dá para a gente escapá".
"Escapar" é comer. "Quando eu era menino", afirmou velho jangadeiro,
"eu acabava de comer esse angu, estava sustentado, ia brincar, nadar".
O mesmo jangadeiro informou: "as colheres de pau são feitas pelos jangadeiros para
seus filhos, de peroba ou maniçoba. A colher é pequena, pois nunca há muito para se
comer".
A farinha da castanha misturada com farinha de mandioca para comer com peixe seco: agulha,
espada, moréia. Esses peixes sobram do consumo, então salga-se e guarda-se. Escala-se o
peixe. É claro que primeiramente tiram-se as tripas.
"O peixe seco com farinha de castanha é uma comida forte, tem vitamina: não vê que
pescador é forte e tem bastante filho. Isso dá muita sustância para o homem
(potência), disse um informante."
"Outra comida que dá muita sustância é a castanha assada para se comer com
rapadura. Quando se assa a castanha é necessário que se tire muito bem aquela pele de
cima, porque ela tem muito azeite que, comendo-se, dá muito papouco na pele
(furunculose)."
A melancia é plantada em terrenos de vazante, terreno mais baixo, para que dê o ano
todo. Aliás o mesmo fazem com o maxixe.
Canjica de maxixe - Põe-se para cozinhar, quando está bem mole, põe-se num
alguidar. Uma vez fria, mexe-se bem, passa-se numa peneira, tira-se toda a semente. Depois
raspa-se o coco, põe-se junto com aquela massa para se fazer a canjica.
Farofa de melancia - Toma-se a melancia, parte-se, raspa-se o miolo, depois
espreme-se. Fica aquela água onde se coloca a farinha de mandioca. Come-se com peixe seco
assado.
Esta farofa de melancia o pescador a leva na quimanga, constitui um passadio bom para se
comer no mar.
O café da manhã em casa de pescador é peixe seco com farinha, O peixe que jangadeiro
come em casa pela manhã é geralmente o coró, quer do branco, quer do amarelo.
Pescador gosta de levar coró na quimanga. Assa-se na brasa o coró com escama e tudo,
tirando-se apenas as tripas e guelras, é o coró marinheiro. Há pescadores que
passam a vida toda sem comer carne de gado, de vaca; só comem carne de peixe e quando
não morrem no mar, morrem de velho e não de fome.
Quando chega o balanço do mar, isto é, a água doce desce dos rios, das barras,
misturando-se com a salgada, afugenta os peixes, estes somem. Jangadeiro vai com a
jangada, dorme no mar e nada traz, então, não se tendo o que comer, come-se jerimum com
leite de cabra. Põe-se o jerimum (abóbora) no fogo, depois de cozido, machuca-se e
come-se com leite. O jerimum preferido é o "de leite" e não o cheio de
água. Para se comer este "jerimum de leite" com leite de cabra, não é preciso
açúcar, põe-se uma pitada de sal.
Jamu, antigo jangadeiro, disse: "quando eu era menino, ganhava os morros para apanhar
murici. Outras vezes íamos pegar siri porque muitas vezes meu pai voltava do mar sem ter
o que comer. Nós as crianças, com os muricis e os siris lhes dávamos também alguma
coisa para comer. Cresci assim. Essa é a vida de jangadeiro. Apanhava o murici mole,
botava na farinha de mandioca, pisava a rapadura e misturava-se tudo na mão, fazia a tambica,
comida que alimenta muito. Quem come tambica de manhã cedo fica sustentado para almoçar
lá pela tarde".
Outra comida de emergência do pescador é o chibé. Raspa-se a rapadura, põe-se
dentro de uma vasilha com água. Derrete-se a rapadura com um pouco dágua,
colocando-se ali a farinha de mandioca e deixa-se inchar. Quando a farinha está inchada,
o chibé está pronto para ser comido. Come-se o chibé quando não se tem mesmo outra
coisa para se comer.
Há um ditado que marca bem as aperturas de um pescador: "ele nem chibé tem mais
para se escapar (comer)".
Uma das primeiras comidas que filho de pescador come na vida é o caldo de peixe, logo
após o desmame. Às vezes, ainda está sendo amamentado, já toma caldo de peixe. Vai-se
misturando engrossantes, isto é, farinhas de mandioca ou de caju. A farinha bem pilada,
bem fina de castanha de caju é um dos mais usados engrossantes que os filhos de
pescadores aprendem a tomar.
"Filho de pescador vem ao mundo e logo aprende que peixe e caju cria gente forte,
dura, no serviço do mar. Não tem importância que os governos se esqueçam da gente.
Deus não, nunca esquece e nos dá força e inteligência, filho de pescador nasce com o
caju na mão para fazer mocororó que é a bebida da nossa alegria", concluiu
Antônio Reinaldo da Silva.
[1964]
(Araújo, Alceu Maynard. Folclore nacional, v. 3, p.324-326) |
|