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Dezembro 2001
Ano IV - nº 40

O PERU E O LEITÃO

A capital do Brasil, essa mui leal e heróica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, onde cada cidadão é um orador, cada orador um político, e cada político um patriota ardente e sobretudo desinteressado, tem, a par de grandes virtudes, defeitos que não são pequenos.

Um destes é a indiferença pelo passado.

Não há país nenhum, por mais prático que seja, que não guarde religiosamente o culto das suas tradições.

O inglês, compromete por ventura e seu eu, escrito com letra maiúscula, quando, no dia de São Valentim, escreve cartas amorosas às raparigas com quem entretêm apenas as mais cerimoniosas relações? Apeia-se ele da sua dignidade ou perde o prumo da autonomia britânica por que atira punhados de arroz sobre os recém-casados, acreditando que sem esse projétil
o par jamais poderá ser ditoso?

A libra esterlina continua ainda a governar o mundo, a despeito destas e outras puerilidades.

Do mesmo modo vai tudo avassalando o espectro científico da Alemanha, dessa loura presa por elos inquebrantáveis à cadeia de sua poética infância.

Todos os anos, por ocasião das festas no Natal e do Ano Bom estendem-se pelos orgulhosos boulevards de Paris toscas barracas de sarrafos e panos pintados, onde expõem-se à venda as mais grotescas quinquilharias. Ao redor daquelas casinhas acocoradas, que formam terrível contraste com as lojas iluminadas a giorno, o francês dá gostosas gargalhadas, e diverte-se tão contente e satisfeito que a gente chega a perguntar.

- Foi para esses latagões ou para as crianças que estão aqui estas barraquinhas?

E no entanto, por este fato e outros, ainda ninguém se lembrou de dizer que o povo parisiense não tem espírito.

O brasileiro, e sobretudo o fluminense entende que perde os foros de homem civilizado conservando as tradições de seus maiores.

Olhem para a festa no Natal de hoje e comparem-a com aqueles regabofes, em que os nossos avós, sentados à cabeceira da mesa, revendo-se felizes nos filhos, netos e bisnetos, comiam com indizível apetite o peru engordado a nozes, e regavam-o com o vinho mais velho, que havia em casa.

O peru e o leitão eram as vítimas do sacrifício.

Um mês, pelo menos, antes da festa, o chefe de família ia ao mercado escolher a luzida ave, que passava a ser tratada no galinheiro à vela de libra. O cozinheiro tinha recomendação expressa de dar-lhe diariamente todas as sobras do almoço e jantar. Si à sobremesa havia bananas, a dona da casa dizia a todos.

- Piquem as cascas para o peru.

Para ele reserva-se sempre a melhor folha de alface da salada.

Tinha poleiro especial.

Enfim, tantas eram as honras, e considerações de que gozava, que dir-se-ia um votante em vésperas de eleições.

Embebedavam-o horas antes de morrer.

No dia do sacrifício eram um gosto vê-lo com o papo reluzente, ameaçando tremenda explosão de farinha torrada, e com o ventre empanzinado de ovos e azeitonas.

A outra vitima, o leitão, era também cevado em casa.

Naquele tempo não se sonhava ainda o jardim do campo da Aclamação.

Quem morava, pois, nas circunvizinhanças do dito campo, mandava para ali o seu porquinho, as suas cabras, as suas galinhas e até o seu cavalo.

E a bicharada dava-se bem naqueles vastos capinzais, onde as lavadeiras seminuas ensaboavam, batiam e estendiam roupa à vontade.

Saíram dali porcos tão nédios e robustos que poderiam figurar com glória em uma exposição.

O leitão era executado na véspera da festa, momentos antes do peru.

Quando o infeliz via luzir na mão do feroz cozinheiro a terrível lâmina que devia mandá-lo desta para a melhor, principiava a correr e a gritar.

O grito é protesto solene do porco.

Qualquer de nós, vendo-se atacado, tem três partidos a tomar:

Ou dá ou foge, ou recorre à imprensa ou aos tribunais.

O porco, diante de uma faca, não dá, não foge, nem recorre à imprensa ou aos tribunais.

Grita. Não simpatizo com o caráter deste animal.

É um mau sujeito.

O carneiro sabe que, chegando a certa idade, tem de ser reduzido a costeletas, e que o seu futuro não está nos falsos ouropéis desta vida efêmera, mas no molho branco com alcaparras. Sabe perfeitamente que é esta a sua missão mais gloriosa, e por isso vemo-lo caminhar sereno e resignado para o açougue, sem dar sequer um ai quando decepam-lhe a cabeça.

Vejam a tartaruga.

Não se mexe, nem protesta quando a expõem nos restaurantes com o seguinte anúncio na barriga.

- Sopa amanhã.

Exponham um porco com este letreiro ao pescoço:

- Sarrabulho brevemente.


Que gritaria, Santo Deus !

Felizmente, porém, para ele e para o peru as nossas festas do Natal vão acabando.

O Rio de Janeiro acostumou-se a viver no meio da rua.

A vida íntima de família caiu em desuso.

Passa-se o verão nos hotéis das cidades de montanhas, em Petrópolis, Friburgo ou Teresópolis.

Ali, à mesa redonda, onde sentam-se todos, o marido e a mulher com os filhos solenizam o grande dia da cristandade, separados do resto da família, reunido em outro ponto.

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Felizes aqueles que ainda podem comer o peru e o leitão cercados de todos o seus.

[século XIX]


(França Júnior, Joaquim José da. Folhetins, p.603)

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