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Urbano
Duarte
colaboração
eviada à Jangada Brasil por Arthur Nehrer,
do Rio de Janeiro
Neste
mundo há muita gente finória, sagaz e manhosa; porém, não creio
que ninguém leve vantagem neste ponto ao campônio dos sertões de
Minas. O tabaréu mineiro, com os seus ares simplórios e ingênuos,
é uma criatura capaz de engazopar até o Fígaro de Beaumarchais.
Ele, porém, é inimbrulhável,
invencível em finura, e quem se meter a embahil-o com ardis e
ciladas, pode contar com o arrependimento.
Note-se que o matuto de
Minas é homem honrado e cumpridor da sua palavra, quando trata com
gente que faz o mesmo. Porém, desde que desconfie do cristão,
ai meu Deus! Quebra o corpo manhosamente e põe-se em guarda, como
quem diz aos seus botões: Então
vosmecê está coidando que eu sou algum pateta?
O seu semblante nada
demonstra; continua a sorrir com ares inocentes, pitando o seu
cigarro. E a cada léria ou balela que o outro pretende impingir-lhe,
o matuto responde com um gesto de hipócrita credulidade:
- Apois, hein? Ora veja vosmecê!
Quando se pensa que o
roceiro está cantado, ele sai-se
com uma refinada astúcia, lenta e maduramente combinada, que nos
deixa de orelha em pé e queixo caído.
Lembro-me de uma partida que se deu com um caipira lá para as bandas
de Paracatu.
Como todo mineiro da gema, este não era lá muito amigo dos
progressos e não gostava da estrada de ferro.
Tendo-se construído uma ferrovia em sua província, o homem
torceu-lhe o nariz e protestou jamais embarcar em semelhante trapizonga.
E durante muitos anos continuou a viajar no seu burrico, pelas suas
estradinhas, fazendo o meio dia para comer á beira d’agua o seu tutu com torresmos, armando a rede em dois pés de árvores, quentando
fogo e contando anedotas do tempo de quórenta
e dois.
O agente de uma estação férrea procurava seduzi-lo e catequizá-lo,
demonstrando-lhe em como a viagem pelo trem era mais rápida, barata e
cômoda.
Porém, o matuto não se convencia.
Um dia, contudo, tem urgência de chegar a certa cidade e vê que a
cavalo não o poderia fazer. Vai à estação e pergunta quanto custa
o bilhete. O agente regojiza-se.
- Ora, até que afinal convenceu-se, hein?
- Não, senhor; eu quero saber quanto custa o bilhete para um burro...
- Para um burro?!
- Sim, seu compadre.
O agente consulta a tabela e diz:
- Treze mil e trezentos.
- Então, dê-me um.
Vendido o bilhete, o muar foi
metido dentro do vagão próprio, e o dono tambem entrou, na ocasião
em que o comboio se punha em movimento.
- Então – grita – o agente
– o senhor não salta?
- Não, senhor, eu também vou.
- Como assim? Não comprou
bilhete!
O matuto meteu o pé no estribo,
montou no animal e gritou muito ancho, quando o carro já saía fora
da estação.
- Eu vou a cavalo!
Notas
biográficas:
Urbano
Duarte
Lençóis, BA, 31/12/1855
Rio de Janeiro, 10/2/1902
Bibliografia:
Humorismos, por J. Guerra (1895)
O livro do soldado, em colaboração com o coronel Fernando Veiga
Os dramas
O anjo da vingança
O escravocrata, com Artur Azevedo
Os gatunos (comédia)
Colaborou em O Paiz, no Jornal do Commercio, onde escreveu os folhetins
Sem rumo; em A Semana, Revista Brasileira, Gazetinha,
Correio do Povo, Estado de São Paulo", etc.
O major Urbano Duarte cursou a Escola Militar e foi professor da Escola de
Tática. Jornalista e publicista, criticou, como Joaquim José da França
Júnior, os costumes sestros e tipos da sociedade fluminense: o cronista foi um fino observador e contou o que observou com bastante naturalidade e chiste. E
também, como França Júnior, foi autor dramático.
Urbano Duarte pertenceu à Academia Brasileira de Letras, cadeira França
Júnior.
(Em Werneck, Eugênio. Antologia brasileira; coletânea em prosa e verso de
escritores nacionais. 15ª ed. Rio de Janeiro, Livraria Francisco Alves,
1932)
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