Dezembro
2001
Ano IV - nº 40 |
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PELEJA DE GERALDO
MOUSINHO COM CACHIMBINHO
José Costa Leite |
Vamos ouvir a peleja
de dois coquistas de raça
porque Geraldo Mousinho
e Cachimbinho onde canta
o povo todo acha graça.
Esta dupla nordestina
Geraldo e Cachimbinho
está botando prá quebrar
porque Geraldo Mousinho
se banha na mesma fonte
e bebe do mesmo vinho.
Cachimbinho, agora há pouco
viajou de Limoeiro
e foi cantar com Geraldo
na cidade de Salgueiro
vamos ouvir eles dois
na toada do pandeiro.
Cachimbinho disse assim:
Geraldo, vamos cantar
tenho 3 saco e 1 pote
de versos, pra despejar
no assunto que quiser
garanto lhe acompanhar.
G. Então vamos começar
num trabalho improvisado
como quem fez uma troca
num trocadilho engraçado
cuidado, senão você
também vai ficar trocado.
C. Troco o dedo pelo dado
e troco o dado pelo dedo
cuidado, que logo cedo
a poeira vai voar.
G. - Para não fazer enredo
troco juá por jaú
troco cajá por caju
e troco caju por cajá
C. Troco Pará por Peru
e troco jaca por pinha
troco capão por galinha
e troco jacu por jucá.
G.- Troco o trem pela linha
e troco foice por faca
troco bezerro por vaca
e troco a maré pelo mar
C. Troco gavião por paca
troco a oração na fé
troco a meia pelo pé
e troco chuchu por xuxá.
G. Troco o chá pelo café
troco a bala pela bola
troca a sala pela sola
e troco o café pelo chá.
C. Troco o na viola
troco a porta pela chave
troco a janela na trave
e troca a bola no bilhar.
G. Troco algodão por agave
troco a luz pelo farol
troco a lua pelo sol
e troco o eixo no mancar
C. Troco a rede no lençol
e o caro no barato
a mentira no boato
e o calangro no preá.
G. Troco o gato pelo rato
e troco o farol pela luz
troco o diabo pela cruz
e troco o jardim no pomar.
C. - Troco salsa por mastruz
troco a bola pela bala
troco a mola pela mala
e o pandeiro pelo ganzá.
G. Troco a cozinha na sala
e troco a vaca no zebu
troco o guará no guaru
e troco o guaru no guará.
C. Troco cajá por caju
e troco manga por jaca
troco tostão por pataca
e a dezena na milhar.
G. Troco o jegue na macaca
e troco o rato no socó
troco o gambá no mocó
e troco o mocó no gambá.
C. Troco a pua no enxó
e o grilo no papavento
troco você num jumento
pra ver o bicho que vai dar.
G. Vou trocar neste momento
a enxada no machado
e troco você num veado
porém não vá se zangar.
Levantou-se um cidadão
e aos dois cantores, pede
um trabalho e pagou logo
dizendo: Ninguém se arrede
a prova não vai ser mole
fede o velho do fole
e o fole do velho fede.
C. O velho Félix lá na sede
deixe o povo todo mole
Tocando seu fole velho
e com ele ninguém bole
afirma o povo na sede
que o fole do velho fede
e fede o velho do fole.
G. Talvez você se atole
seu cara de escaravelho
o velho Félix toca bem
juro pelo o Evangelho
depois de tomar um gole
fede o fole e fede o velho
fede o velho e fede o fole.
C. Seguindo o mesmo Evangelho
antes que você se atole
eu falo no velho Félix
que prova que não é mole
e no fole mete o relho
fede o fole e fede o velho
fede o velho e fede o fole.
G. Um dia eu chupei umbu
porque estava com sede
era chupando e jogando
as cascas fora da rede
eu comprei a seu Pacheco
Umbu secando, umbu seco
umbu maduro, umbu verde.
C. Eu viajei no sertão
mas o tempo estava seco
quando lá falta inverno
o povo quebra no bê
chupei pra matar a sede
umbu maduro, umbu verde
umbu secando, umbu seco.
G. Namorei uma sertaneja
já vi namoro seguro
chupei umbu à vontade
a moça me disse: eu te juro
que tiro de quando em quando
umbu seco, umbu secando
umbu verde, umbu maduro
C. Eu vi um mouco serrando
um toco, uma certa vez
uma mouca chamada Inês
foi também se aproximando
o pó ficou aparando
sorrindo de fazer dó
e rodou numa perna só
namorando com o mouco
o mouco serrava o toco
e a mouca aparava o pó.
G. O mouco beijava a mouca
e a mouca beijava o mouco
ele estava quase rouco
e a mouca meia louca
deu-lhe um beijos na boca
que assanhou o pitó
o mouco foi pró forró
e lá tomou água de coco
o mouco serrava o toco
e a mouca aparava o pó.
C. Vi o mouco mais a mouca
trabalhando no roçado
era um namoro danado
ela estava meia rouca
fazendo uma força pouca
o mouco inchava o gogó
e disse: Eu como mocotó
todo dia e não é pouco
o mouco serrava o toco
e a mouca aparava o pó.
G. O mouco olhava para mouca
e a mouca olhava pró mouco
ele ficou meio rouco
de beijar na sua boca
e a mouca quase louca
beijava ele sem dó
os dois faziam uma mó
como quem cantava um coco
o mouco serrava o toco
e a mouca aparava o pó.
C. Pois o mouco namorava
com a mouca todo dia
olhava ele e sorria
e ela lhe abraçava
com ele se entrançava
lhe chamando: Meu Xodó
ele tinha um olho só
e pela mouca ficou louco
o mouco serrava o toco
e a mouca aparava o pó
G. A mouca perto do mouco
aparava com a mão
o pó que caía no chão
mas o mouco ficou louco
um dia lhe deu um socó
e ela arrochou-lhe o gogó
o mouco de paletó
parecia um galo choco
o mouco serrava o toco
e a mouca aparava o pó.
C. O mouco disse prá mouca:
- Dizem queu sou meio mouco
mas por você vivo louco
quero beijar sua boca
disse a mouca: Eu fiquei louco
por você meu xodó
vou sair do caritó
pra comer peixe de coco
o mouco serrava o toco
e a mouca aparava o pó.
G. O mouco ganhava pouco
serrando pau todo dia
mas a mouca lhe dizia:
- Sei que você não é louco
trabalha que fica rouco
e pra desatar o nó
ela dançava forró
sendo encondida do mouco
o mouco serrava o toco
e a mouca aparava o pó.
Cachimbinho canta bem
O Geraldo é competente
Sabe improvisar repente
Trabalhando muito vem
Até em São Paulo e também
Lá no Rio de Janeiro
E no Nordeste brasileiro
Inda vão cantar trocando
Tem mais um disco gravado
Enchendo o Brasil inteiro.
(DUARTE, Manuel Florentino; LEITE, José Costa; PACHECO, José; SOARES, José. Literatura
de Cordel - Antologia p. 161-167) |
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