Dezembro
2001
Ano IV - nº 40 |
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1
Amigo Juca. Eu cheguei,
Da marcha um pouco delgado,
Mas os pastos da cidade
Já me têm embarrigado.
2
Achei encosto e abrigo,
E mui regular aguada;
Para um homem da coxilha
Não é má esta invernada.
3
Mas assim um pouco arisco,
Sempre as orelhas trocando,
Vejo coisas mui estranhas
Que me vão ressabiando.
4
Como avestruz na macega,
Nas ruas vivo enredado,
Sem querer, gambeteando
Para um e outro lado,
5
Usam aqui as muchachas
Uma tal saia-balão;
Coisa feia, amigo Juca,
Por Deus e um patacão!
6
São tão duras as tais saias,
Como a casca do tatu;
Têm mais voltas que a mangueira
Lá do cerro do Baú.
7
Quando passeia, uma moça
Vai rodando como a lua;
Se ela fica embarrancada,
Adeus caminho, adeus rua!
8
Corcoveando mui feio
Anda sempre o tal balão;
Prega às vezes cada tranco
Que nem bagual quebralhão!
9
Por vida! que toma campo
Capaz de dar um potreiro;
Em caso de temporal
Pode servir de telheiro!
10
Essa madama tem feito
Muito mal, meu bom amigo;
E já de golpe vou dar-te
A razão do que te digo.
11
Tu não ignoras, amigo,
Que, mesmo eu sendo um gaúcho,
Lá nessas coisas do amor
Às vezes dou o meu puxo.
12
A tua prima Nicota
Desses pagos era a luz,
E sempre entre guapas moças
Fazia primeira ou fluz.
13
Por Deus que nesse rincão
Não encontrava parelha;
Em prendas e formosura
Ninguém le sacava orelha!
14
Quando ao rufo da viola
A tirana aí dançava,
Era um gosto, amigo, ver
Como ela se meneava!
15
Com saudade inda me lembro
De um dia em que lá cantei,
E de amores abombado,
Este verso lhe botei:
16
- És branca como jasmim,
Colorada como a rosa;
Por teu amor eu daria
Uma terneira barrosa!
17
Que o pealo era pra ela,
Logo a menina entendeu:
E sem cortar-me a partida,
Ligeiro, me respondeu:
18
- Não sou jasmim nem sou rosa,
Eu sou no mais um botão;
Guarda lá tua terneira,
Só quero teu coração!
19
Como um changueiro na cancha
Alegre fiquei, amigo,
E fresco retouçaria,
Inda que visse o perigo!
20
Qual aspa de boi brasino
Nessa hora me senti;
Só lhe disse - Deus lhe pague
Pois quase a fala perdi.
21
Louco e cheio de amor,
Andava como um demônio,
E já queria meter-me
No curral do matrimônio.
22
Qual um mancarrão cansado
Que mal apenas tranqueia,
Fico hoje abichornado
Quando me vem tal idéia.
23
Parece que a minha bela
Por lá sentiu a mutuca:
Deixou a querência velha,
Ficou perdida, meu Juca.
24
Encontrei-a um dia destes;
- Caramba, que bicho feio!
Era uma saia que andava,
E ela fincada no meio!
25
Andei-lhe por derredor,
Como boi lá na atafona,
E gritei-lhe bem de rijo:
- Deus lhe dê saúde, Dona!
26
A mão lhe quis apertar,
Espichando bem o braço;
Cuê-pucha! se estava longe.
A um comprimento de laço!
27
Mais triste do que um reiúno,
Nessa hora me senti;
Tinha a menina mais bojo
Que o Cerro de Batovi!
28
- Entonces, fica de largo?
(Me diz ela, meio arisca)
Seu Manduca, não me acha
Um tanto ou quanto faísca?
29
Cuê-pucha! (lhe retruquei),
Como hei de arrimar,
Se só a tiro de bolas
Daqui lhe posso chegar?
30
Nisto chega um cajetilha
Mui alegre e rufião,
Acolherou-se com ela
E já me ganhou de mão!
31
Fiquei baqueando, amigo,
Enquanto a minha adorada
Levava tudo por diante,
Como tropa em disparada!
32
Decerto o tal roseteiro
Daquele lado, tem rasca
Hei de escorá-lo... e talvez
Le faça engolir a masca...
33
Escarvando como um touro
Ali havia ficado;
De repente me senti
Pra diante repontado:
34
Era uma ponta de moças,
Cada qual com a tal saia
Podia uma só cobrir
O cerro da Sapucaia!
35
E de golpe se elevando
Uma forte ventania,
Por esses ares, amigo,
Eu pensei que tudo ia.
36
Quis fugir a toda a rédea,
Porém mui feio rodei,
E, como sorro manhoso,
Aí deitado fiquei,
37
Os tais balões das muchachas
Redemoinhavam à toa,
E vi, meu Juca, perninhas,
Como junco de lagoa!
38
Os tais balões, meu amigo,
Trazem sempre grande mal;
Às vezes, de couro fresco,
Nos fazem levar buçal.
39
Com ele as vivarachas
Ganhando vão a parada...
E depois, o que encontramos?
Casca, só casca, mais nada!
40
Pois vou esbarrar o pingo,
Que já vai meio aplastado;
Por outra vez te direi
Um mais comprido recado.
41
Memórias à tia Rosa
E à comadre Maruca;
E no mais, manda a quem é
O teu compadre, Manduca.
II
1
Amigo Manduca. Recebi
A carta que me mandaste
E - por Deus! - te digo, amigo,
Que me ri do que contaste.
2
Tive lástima de ti
Quando soube que rodaste
Varando os balões por cima...
Que vergonha não passaste!
3
Mas não me espantou, amigo,
O que aí te sucedeu,
Porque um caso igual a esse
Também já me aconteceu.
4
Andava lá na cidade
Num matungo caborteiro,
Ia ao tranquito no mas,
Monarqueando folheiro.
5
Quando, ao varar uma rua,
Ia o pingo escarceando,
Me saem de um boqueirão
Dois balões corcoveando!
6
Ah! pingo! amigo Manduca!
Sentou de golpe e bufou;
E eu encostei-lhe as chilenas
E aí, no mas velhaqueou!
7
Por esses ares berrando
Se atirou o mancarrão,
Mas perdeu-se num corcovo
E veio de lombo, no chão!
8
De rédea na mão, saí,
Mas pechei-me coo balão,
Que vinha erguido na frente
À maneira de alçapão...
9
Planchei-me nessa pechada
E o balão enveredou;
Fiquei eu debaixo dele
E o pingo também ficou.
10
Quando se ergueu, o bagual
Alçou a cola e disparou,
Mas então a sorte foi
Que o balão o encurralou.
11
Correu como quatro quadras
Em volta da tal mangueira,
Mas a menina foi viva,
Que lhe trancou a porteira.
12
Saquei da cintura as bolas
E na volteada escorreguei,
Mas sacudi meio a rumo
E nos garrões lhe cruzei.
13
Deste sucesso, esquentado,
E mascando a polvadeira,
Lá do fundo já gritei:
- O sia dona, abra a porteira!
14
E desde esse dia, amigo,
Nunca mais voltei ao povo,
Pois dessa feita fiquei
Com cara de laço novo.
15
Por isso creio o que dizes
A respeito dos balões
São mui feios nas mulheres,
Porém são bons curralões.
16
Saudades manda a Maruca
Que está linda e mui morruda,
Alentada e sã de lombo,
Cada vez mais cogotuda.
17
Memórias da tia Rosa,
Que a respeito de picanha
Andará batendo orelha,
Se a Maruca não lhe ganha.
18
E te convidam, Manduca,
Pra de volta te apeares;
Tomarás um chimarrão
Enquanto aqui panteares.
19
Com o teu amigo velho
E verdadeiro rapaz
Que se assina por costume
Juca Torena, no mas!
(Meyer, Augusto. Cancioneiro gaúcho) |
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