Dezembro
2001
Ano IV - nº 40 |
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Foi o Calangro na casa
De seu tio o Papavento.
Tomou a benção e disse,
Antes de tomar assento:
- Venho lhe pedir a mão
Duma filha em casamento.
Papavento respondeu-lhe:
- Tua linhagem descobre,
És ainda meu parente,
Descendes de sangue nobre;
Mas não te dou minha filha,
Porque não passas dum pobre.
- Bem conheço que sou pobre,
Não preciso que me diga;
Mas não se fala em pobreza,
Quando forte amor nos liga.
É melhor o senhor dar
Do que haver uma intriga!
Papavento respondeu-lhe:
- Em vista de teu assunto,
Eu, como pai de família,
Uma coisa te pergunto:
Se fora do dia de hoje
Com ela já andaste junto?
Calangro lhe respondeu:
- Meu tio, deixe de asneira,
Que fora do dia de hoje
Temos feito muita cera
E temos andado juntos
Até uma semana inteira
Papavento disse então:
- O que me dizes afronta,
Pois és tu bem atrevido
E minha filha uma tonta!
Podes ir tratar dos banhos
Que a dispensa dou já pronta.
Calangro saiu aos saltos
De tanto contentamento,
Não parava mais em casa,
Não trabalhava um momento,
Passava dias e noites
Na casa do Papavento.
Papavento, quengo velho,
Mestre na velhacaria,
Disse à mulher: - Que vem ver
Calangro aqui todo o dia,
Tome cautela com ele,
Viva co a moça de espia.
No outro dia, o Calangro
Foi de novo ver a prima.
Achou-a longe da casa,
Trepada num pé de lima.
Calangro falou em baixo.
Ela respondeu de cima.
Disse ela, então, ao Calangro:
- Não sabes, meu namorado,
Que esta noite ouvi papai
Falando bem agastado?
Calangro disse: - Me conte
O que aqui foi passado!
- Papai disse à minha mãe
Que queria lhe pedir
Para que você deixasse
De lá tantas vezes ir;
Mas, se ele nos fizer isso,
Só tem de ver eu fugir!
Calangro olhou para a prima,
Achou-a muito amarela,
Foi ao Papavento e disse:
- Fique com sua donzela,
Que eu não sirvo de remendo!
Cace um que case com ela!
Papavento gritou: - isto
Não é coisa que se faça!
Se o seu pai não der jeito,
Você não gosta da graça:
Ou casa com minha filha,
Ou se acaba nossa raça!
Foi a noiva se queixar
Ao pai de seu namorado,
Dizendo ao velho: - Meu tio,
Tenha dó do meu estado,
Pois eu não sou cão sem dono,
O Calangro está enganado!
E, se o senhor não der jeito,
Eu me queixo ao Delegado,
Meu pai tem dinheiro e gasta,
Sendo feio o resultado!
Seu filho inda é muito moço,
E tem de ser recrutado!
O pai do Calangro disse:
- Não tenho jeito que dar!
E a noiva de acolá mesmo
Saiu para se queixar
Ao Capitão Cururu,
Delegado do lugar.
Cururu ouviu a queixa
E saltou fora do poço,
Dizendo entusiasmado:
- Vamos ter barulho grosso!
A Excelentíssima volte,
Que mando prender o moço!
Tocou logo uma buzina,
Que ficou tudo assombrado!
Numa hora, os alagadiços
Estavam cheios, de soldado!
Todos gritavam a um tempo:
- Às ordens do Delegado!
- Vão em casa do juiz,
Para passar o mandado
Do oficial de justiça.
Quero o Calangro intimado,
Porém, se ele resistir,
Tragam morto ou amarrado!
O sargento disse ao cabo:
- Bote os soldados na frente!
Eu não vou que sou casado.
Calangro é homem valente,
Se pegar ele nas armas,
Hoje mata muita gente!
Aí disse o oficial:
- Vão indo devagarinho!
Primeiro cerca-se a casa,
Em piqueta-se o caminho.
Vocês segurem o cerco,
Que eu pego o bicho sozinho!
O oficial era o Gato,
Que conduzia o mandado.
O Calangro, quando ouviu
Dizer que estava cercado,
Berrou de dentro pra fora:
- Não deixo vivo um soldado!
O Gato, então, respondeu:
- Quem vai dar leva seu saco!
Saia fora, vamos ver
Qual de nós dois é o mais fraco!
A essas palavras, Calangro
Veio à beira do buraco.
O Gato pulou de cá,
Segurou-o pelo rabo
E foi dizendo: - Se renda,
Senão aqui mesmo o acabo!
Calangro grita: - Estou preso!
Vá acabar com o diabo!
Nessa luta que tiveram,
Deixaram Calangro nu;
Mas assim mesmo o levaram
À vista do Cururu,
Que o interrogou, lhe dizendo:
- Que foi que fizeste tu?
Disse o Calangro: - O que fiz
É coisa que não ofende,
Eu quis casar com a prima,
Depois ... o senhor entende...
Julgo até que não tem crime
Quem a tempo se arrepende.
Cururu disse: - O senhor
Caiu num bem grande artigo
E, para punir a honra,
Sou rigoroso consigo:
Ou se casa, ou assenta praça,
Ou na forca é seu castigo!
- Eu não queria casar,
Porque me vejo em atraso
E não quero assentar praça
Para ser soldado raso;
Mas, em vista do que diz,
Se hei de morrer, antes caso.
Disse o Cururu: - Vão ver
Pra casa do Papavento
O Padre Tamanduá,
E dêem à festa andamento,
Que dentro destes três dias
Se fará este casamento.
Convidem Dona Raposa
Pra da noiva ser madrinha
E que ela veja se arranja
Pra festa alguma galinha,
Para os gastos ajudar,
Que a outra despesa é minha
Foram ver o Tejuassu
Pra do noivo ser padrinho,
Ele disse ao portador,
Quando vinha no caminho:
- Se me dão ovos, eu vou,
Sabem que não bebo vinho!
Mais outra coisa também,
Para eu não ir enganado:
Sabe se o Major Cachorro
Pra festa foi convidado?
Se foi, eu volto daqui,
Pois é comigo intrigado!
Finalmente se juntaram
Raposa e Tejuassu,
O Papavento e a mulher,
A Seriema e o Urubu,
Padre, noivos, convidados,
Só faltando o Cururu.
O Urubu foi convidado,
Fez comida muito ruim,
Somente deu para o Padre
Uns pedaços de cupim,
Que ele comia, dizendo:
- É pouco, só dá para mim!
Quando a mesa estava posta,
Um guarda à porta espiava
E foi, então, avisar
Que o Cachorro já chegava.
Tejuassu levantou-se
E disse que não ficava.
Disse a Raposa: - Não saio,
Deixando meu prato cheio!
Tejuassu disse: - Eu corro,
Porque o barulho aqui é feio!
Nisto, o Cachorro pegou-o
E cortou-lhe o rabo ao meio!
Saiu o Tejuassu
Danado pela floresta,
Levando pedras e paus,
Todos de eito pela testa!
Encontrou Camaleão
Que inda vinha para a festa.
Camaleão, quando ouviu
De seu parente a zoada,
Assombrado perguntou:
- Que aconteceu, camarada,
Temos barulho na festa,
Ou me vem com caçoada?
- Caçoada o que, seu mano!
Foi barulho do diabo!
Major Cachorro chegou
Pior do que leão brabo,
Botou-se primeiro a mim,
Veja o que fez no meu rabo!
O Urubu voou pra cima,
Com medo do reboliço;
Mas, vendo ficar no chão
Aquele rabo maciço,
Desceu de novo e pegou-o,
Dizendo:- Eu não deixo isso!
Calangro, vendo o perigo,
Saiu, bem desconfiado,
Lastimando que o padrinho
Fosse assim desfeiteado.
A Seriema pegou-o
E fez dele um só bocado.
Gavião soube da festa
E pôs-se num pau, de espia,
Por onde a pobre da noiva,
Amedrontada subia.
Pegou-a nas unhas, disse:
- Isto mesmo é que queria!
Tamanduá levantou-se
E falou no pé da goela
Do Cachorro, lhe dizendo:
- Um de nós se desmantela!
Você não pode acabar
Festa em que eu estiver nela!
E, ditas estas palavras,
Ao inimigo pegou.
Viu-se o Cachorro apertado,
Pelo seu dono chamou,
O qual, vindo em seu auxílio,
Ao Tamanduá matou!
Saiu o Major Cachorro
Todo chagado e doente.
Ouvindo uma tropelada
Que corria em sua frente,
Conheceu que era a Raposa
E a chamou, muito contente.
- Venha cá, moça bonita,
Venha me contar a festa.
A Raposa respondeu:
- O que? Que conversa é esta?
Não quero prosa consigo,
Que sua graça não presta!
Chegou o Cachorro em casa
Muito cansado e ferido.
A mulher lhe perguntou:
- Que foi isso, meu marido?
Se tomasses meus conselhos,
Tal não tinha acontecido!
Ora, aprende à tua custa,
Que é para teres cuidado!
Agora, enquanto viveres,
Desta ficarás lembrado!
Isto acontece a quem vai
Em festa sem ser chamado!
(Em Barroso, Gustavo. Ao som da viola, p.546-554) |
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