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Sumário | Festança | Cancioneiro | Imaginário | Oficina | Palhoça | Colher de Pau | Panacéia | Catavento

O SIMPLÓRIO QUE FOI À MISSA

Um moço muito bobo morava num sítio e nunca tinha ido à missa.

Sua mãe, vendo ele já grandão, falou pra ele que já era tempo dele dar um jeitinho de começar a freqüentar igreja, como faz todo homem de bem.

O caipira ficou muito afobado esperando o domingo. Logo que amanheceu, como se tratasse do maior fato da sua vida, tomou um bom banho, vestiu seu terninho de brim, calçou as botas e, na hora que ia saindo, perguntou pra mãe como é que tinha que fazer quando estivesse na missa.

A mãe disse:

- Não tem nada de difícil; é tudo muito simples. Você entra e senta. O que todos fizerem, você faz também.

O bobo partiu a cavalo, muito durinho dentro do terno, chegou e entrou na igreja. Começou a chegar muita gente e o moço, levando tudo muito a sério, não se esquecia de prestar atenção nos outros imitando direitinho tudo o que os outros faziam. Chegava um, fazia o "pelo-sinal" e sentava; ele também. Fez isso não sei quantas vezes.

Depois a igreja lotou e começou a missa e o moço ali, sempre olhando pro lados, muito atencioso, seguindo, muito sério, o "levanta-senta", "ajoelha-se benze" de todo o povo.

Mas numa hora olhou pro banco de trás e viu umas velhas que punham o véu preto na cabeça. Daí, ele ficou desesperado. Como é que ele iria fazer? Mas não se apertou.

Como estava ajoelhado, puxou as pernas das suas calças por detrás e cobriu a cabeça com elas, ficando só de ceroulas. Uma das velhas lá atrás ficou escandalizada e deu-lhe um valente tapa no traseiro. O moço vai, e pensando que aquilo fazia parte da missa, manda outro tapa no traseiro de um homem que estava na sua frente.

Quando o homem que tomou o tapa se vira para ele, assustado, ele, muito respeitoso, baixinho, lhe diz:

- Vai passando prá frente, que já vem vindo de trás...

Sebastião Alves de Camargo

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O FEIJOAL

Um homem num sítio tinha um cavalo de muita estimação, mas que já estava velho, coitado, já com as pernas moles e meio cego.

O dono viu que ele não servia mais prá nada, mas ficou com dó de matar ele. E viu também que ele tinha uma "pisadura" grande nas costas, estava tudo aquilo muito feio, tudo em carne viva.

O homem resolve soltar ele pra que ele fosse embora. Meio coração apertado, toca ele pra estrada, dá um tapa na anca e fala: "vai cuidar da sua vida!" Mas vê aquela pisadura, fica com dó e com medo que aquilo arruinasse, tomasse muito sol e criasse bicho, pega então um saco de feijão e põe nas costas do cavalo, em cima da ferida. Assim aquilo protegia a machucadura dele.

O cavalo vai e passa então muito tempo. Um belo dia, estava o homem com a mulher no terreiro debulhando milho, quando escuta um "tropé", assim como bulha de galope, que vinha lá de longe. Olham e eles vêem lá adiante uma mataria andando.

Fazer o "pelo-sinal" : "Crendospadre!" Donde se viu mato andar? Mas olharam bem e viram que era o cavalo que vinha voltando com um feijoal muito bonito que tinha nascido nas costas dele.

Aquilo estava que estava viçoso! E tudo pronto já pra colher. Sei dizer que falam que o homem e a mulher, garraram colher e bater feijão que deu pra bem uns dez sacos!

Sebastião Alves de Camargo

 

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A CAÇAROLA NA CABEÇA

Uma mulher que morava numa cidade, mal o marido saía, recebia na casa o seu conquistador.

Um dia o marido ia voltando e ia pegar os dois. O homem ficou tremendo de medo, sem saber o que fazer, mas a mulher, que era muito sabida, falou pra ele:

- Escute eu e fique quieto. Se esconda atrás da porta da rua. Quando eu estiver conversando com ele e falar no meio da prosa: PASSE! PASSE!, você pega, sai e vai embora.

O homem se escondeu. O marido entrou e a mulher, muito contente, chega pra ele agradando muito e foram pra cozinha e ela foi contando pra ele a briga duma vizinha com o marido, naquele dia.

Contando, contando, no fim ela fala:

- E olhe: pra encurtar a estória, já cheia dos gritos deles, pegou numa caçarola e enfiou na cabeça dele!

E o marido, muito admirado:

- Não diga!

- Foi isso mesmo! Enfiou a caçarola na cabeça dele! Assim, veja!

E a mulher, pra mostrar melhor pro marido como é que tinha sido, passou a mão numa caçarola dela e enfia na cabeça dele:

- Assim

O marido:

- Mas que mulher! Ah, se fosse eu! Se fosse eu!

A mulher, ainda segurando a caçarola na cabeça do marido, continuou contando:

- ... e ela ainda por cima falava: "Eu ainda te passo uma faca na barriga!" E o marido gritava então: PASSE, então! PASSE! PASSE! PASSE!

O outro, lá detrás da porta, escuta então a palavra que a mulher tinha combinado, sai e chama no pé.

O marido não viu nada.

Era uma mulher sabida mesmo!

Sebastião Alves de Camargo

OS NOVE MESES

Um preto meio bobo se casou, e logo três meses depois a preta teve família.

O preto ficou cismado, pensou, pensou, e chamou a mulher:

- Isso "num" "tá" certo, Maria! Minha mãe sempre falava que "famía" vem sempre só depois de nove "mêis" de casado. E você já "tá" aí com o nenê?!

A mulher:

- Ara, Dito! Quem falou "procê" que é nove "mêis"? É "trê mêi" "mêmo"!

O preto não acreditou e continuou na cisma.

A preta falou:

- "Ói". Senta aqui. Veja bem:

"Trê mêi": "ocê" "casô" "cumigo".

"Trê mêi": eu casei "cô" "ocê".

"Trê mêi": "nóis" "tamo" casado.

Some: não são nove "mêis"?

O preto fez as contas com os dedos:

- "Trê" "cum" "trê", "sê"; é "trê", nove.

E deu um risadão de contente:

- E é "mêêêêêmo"!!!

Sebastião Alves de Camargo

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O ITUANO

Diz que num quartel estava chegando a turma de moços que tinha ido servir o governo naquele ano.

Estava uma fila grande no pátio, diante duma mesinha, onde um sargento, sentado, ia tomando nota das coisas da vida deles pra papelada.

Quando chegou a vez dum moço, o sargento perguntou pra ele:

- Onde é que você nasceu?

E o moço respondeu:

- Itu.

Daí o sargento olhou pra ele, espantado:

- Se é que te interessa saber alguma coisa da minha vida, fique sabendo: eu nasci em São Paulo, e daí? Mas nós não temos tempo a perder: onde é que você nasceu?

E o moço outra vez, com aquela cara de inocente:

- Itu.

Aí o sargento diz que dá um safanão na mesa, joga a caneta longe, levanta brabo e chama um ordenança:

- Pelo que eu estou vendo, já de cara, temos um engraçadinho aqui nesta turma nova! Leve este moço pra cadeia já! Já começou bem!

E o coitado do rapaz vai preso pra cadeia do quartel.

No outro dia é que foram explicar pra esse burro de sargento, que tinha uma cidade chamada Itu e o moço era até muito educado e não estava perguntando pra ele: "E tu?", perguntando onde é que ele tinha nascido.

Oswaldo Gomes Felipe

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O PINTOR E O PAPA

Diz que tinha um pintor muito pobre. Então o Papa combina com ele pra ele pintar o palácio do Papa. O pintor foi.

Mas demorou trinta dias pra terminar, e quando deu a conta pro Papa, ele não quis pagar, achando que ele tinha demorado muito no serviço.

O pintor, então, não fez caso, mas pegou o pincel, subiu na escada e escreveu doze vezes a letra P na fachada do palácio do Papa. E foi embora.

Um dia o Papa saiu pra fora e deu com aquele letreiro na porta: P, P, P, P, doze vezes! Chamou todo mundo: contadores, advogados, médicos, tudo gente inteligente que ele conhecia, pra ver quem decifrava aquilo. E ninguém foi capaz.

Daí ele mandou chamar o pintor. Ele chega e o Papa pergunta pra ele o que queria dizer aquilo.

Então o pintor falou:

- Eu só explico se o senhor pagar a conta.

O papa disse que pagava e o pintor, então, leu pra ele:

- Doze P. Isso quer dizer: POBRE PINTOR PEDRO. PINTOU PALÁCIO PAPA. PAGUE POBRE PINTOR PEDRO, "PÓRCO" PAPA!

Sebastião Alves de Camargo

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O PRETO VELHO E SÃO BENEDITO

Tinha um preto velho que era muito religioso, não perdia missa nem procissão.

Um dia ele estava numa procissão e estava carregando o andor de São Benedito, que era um santo que pra ele era como se fosse irmão, de tanta devoção que o preto tinha por ele.

A procissão ia indo, ia indo. Quando virou numa esquina, o preto viu no chão uma nota de dez mil réis, ali, caída no meio da rua.

O preto velho ficou muito contente de achar aquilo e se agacha pra pegar o dinheiro. Mas quando se abaixava, o andor também arreava, pois o preto estava carregando ele.

Quanto mais ele se abaixava, mais o andor descia.

Então daí, diz que o preto deu uma olhada prá cima e falou assim prá são Benedito:

_ "Carma", Dito". "Num" venha "cum" essa, não! Fui eu que vi a nota primeiro!

E catou o dinheiro, pôs ele no bolso e continuou andando.

Seu Manuel

( Fernandes, Waldemar Inglésias. Lendas e crendices de Piracicaba e outros estudos.)

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