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Natal

Então, numa encruzilhada, os três Reis Magos viram um homem que se apoiava a uma pedra. Como era dia via-se pouco a estrela. E os três Reis Magos, desconhecendo os caminhos, tinham um certo receio.

- Se perguntássemos àquele homem alguma coisa?

- É uma curiosidade vã.

- A curiosidade dos viajantes.

- Pois seja.

Baltazar aproximou-se.

- Homem, desejamos uma informação.

- Fala.

- Vamos ver o nascimento do Senhor do Mundo.

- Ah!

- Seguimos bem por aqui?

- Seguem.

- É num palácio que ele nascerá?

- É numa pobre manjedoura perdida.

- Como sabes?

O homem sorriu.

- Reis, eu sou um profeta e sou um vidente. Mas o destino tem surpresas. Poderia contar-vos tudo quanto se vai passar com o Salvador do Mundo e a nada poderia entretanto obstar.

- Realmente?

- Eu duvido um pouco.

- Dúvida temerária. Vós outros ides desaparecer, vós outros que nada mais sois que os representantes das três raças. O Salvador nascerá entre perigos, viverá entre perigos, e se apoiará nos ignorantes para lançar sua fé. Pregará o perdão, e a igualdade, o amor. E os simples que são bons e virgens de alma a propagarão.

- Depois?

- Depois será traído pelo único homem instruído dos seus discípulos. O saber é desconfiado e pretensioso. Morrerá infamemente numa cruz.

- O Salvador?

- Exatamente.

- Mas como pode ser salvador, se não terá poder?

- Por isso mesmo. Ele se deixará matar para redimir o mundo.

- E o mundo será redimido?

- O mundo continuará infame, mas com o nome de Jesus como um sol da bondade.

- Tu és, homem, um adivinho. Falas do homem que vai nascer com respeito. Não poderias evitar as suas desgraças?

- Reis magníficos - o saber nada pode. Pode mais uma criança do que um profeta. O saber envenena a alma e tira a coragem - porque de antemão vemos a inutilidade do esforço diante do inexplicável e inexorável Destino. Para ser grande e praticar grandes coisas é preciso crer.

O senhor hesita.

- Homem, és amargo.

- Depois se eu pudesse modificar o Destino, se eu tivesse de intervir na vida do Salvador, o meu desejo seria tomar o seu lugar.

- Mesmo com a cruz? Mesmo com os sofrimentos?

- Mas com a glória eterna! O saber só ama a glória. Todos os sacrifícios são insignificantes diante da fama. E só os simples a alcançam sem o amargor de invejá-la - porque não sabem. Segui o vosso caminho, bons Reis. Haveis de chegar porque não sabeis o caminho...

Os Reis entreolharam-se, sorriram. Era de certo um doido!

Trocaram os camelos e foram-se. O homem ficou só, ignorado Natal de Deus, pureza do mundo... Ainda hoje é assim. Fica sempre só o homem que sabe...

Sob o pseudônimo “Joe”, na Revista da Semana, 23 de dezembro de 1916

(Em Barreto, Paulo. Crônicas efêmeras; João do Rio na Revista da Semana)

João do Rio, por J. CarlosDezembro

Ah! Minha cara amiga, prognósticos para dezembro, e quando dezembro está já em meio? Durante o ano, mais rápido do que um mês, a senhora teve a insistência de querer todos os meses prognósticos. Ora, nada do que a gente pensa realizar-se - realiza-se. Antes, só se realiza aquilo com que não contamos. Daí a surpresa da vida.

Francamente, a minha encantadora amiga, contou com os imprevistos deste ano - que finda? E, entretanto, eles foram os únicos interesses da torrente que foi o ano!

Prever é matar o interesse, a surpresa. Assim, em pleno verão aparecem Suzanne Desprès, a Verneuil, a petite Verneuil, e Lugné Poe, cada vez mais filosófico, em pleno novembro. Imprevisto! Vamos ao teatro vê-los, sem pensar o que eles farão. Imprevisto!

A petite Verneuil dançando no palco do Municipal, seria para nós inconcebível. Ninguém poderia prever, nem mesmo a encantadora atrizinha, essa justa posição: danças de Verneuil e palco do Municipal, como ninguém poderia pensar, por exemplo, em bailados da atriz Adriana Noronha no palco da Ópera de Paris.

Pois a petite Verneuil dançou. Imprevisto. E resolvemos todos achar aquilo encantador. Mas Lugné tinha mais imprevistos. E nesse palco representou uma cena de Maeterlinck sem cenários, e uma cena de Molière com o velario quase corrido, seguro por dois vigorosos marçanos, cujos pés eram vistos pela platéia, enquanto Suzanne Desprès recitava, olhando aterrada os ditos pés:

"Et vous, petits amours..."

Imprevistos! Sempre imprevistos! Se houvesse quem adivinhasse o futuro, a simpática madame Olímpica, cartomante e costureira, não teria a surpresa que teve no mês de novembro, nem nenhum de nós teria gozado os imprevistos do ano inteiro...

Que lhe poderia, por conseqüência, dizer eu, com confiança, à propósito de dezembro?

Só coisas absolutamente fatais, e ainda assim com condicionais e a ressalva do - "parece". Exemplos.

- Dezembro acabará a 31, se realmente a vida não é toda um vasto mês de dezembro!

- A Câmara, parece, encerrará as suas sessões, se, por economia, os deputados não resolverem prorrogá-las...

- É provável que muita gente suba para Petrópolis, se não se der o contrário.

Etc.

Apenas, minha ilustre amiga, só uma coisa não acabará com dezembro, se dezembro acabar - é a imensa tolice universal. Não acabará em dezembro nem nos meses, nos anos, nos séculos a vir. Porque a tolice é definitivamente eterna!

E creia no seu muito do coração, em dezembro como nos outros meses.


Sob o pseudônimo "Joe", na Revista da Semana, 9 de dezembro de 1916

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