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Dezembro 2000
Ano III - nº 28

AMULETOS, CUIDADOS E SUPERSTIÇÕES RELATIVAS ÀS CRIANÇAS

Para evitar-se certos males que podem provir às crianças, pendura-se-lhes ao pescoço uma infinidade de tetéias enfiadas em um cordão de ouro ou de retrós preto, em que, principalmente figuram, além das figas e búzios, pelas suas preconizadas virtudes, como vimos, um São Braz, para livrá-las de engasgos e moléstias de garganta; um São Sebastião, contra a peste; um busto de São João Batista, para não sofrerem de dores de cabeça; um signo-Salomão para livrá-las de influências funestas; um dente de cão, para evitar coisas más; medalhas milagrosas com fins piedosos, e dentes de jacaré e de aranha caranguejeira, e um caroço de azeitona, para facilitarem a dentição, além de muitos outros objetos de virtude desconhecidas, como o sol, a lua, moedas de ouro e prata, etc.

Para evitar as convulsões há, entre outras coisas de proverbiais virtudes, os afamados colares elétricos de Royer; para facilitar a dentição, a semente da Guilandina pinosíssima, vulgarmente conhecida por carnícula; para acudir o leite às senhoras que amamentam, as preconizadas contas de leite; e para extingui-lo, secar o leite, um rosário formado de pequenos pedaços do talo tubular das folhas do carrapateiro (ricinus comunis).

Os primeiros banhos dos recém-nascidos são de água morna com um pouco de vinho, e deve-se deitar na bacia um objeto qualquer de ouro, para que eles sejam ricos e felizes. Não se banha ao sétimo dia do nascimento, e nem no dia do batizado; e quando cai o umbigo, convém lançá-lo ao mar, para não morrerem afogados e livrarem-se de naufrágios; e enquanto não se cumpre esse preceito deve-se guardar a pelica com todo o cuidado para não ser roída dos ratos, o que acontecendo trará grandes males à criança. porque é isso prenúncio de uma triste sina.

O resguardo das parturientes varia segundo o sexo do seu primeiro filho. Se for homem, será de quarenta dias, e mantido depois invariavelmente, apesar mesmo do nascimento de crianças de outro sexo; se for mulher, de trinta dias, seguindo-se depois a mesma regularidade.

Faz perder a felicidade às crianças impor-se-lhe outro nome que não seja o de um dos santos que o calendário consigna no dia do seu nascimento.

É mau dormirem os recém-nascidos às escuras, pelo menos enquanto não forem batizados; e dar-se-lhes beijos à boca, para não criarem sapinhos (aftas).

Para endurecer o pescoço de uma criança ainda tenra, ata-se-lhe, em volta, um torçal de retrós preto; para falar depressa dá-se-lhe a beber das primeiras águas de janeiro, e não se deve absolutamente mostrá-la ao espelho, porque isto faz retardar-lhe a fala...

Goza também de grandes preconícios para uma criança falar depressa, dá-se-lhe água em um chocalho; e diz-se mesmo que com isto não só se consegue começar imediatamente a desenvolver-se essa faculdade, como ainda, que as crianças tornar-se-ão verbosas e loquzes. É daí, talvez, que vem dizer-se de um tagarela que fala pelos cotovelos, que - bebeu água de chocallho.

Para uma criança andar depressa levam-na à missa, isto é, ao toque de chamada dos fiéis para assistência do ato, pegam-na pelos antebraços, e anda-se com ela, como que de caminho para ouvir missa, pronunciando-se por três vezes:

Correi, correi
Nossa Senhora de Belém
Dai perninhas
A quem não as tem

Quando porém a criança é muito braba, chorona e impertinente, vai uma pessoa enjeitá-la à porta de uma igreja qualquer, e logo após uma outra a conduz para casa, conseguindo-se com isto o almejado fim. Este serviço, porém, é feito à noite, e com umas certas cautelas para não ser presenciado.

Nos partos difíceis, sem falar no miraculoso breve das parteiras, que elas colocam pendente do pescoço das parturientes, o que é nada mais nada menos que um saquinho de pano ou couro, contendo uma oração, muitas vezes banal, imundo objeto, enegrecido já e revestido de uma grossa crosta sebácea e lustrosa pelo dilatado uso; e nem mesmo na concorrência de objetos religiosos pelos influzos de piedosas crenças; basta colocar na cabeça da parturiente um chapéu de homem, e a criança nasce logo, sem o menor incidente!

Menino só é anjo e vai para o céu três dias depois de morto, e espera no limbo, mansão etérea e sombria onde não há pena nem glória, pelo decorrer desse tempo; e quando uma criancinha adormecida no seu berço está a sorrir, conversa em sonhos com outras criancinhas, como ela, que morreram pagãs.


(COSTA, Pereira da. Folclore pernambucano)

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