Dezembro
2000
Ano III - nº 28 |
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A virgindade explicava nas estórias
populares e na tradição mágica a força irresistível e os atos sobre-humanos de
valentia.
A memória de Roma registra o episódio de Cláudia Quinta, sacerdotisa de Vesta.
Acusada de haver traído seu voto de castidade, a vestal ia sofrer processo que findaria
na morte ritual, sepultada viva. Por esse tempo, 217 antes de Cristo, Aníbal devastava a
Itália e a sibila de Cumes aconselhou a vinda da pedra negra de Pessinonte, na Ásia
Menor, tombada do céu e considerada como a viva encarnação de Cibele. O barco que
trouxe a pedra negra encalhou no rio Tigre e os augúrios anunciaram que uma virgem
arrastaria a embarcação da lama e a poria a nado. Cláudia Quinta invocou a deusa e,
diante de todo o povo romano, amarrou o rastro do navio com o seu cinto de vestal e
puxou-o, desencalhando-o facilmente. Era a prova divina da sua pureza. No Capitólio havia
um baixo relevo recordando o acontecimento.
Diante da donzela raro era o poder mágico operante. O unicórnio feroz desarmava a
cólera bruta e dormia no seu regaço. Um dos mais poderosos elixires da Longa Vida, em
1558, citado e feito em Milão, era composto com o hálito e transpiração de cinco
virgens. A virgem não podia sofrer pena máxima em Roma. O carrasco devia violá-la, como
sucedeu à filha de Sejano, (Suetônio, Tibério, LXI; Tácito, Anais, V, IX). As
secreções de mulheres virgens eram vendidas como remédio.
Há muita fórmula terapêutica em Portugal e Brasil em que intervém uma Maria Virgem.
Faz desaparecer os lobinhos (quistos), mordendo-os, ou impigens, tocando-as com o polegar.
Cura os herniados crianças, fazendo-os passar através de uma árvore fendida, ou de um
junco partido, e recebidos por um João ou um Manuel igualmente em estado donzel.
Nas ventanias tempestuosas, é uso gritar-se: - "aqui tem Maria" e o vento muda
a direção ou amainece. Para cessar a chuva contínua, atira-se farinha seca ao telhado,
mas é uma virgem que o deve fazer.
Usado pela donzela, o diamante duplica o fulgor. Só a virgem acendia e guardava o fogo
sagrado de Vesta em Roma. Na Índia, crê-se que o canto da virgem adormeça o próprio
elefante selvagem (Somadeva, Katha Sarit Sagara, III, 172, ed. Penzer, Londres,
1925).
Nas Ordenações do Reino proibia-se penhorar as donas nem donzelas os panos de seu
corpo, nem cama (Liv. III, tít. 100, § 2).
Os tupinambás do Pará expunham as moças, como prova de castidade, às serpentes do lago
do Juá, acima de Santarém. "A serpente começava a boiar e a cantar até avistar a
moça, e, ou recebia os presentes, se a moça estava efetivamente virgem, e nesse caso
percorria o lago cantando suavemente, o que fazia adormecer os peixes, e dava lugar a que
os viajantes fizessem provisão para a viagem; ou, no caso contrário, devorava a moça,
dando roncos medonhos." (Couto de Magalhães, O Selvagem, 145, ed. 1876, Rio de
Janeiro).
O sangue da virgem era o banho que curava a lepra. A lepra era doença do sangue, na
impressão popular, até hoje mantida. O sangue virgem é o supremo remédio. Já o
mencionavam os velhos romances medievais, evocando a superstição obstinada. Sessenta
donzelas foram sacrificadas, escorrendo sangue numa escudela de prata, para que uma velha
dona se curasse de sua gravidade, narra-se na Demanda do Santo Graal (II, LXII,
436, Rio de Janeiro, 1944). Não é raro o encontro, nos registros policiais, de
morféticos assassinos de moças e crianças, para banhar-se no sangue purificador. O
sangue ou o fígado eram preferidos. O fígado gerava o sangue novo, indispensável à
cura (Luís da Câmara Cascudo, Geografia dos mitos brasileiros, O papa-figo, 278,
Rio de Janeiro, 1947).
As virgens criadoras tiveram o culto mais profundo e natural. Era o poder para a vida e
sempre o potencial mais puro. Nari do indus, Muta-Ísis dos egípcios, Atar dos árabes,
Astoret dos fenícios, Afrodite-Anadiômene dos gregos, Vesta dos romanos, Luonotar dos
finlandeses, Herta dos germanos, Dea dos gauleses, Iza dos japoneses, Ina dos oceânicos
foram reverenciadas nessa invocação espontânea e poderosa.
A potência física para a resistência ao combate, o valor inesgotável, ausência de
medo, a clara alegria incomparável dos heróis, a valentia inexpugnável são emanações
de gigantes. O condestável Dom Nuno Álvares Pereira queria conservar-se virgem, para que
sua força continuasse miraculosa. Na Crônica do Condestabre de Portugal Dom Nuno
Álvares Pereira (cap. IV, 9, ed. 1911) conta-se: "...havia grã sabor e usava muito de ouvir e ler livros de estórias:
especialmente usava mais ler a estória de Galaaz, em que se continha a soma da Távola
Redonda: e porque em ela achava que per virtude da virgindade, que ele houve e em que
perseverou, Galaaz acabara muitos grandes e notáveis feitos, que outros nom poderom
acabar, desejava muito de o parecer em algua guisa".
A virgindade concedia o dom da pureza e dava a energia perene, soberana para todas as
coisas. A tradição das virgens fortes, a Virgo Potens irresistível, terá maior
área de influência religiosa que outro qualquer elemento temático, no mundo do passado
histórico.
A crença popular transforma um tanto a razão da teologia católica. A virgindade é o
estado natural mais próximo de Deus, porque conserva a incolumidade da graça original
intacta e sem a participação terrena do pecado, que é um desfalcador de energia. É o
guerreiro sem medo, porque não tem mácula. A virgem, decorrentemente, será portadora de
uma espécie de santidade in fieri, em potencial, numa fase latente que se
transformará em ação maravilhosa, porque é impelida por força sobre-humana e pura.
O tabu da virgindade não podia ser integralmente compreendido por Sigmund Freud (Obras
Completas, IX, Vida sexual y neurosis, III, Iº, Barcelona, 1948), explicado
sumariamente pelo horror da efusão de sangue e pelo temor a todo ato inicial, talvez o
segundo mais poderoso que o primeiro, para os povos rudimentares, constituintes da
argumentação freudiana. Escapou a Freud a representação mágica da virgindade como
detentora fiel de um poder energético superior aos demais no complexo social. O respeito
à virgem ainda perdura como um testemunho desta herança milenar. O Cristianismo,
naturalmente, sublimou esse estado com a santificação da castidade, viva em Jesus Cristo
e operante no seu clero digno do título. Mas o colégio das Vestais, sozinho, responderia
pela expressão indizível dessa compreensão entre os Romanos. Os poderes e direitos
tidos como inerentes às Vestais, quase no nível imperial, a presença divina irradiante
de suas pessoas testificam que a Virgem era portadora de uma essência espiritual diversa
e superior a todos os colégios sacerdotais de Roma. Não mais explicamos o heroísmo
masculino como conseqüência da castidade, infelizmente, mas a Virgindade continua,
através de uma literatura opaca e cruel em seu ataque, resistindo e dominando.
(CASCUDO, Luís da Câmara. Superstição no Brasil) |
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